Últimas Notícias e Novidades:

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Longe

O Viajante se debruçava o máximo que podia na janela. O vento fustigava seu rosto e a sensação iminente de queda deixavam seu corpo formigando de medo, expectativa e ousadia. Lá em baixo, o oceano se movia lentamente sempre na mesma direção. Na verdade, era o dirigível que voava sobre ele. O Viajante nunca havia sequer imaginado percorrer distâncias tão grandes e em tal velocidade, mas esta era a maneira mais rápida de ir até outros continentes e ilhas.

- Apreciando a vista? - perguntou-lhe o Capitão, se aproximando.

Ele era jovem e robusto, diferente da sua máquina voadora, velha e puída. Quando embarcara, aquele homem havia lhe dito que não era o primeiro capitão daquele dirigível, mas seu sucessor, que o construíra e reformara inúmeras vezes havia construído o zepelim mais resistente e teimoso do mundo; ele nunca cairia enquanto houvesse alguém para pilotá-lo.

Quem o pilotava agora era um homem muito baixo, mas de braços fortes e olhos de falcão. Ele era um bom piloto, mas não tão bom quanto uma certa Timoneira que ocupara seu posto décadas antes.

- Sabe, minha avó já viajou neste dirigível.

O atual Capitão seguiu seu olhar, que estava posto no Timoneiro, e compreendeu onde a mente do rapaz estava mirando.

- Sim, eu sei quem ela foi. Ela participou da última expedição impossível desta máquina. É uma pena, mas os dias dourados do dirigível já passaram.

- Não poderíamos visitar a ilha que eles visitaram? A ilha no céu?

O Capitão deu uma sonora risada, ao que todos os outros tripulantes voltaram sua atenção para os dois.

- Não, amigo! Seria uma empreitada de muitos anos, e temos carga importante para transportar. Se ao menos eles tivessem deixado um mapa com as direções... mas não, a ilha no céu é um lugar que se deve chegar através de seus próprios esforços.

- Mas o senhor já a procurou, não? Tem pelo menos uma idéia de onde ela pode estar? Sobre qual oceano, ou perto de qual continente?

O Capitão ficou pensativo por um longo tempo antes de responder:

- Só o que eu sei é que aquela ilha está fora do nosso alcance, rapaz.

O Viajante voltou a olhar pela janela depois que o Capitão se afastou. O mar continuava correndo abaixo do dirigível. Há dias o cenário não mudava. Não havia nem mesmo ilhas para mudar aquela vista, muito menos a ponta do continente que era seu destino. Por que todas as terras que ele procurava ficavam tão longe?

terça-feira, 21 de maio de 2013

Metamorfoses

Nem faz tanto tempo assim, mas o restaurante em que almoçávamos já mudou de nome e fechou. Passei hoje ali na frente, e vi a fachada triste com vidros sujos e paredes pichadas. Tantas boas companhias naqueles almoços, e talvez o que foi nosso primeiro jantar a dois.

O estacionamento ao lado virou um edifício, que está quase pronto. Gente não vai faltar para morar ali, perto de tudo. Mais gente para o centro da cidade... E o trânsito, só piorou desde então. 

À noite, o calçadão em que caminhamos entre um café e outro tem uma nova iluminação. Aquelas românticas luzes amarelas foram trocadas por brancas, como um escritório ou uma fábrica. As calçadas em torno perderam os antigos desenhos de pedras brancas e pretas, para ganhar vãs peças simétricas cinzas e vermelhas. Mas os saltos finos e as cadeiras de rodas agradecem.

As ruas que me levam à sua ganharam novo asfalto, e outras tantas mudaram de sentido.

Nem faz tanto tempo assim, e quantos amigos vimos juntos se formarem e casarem. Quantos aniversários, passeios, cinemas, almoços e jantares!

No entanto, parece que há muito tempo juntamos minha vida à sua. Aquele desconhecido sem demora virou meu maior confidente; e palavras que nunca ousei pensar as falo sem medo a você. O medo agora é outro. Após de fato tanto tempo, com restaurantes, estacionamentos, prédios, calçadas, ruas e pessoas diferentes, seremos os mesmos dois? O que a cidade pode fazer de nós, ou nós da cidade... e de nós mesmos?

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Serendipity

O parque estava cheio aquela noite. Crianças andavam para todos os lados carregando doces e brinquedos. As pelúcias conquistadas no tiro ao alvo corriam de mãos-dadas com os respectivos ganhadores enquanto o doce cheiro de caramelo borbulhando no tacho da senhora de um olho se espalhava pelo ar. 

