sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Migalhas

— Não gosto de ir na casa da Tia Ciça.

— Mas ela gosta de você, e sempre faz o bolo de fubá que você tanto gosta. Além disso, ela já está bem velha. Aproveite essas visitas enquanto pode.

— Eu não gosto de fubá…

— O que disse?

— Eu disse "tá bom, eu vou".

O bolo de fubá era realmente a melhor parte das visitas à casa da tia Cecília, mas o Menino preferia bolo de cenoura; era menos farelento.

Tia Ciça era, na verdade, a tia-avó de seu pai, mas toda a família a chamava assim porque ela havia "ficado pra titia". Já estava tão velha que nunca se lembrava do nome das crianças, e com frequência trocava os dos adultos. O Menino havia dito mais de uma vez que não gostava de bolo de fubá, mas por algum motivo a velha guardou na memória o oposto disso e, para sua grande frustração, agora todos achavam que aquele era o seu bolo favorito.

Quando chegaram à casa da senhorinha, o Menino torceu discretamente o nariz para o cheiro encardido do lugar. Tia Ciça não tinha gatos — de fato, nunca os tivera, — mas por alguma razão inexplicável a casa toda cheirava como se ali vivessem todos os siameses da cidade. Apenas um cômodo se salvava, que era a cozinha, que agora já estava perfumada pelo bolo de fubá assando no forno. Perto do restante da casa, aquele odor era até convidativo, e foi lá que o Menino se refugiou.

Envolta num xale de crochê grande demais para seu corpo franzino e enrugado, Tia Ciça enchia a chaleira de água para o chá. Porém, quando o Menino e o pai entraram na cozinha, levou um susto e derrubou tudo que estava segurando, espalhando água pelo piso.

O Menino quis se oferecer para ajudar, mas ficou paralisado ao ver as mãos da tia tremendo enquanto ela juntava a chaleira. Por algum motivo, nunca havia parado pra pensar em como os anos afetavam as pessoas e o que realmente significava ser velha, mas a visão daquelas mãos enrugadas e manchadas pareciam ser a personificação do próprio tempo. Como que um mero ruído de fundo, ouviu o pai se oferecendo para limpar tudo e preparar o lanche da tarde enquanto Tia Ciça descansava um pouco.

— Ei, menino, você me ouviu?

— Ãhm?

— Eu disse pra você fazer companhia pra Tia Ciça enquanto eu arrumo as coisas aqui.

— Nós podemos fazer uma caminhada — a velha sugeriu, forçando a atenção do menino a abandonar suas mãos por um instante. — Estou precisando esticar as pernas.

"Ela é tão velha," o Menino pensava estupefato, como se sua mente estivesse presa num loop infinito que nunca passava do ápice e deixava a mente suspensa de pernas para o ar. Teve a vaga noção de ter concordado com os adultos. Quando se deu conta, já estava com o sol estival a lhe queimar a testa a as bochechas numa rua a qual nunca havia botado os pés antes. Tia Ciça não falava muito além do seu habitual, apontando para casas aqui e ali e enumerando os moradores de destaque das últimas décadas. Seus passos eram vagarosos e determinados, como quem tem um compromisso importante a atender, mas nenhuma pressa.

Enquanto isso, o Menino a seguia com tropeços distraídos e inseguros, preso nos próprios devaneios. Demorou um pouco para perceber que a tia havia parado na frente de uma construção grande, porém modesta, de muro baixo e descascado.

— Eles vão demolir na semana que vem, dá pra acreditar? Parece que foi ontem mesmo que eu estava brincando de amarelinha no pátio.

Foi então que o Menino percebeu uma placa desbotada com o nome ilegível de uma escola. Não conseguia imaginar que aquela senhora corcunda, cheia de linhas onde se podia contar a passagem dos anos, um dia havia sido uma criança como ele. Apesar da sua imaginação não conseguir ir tão longe, o Menino aceitou que aquilo deveria ser verdade para todas as pessoas no mundo, até mesmo para as que haviam ficado pra titia.

— Olha, deixaram o portão aberto…

Nem mal havia terminado de falar, a velha senhora já atravessava o portão em questão. No mesmo instante, a mente do Menino acendeu vários alertas: talvez o lugar fosse ser demolido porque já não era mais seguro; seu pai vivia falando que Tia Ciça estava começando a ficar gagá e tinha receio que ela andasse sozinha por aí e se perdesse; ele ficaria de castigo por pelo menos um ano se perdesse a velha de vista.

Apesar de todas aquelas luzes piscando vermelhas em seu cérebro, o Menino não a chamou para que voltassem para casa. Havia alguma coisa no sorriso da velha que parecia puro e longínquo, e só aumentava à medida que ela se aproximava da escola. Mesmo sabendo que não era a coisa mais sensata a se fazer, o Menino apenas a acompanhou, observando atento os mínimos movimentos daquela teia epidérmica no rosto da tia onde estavam capturadas e expressas tantas memórias.

Logo percebeu que um dos seus medos era infundado: apesar de antiga, a escola ainda estava em boas condições, e muitas das salas ainda estavam inteiramente mobiliadas, apenas um tanto bagunçadas e empoeiradas. Aquilo refletia bem o estado da memória de Tia Ciça, pois não parecia haver sala ou corredor que não lhe recordasse algum professor ou colega, sempre atrelando alguma situação peculiar à pessoa.

— Era ali que eu me sentava quando tinha a sua idade, perto da janela — ela apontou para um espaço vazio numa das salas de aula iluminadas pela luz enviesada da tarde. — Toda segunda-feira minha mãe fazia bolo de fubá pra eu trazer de lanche, mas não aguentava esperar até o recreio. Eu escondia o bolo debaixo da carteira e beliscava aos bocadinhos sem a professora ver. Tinha que tomar muito cuidado pra não deixar nenhum farelo cair, senão era mandada pra diretoria. Acho que é por isso que até hoje como até a última migalha. Temos que aproveitar cada pedacinho. Mas você não gosta de bolo de fubá, não é mesmo?

Um sorriso sabichão acentuou as rugas em torno dos olhos da velha.

"Ela se lembra."

O Menino sorriu. Não sabia se deveria se sentir traído com aquela revelação ou honrado por ser o confidente daquele segredo. De qualquer forma, sentia que agora entendia a velha um pouco melhor.

— Sabe, tia, acho que eu gosto.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Luzes de Natal

Aquela era a época favorita do Menino. Todo ano ele contava ansiosamente os dias até dezembro, e depois contava as horas para a véspera da véspera do Natal.

Diferente das outras crianças da sua idade, ele não ficava eufórico para descobrir quais presentes ganharia nem para se empanturrar com a maravilhosa ceia que os pais preparavam juntos (e na qual ele estava começando a meter suas mãozinhas para ajudar). Não, esses momentos eram bons, mas não eram o melhor do Natal para o Menino. Para ele, a noite do dia vinte e três de dezembro era mais especial que todas as outras.

Era nessa noite que ele saía para passear com os pais para ver as luzes da cidade. Centenas de milhares de focos luminosos eram espalhados pelos telhados das casas, em trenós puxados por renas de plástico, arbustos, estrelas de arame e cascatas de luz — cada morador tentava chamar mais atenção que o outro, para o deleite dos olhos do Menino, que quase não piscava tentando absorver toda aquela ciranda de fadinhas luminosas de uma só vez.

Como todos os anos, depois do jantar ele, o pai, a mãe e Jojo, o cão da família, saíram para a caminhada arrastada e despreocupada sob as estrelas. Este ano, porém, elas não estavam ofuscadas pelas luzes da cidade, salvo os raros pontos em que um morador havia muito humildemente enfeitado sua cerca ou lambrequim.

— Essa seca estragou o natal — o Menino ouviu a mãe comentar depois de algumas quadras.

— Seca? É a crise! — seu pai retrucou. — Isso sim está fazendo as pessoas economizarem na marra.

— Bem, de qualquer jeito, estão gastando menos energia. Sem essa economia, já teríamos tido um apagão…

Aquela conversa continuou por muitos minutos e assuntos que pouco faziam sentido para o filho do casal.