- Vai uma maça do amor aí, meu jovem? - A senhora ofereceu sorridente. 

Ele apenas balançou a cabeça e agradeceu. O ruim de falar com as bruxas do norte era que você nunca sabia se elas estavam piscando ou flertando com você. 

Continuou o caminho por entre as tendas. Sonhos engarrafados, pelúcias encantadas, doces que duravam para sempre. Fadas vendendo pingentes da sorte que realmente funcionavam, anões vendendo ouro amaldiçoado de terras distantes. Ninguém nunca sabia onde eles conseguiam comprar aquilo. 

Ao longe um senhor com uma pequena plateia fazia um show com marionetes. As crianças sentadas no chão aplaudiam entusiasmadas e jogavam moedas dentro de um chapéu velho. O show durou apenas mais três minutos e então tudo ficou em silêncio novamente. 

- Eu sabia que iria encontrá-lo aqui. - Ele parou ao lado do senhor que estava recolhendo o dinheiro do chapéu. 

O senhor sorriu. Não precisou virar para saber quem estava ali. Eram velhos conhecidos. Mais velhos do que o tempo dos humanos podia contar. Permaneceram em silêncio por alguns minutos, ambos sentados no meio-fio. O senhor examinava uma de suas marionetes e traçava seus fios com os dedos. 

- Não é curioso, meu amigo? - Ele disse distraidamente. Vendo o olhar interrogativo em resposta ele apenas continuou. - A vida. Tudo. Essas pequenas linhas que nos ligam uns aos outros. Essas linhas coloridas, finas, largas, indestrutíveis. Veja você mesmo. - Com apenas um gesto do velho o mundo a sua volta mudou. Milhares de linhas coloridas e brilhantes surgiram. Vermelhas, roxas e douradas, elas se entrelaçavam e se ligavam, indo de uma pessoa a outra. Pessoas que estavam predestinadas a se conhecer. Pessoas que já se conheciam. Um verdadeiro arco-íris de linhas. O mundo, aos olhos do velho, era um enorme tear no qual a base era nada além de nós mesmos. E o destino comandando a agulha. 

Passou alguns segundos contemplando as linhas. Era uma das coisas mais bonitas que já vira. - Então você quer dizer que tudo está predestinado? Que você não nos deixa nenhuma escolha?

- Muito pelo contrario meu amigo. Vocês são donos de todas as escolhas. Vocês as vezes não percebem quanto poder tem nas mãos. É infinito. Essas linhas ligam um humano ao outro. Mas quem decide se elas se tornarão fortes cordas douradas ou fiapos roxos são só vocês. As vezes vocês conhecem pessoas muito especiais que estão destinadas a mudar suas vidas. Mas elas não sabem disso, nem vocês. E cabe a vocês permitir isso. Ninguém conhece ninguém por acaso. Algumas cordas são mais fortes que outras. Algumas são tão finas e fracas que se rompem antes mesmo de nós nos darmos conta. Mas cabe única e exclusivamente a vocês fortalecer isso. Eu dou a chance, vocês decidem se querem ela ou não. Minhas costuras e nós são resultados das suas escolhas. 

- Então nada acontece por acaso? - Repetiu. 

- Nada. Mas isso não quer dizer que você não vá ter boas surpresas. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O embate do natural

Dizem que o silêncio acalenta a alma. Quem disse algo assim nunca esteve em um traje espacial consertando um painel no vácuo a milhares de quilômetros da Terra.

Para evitar que o técnico tivesse uma crise nervosa enquanto apertava seus parafusos, exposto às mazelas do cosmo e ao silêncio absoluto, uma música suave tocava internamente em seu capacete. O ambiente quase ficaria poético, não fosse o tédio das já duas horas suspenso em gravidade zero sem fazer outra coisa.

Naquele momento, o homem se lembrou de algo interessante: a Terra estava particularmente próxima da colônia de mineração de asteroides. Decidiu dar uma pausa em seus afazeres e olhar para trás por alguns minutos.

Era um ponto azul sobre um fundo escuro, nada muito maior que isso, nem sequer era majestoso. Também não era particularmente brilhante, não impunha mais respeito que os belos lençóis de estrelas que cobriam profundamente o véu escuro que se espalhava ao redor. Era, porém, sua casa, seu porto seguro inalcançável. Por quantos anos os humanos se sentiram presos ao chão? O quanto ansiaram por aventuras longe de casa? Agora, esse humano em específico só pensava em voltar.