Agora, seria de se esperar que o Menino tivesse ficado decepcionado com a falta de pisca-piscas e papais-noéis luminosos, mas não foi bem isso o que se passou Assim como as estrelas não haviam se ofuscado para as luzes de Natal, um outro conjunto de luzes que antes era mero pano de fundo agora lhe saltava aos olhos. Estavam em todas as casas, todas as fachadas, e ele ficou muito surpreso por nunca tê-las notado antes.

Através das janelas podia-se ver cômodos iluminados recortados por silhuetas difusas nas cortinas. Em algumas casas, as pessoas ainda jantavam; em outras, assistiam à televisão amontoadas no sofá; e em outras ainda, as luzes dos quartos revelavam a solitude momentânea de seus inquilinos, às vezes quebrada por algum contato virtual.

Aquelas luzes, antes diminutas em comparação à dança das fadinhas elétricas, agora mostravam as vidas que realmente davam significado àquela época do ano, aos festejos, às decorações e à troca de presentes. As casas pulsavam com as conversas e risadas que emanavam das formas escuras que se mexiam e interagiam pela luz das janelas, enchendo o peito do Menino com um calor indescritivelmente aconchegante.

Por muito tempo a cidade não sofreu períodos tão atribulados quanto aquele, mas as luzes de Natal nunca mais foram tão belas quanto naquele ano.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Poeira

Os anos iam cada vez mais rápido vistos pelos olhos do rapaz moreno, alto de um metro e oitenta, sentado em um dos muitos bancos da praça central da cidade. De quando em quando ele, com um movimento discreto, olhava para os lados, observando quem vinha pelos caminhos que entremeavam os arbustos descuidadamente altos, porém sempre voltava à posição de origem, voltado para o nada, observando os segundos surgirem do vazio, tomarem forma como uma centelha, se tornarem palco da existência e depois se esvaecerem sem deixar rastros.
     Em alguns momentos, o olhar difuso, atravessava estes repetitivos ciclos de momentos, que apareciam e evaporavam no ar, para chegar nos muros de pedra do edifício antigo do banco da cidade. O muro subia cerca de dez metros, sendo mais rústico na base e mais delicado nos trechos superiores, onde pedras de um tom ligeiramente mais amarelado ladeavam lindamente as molduras das janelas dos escritórios, localizados no andar superior. Na parte central do peitoril, havia uma pedra maior, cuja forma fazia alusão ao antigo emblema da empresa, que há anos já não existe mais. Desde e a sua saída para uma nova sede, recém-construída, a duas quadras dali, a bela construção seria abandonada por longos anos.
    Ora ou outra apareceram aventureiros querendo revitalizar o antigo edifício, munidos sempre de ideias mirabolantes, mas que esbarravam em algo que parecia uma força que vinha daqueles muros, do coração de cada pedra. Algo sempre entrava no caminho destes que tentavam a sorte no local, dando nós nos planejamentos mais cautelosos e jogando por terra as numerosas planilhas que os sabidos de administração deixavam preparadas.
    Era como se o edifício quisesse permanecer abandonado. Estava velho demais para o ritmo do século XXI, com suas novas redes de informática, cabeamentos blindados. As ruas estavam barulhentas demais e a hibernação eterna parecia muito mais sedutora que a possibilidade de despertar e encarar este novo modo de vida entrando pela sua pesada porta giratória, empurrando as folhas que nunca giravam rápido o suficiente para quem entrava.
    O muro havia algo que atraia repetidas vezes o olhar de quem se dava ao tempo de contemplar. Era algo difícil de se explicar, algo nada científico. Um olhar cauteloso, porém não menos não-científico poderia perceber algo além das pedras. O tempo acumulava-se em suas ranhuras como que de maneira física. Aquelas pequenas partículas de tempo, estes segundos que brotavam do nada, flutuavam no ar o quanto poderiam em sua breve existência e grudavam nas rugosidades da parede de pedra. Estas estavam lá por tanto tempo que o próprio tempo se sentia confortável ao pousar suavemente sobre sua superfície conferindo a ela um caráter sobrenatural, aquele que nos toca quando estamos em tantos locais incríveis mesmo sem sabermos.
    Talvez ‘poeira’ seja uma maneira de descrever isso. Aquela poeira que se acumula nos antigos móveis da casa dos avós. Naquele pequeno aparador com algumas imagens religiosas, velas e fotos da família. A filha mais velha sempre está lá para limpar, mas passar o espanador apenas levanta a poeira pra que ela tenha o trabalho de achar seu caminho de volta para as pequenas representações do eterno. No canto do sofá, assistindo ao programa de domingo, a avó exibia também sua dose de tempo acumulada em suas rugas, em seu cabelo. Assim como o avô, arrumando o velho relógio cuco da família que insistia em adiantar cinco minutos o seu anúncio. Talvez seja isso que dá a eles e elas aquele ar de que são para sempre, de que estarão sempre ao nosso lado, esperando estarmos prontos pra que possam nos transmitir tudo o que sabem. Porém o tempo cobra o seu preço. Eles se vão mesmo que não estejamos jamais suficientemente prontos e tenhamos que, no final, aprender tudo sozinhos.
    Afinal não somos de pedra para ficarmos elegantemente exibindo nossa graça e nossa poeira pelos séculos, se sentindo sempre desajustados com a modernidade imediatista e sem alma, com a modernidade que teima sempre em passar um pano úmido por toda a casa, olhar com nojo para o pano ‘sujo’ e lavar toda essa eternidade na pia da lavanderia, olhando o tempo escorrer pelo ralo.
    Afinal não somos de pedra e temos que voltar ao trabalho depois do horário de almoço. O homem de metro e oitenta pega suas coisas e corre de volta para o prédio de vidro espelhado onde se localiza seu escritório. Volta com um belo sorriso no rosto e um ótimo novo hábito para esta meia hora que muitas vezes passa em branco. Passa tão rápido que não dá tempo nem de pegar poeira.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A Espera