Esticou sua mão coberta pela malha branca de seu traje espacial. Como era pesado fazer movimentos longos... aquele não era o lugar dos humanos e aquela não era a forma natural para um homem se movimentar. Pessoas no vácuo não sobrevivem... mas ele estava ali, artificialmente protegido da fúria da natureza.

Deus prendeu os pés ao chão e não deu a capacidade de voar, o ser humano criou suas próprias asas. A natureza tirou pernas, o ser humano adaptou rodas. A existência humana até ali foi uma eterna batalha para superar as limitações impostas pela realidade. Os sábios diziam "A natureza sabe o que faz", os teólogos diziam "Deus escreve certo por linhas tortas". O que dizer dos incautos que decidiram fazer melhor com as próprias mãos?

Será afinal que existe um Deus além desse véu de escuridão lançando provas contra nós? Incentivando os imprudentes a crescer? Forçando esse animal tão orgulhoso a lutar?

Não, as limitações e os desastres não são o castigo divino, são o empurrão para a independência. Aquele ponto azul não é mais uma jaula, é o mais belo ponto azul a ser visto por humanos de um local onde eles não deveriam estar. Ali havia beleza não pela majestade, mas pelo significado. Deus delimitou o território, os humanos, petulantes, saltaram o muro.

Agora há um homem no vácuo apertando parafusos, apenas preocupado em não ficar entediado. Mais um desafio superado, um jogo onde nos lançam desafios e nós enfrentamos por não aceitar essa sabedoria. O técnico apontou o indicador para a Terra como quem desafia o divino. Fizemos nossa jogada, agora é sua vez.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Um Castelo Vazio

Dois pares de olhos curiosos espreitavam as ruínas. Não eram muito grandes, nem muito antigas. Apenas um pedaço do telhado havia desabado, mas o madeirame que o sustentava estava inteiro, assim como o restante da Torre logo abaixo. As pedras estavam tomadas por hera e limo, tornando o cenário ainda mais sombrio, úmido e impregnado de reverência. A construção espelhada no lago era idêntica, à exceção de eventuais ondulações causadas por um vento muito leve.

Os pares de olhos curiosos observavam, suspensos no tempo como se nem eles nem a Torre pertencessem a este. O lugar não estava vazio há muito tempo, mas ninguém que estava vivo hoje conhecera pessoalmente seu último inquilino.

A Menina, dona de um dos pares de olhos curiosos, finalmente se cansou e abaixou o olhar para os próprios pés. A grama em volta deles estava alta.

- Que triste! É tudo tão vazio aqui. Tão sem vida.

- Como assim? - o Menino retrucou, verdadeiramente confuso. Seus olhos curiosos estavam fixos na janelinha mais alta da torre, onde só se via escuridão.

- Olha só pra isso! Ninguém mora aqui há décadas! Está começando a cair aos pedaços. Uma torre dessas perdida assim no meio de uma planície sem nada é tão... tão... solitário.

- Não acho. Pense que alguém, em algum momento, morou aqui, senão essa torre não existiria. Talvez fosse uma princesa, ou então uma feiticeira que precisou se esconder, pois seus poderes eram muito perigosos para o resto do mundo. Deve haver uma masmorra também. Imagine quantos prisioneiros não estiveram presos aqui, ou então monstros. E quantos cavaleiros já devem ter tentado invadir a torre? Cinco, dez, cinquenta? Todas essas pessoas e criaturas passaram por este lugar. Mesmo que esteja abandonado agora, quem disse que ninguém pode consertá-lo e voltar a morar aqui?

- Essas coisas só existiram na sua cabeça. Nada disso aconteceu.

- Você não sabe! Pode ter acontecido tudo isso, e muito mais. Esse é o lindo desse lugar: seu passado contém tantas possibilidades quanto o futuro, pois nós temos a prova bem na nossa frente de que este lugar já teve uma história. E nós não sabemos de nada que aconteceu; nem sequer o motivo do seu abandono. São tantas as possibilidades de passado que chego a ficar tonto... E todos esses passados podem fazer parte do nosso futuro, se a gente o explorar.

A Menina lançou um demorado olhar para a Torre. Seus olhos não tinham mais a curiosidade frustrada de antes, mas exibiam um brilho diferente. Era como se ela tivesse sido tomada pelo espírito atemporal e investigativo do qual o menino falava.

"O passado está vivo no futuro... tanto quanto o futuro reflete o passado."