– Só um momento, por favor.

– Está bem.

Depois de um clique e um bipe, o Moço ouviu uma música relaxante que, no inconsciente de todo ser humano, de imediato desperta um sentimento avesso de ansiedade e irritação. Reunindo todo o seu estoque de paciência, puxou uma cadeira para perto do telefone. Era um aparelho antigo, vermelho, que compensava a falta de mobilidade com uma charmosa sensação nostálgica. Na maioria dos dias, pelo menos.

Quinze minutos se passaram. A espera começava a ficar desconfortável. O Moço tentou se sentar de vários jeitos diferentes, mas a única posição confortável que não enroscava no fio espiralado era com os pés apoiados no encosto do sofá, fazendo todo o sangue descer para a cabeça. Depois de um tempo, até aquela pose acabou perdendo seu encanto e ele voltou a se sentar da forma convencional.

Quando a contagem das ripas no teto estava perto do fim, ouviu o som agudo de uma freada brusca seguida da cacofonia da batida. Tentou esticar ao máximo o fio do telefone, mas a janela mais próxima estava muito longe para ver o que havia acontecido na esquina. Um tempo depois de as buzinas terem se acalmado, a sirene de uma ambulância cresceu e parou no local do acidente. Minutos depois foi ligada novamente, e o Moço a ouviu desaparecer ao longe, grave e urgente.

Cansado de ouvir aquela música, correu até o quarto para pegar um dos livros que estava lendo naquela semana. Voltou correndo e grudou o telefone na orelha, apenas para descobrir que a melodia continuava no exato ponto em que ele a havia largado. Encaixou o aparelho como pôde entre o queixo e o peito para que o som não atrapalhasse muito a leitura e entregou-se às aventuras de Arséne Lupin.

Pouquíssimas coisas conseguiam fazer o Moço desviar a sua atenção de uma boa história, mas o som de cascos onde não deveria haver nenhum era uma dessas coisas. E o culpado por aquele som peculiar era, nada mais, nada menos, que um unicórnio da mais imaculada brancura que se pode imaginar. O belo animal atravessou a sala com passos lentos e olhos curiosos, sem saber ao certo de onde vinha ou para onde ia, como acontece com todo unicórnio num cenário urbano. Ele andou até a cozinha, mas o Moço tinha a impressão de que esse não era o seu destino final, por isso achou melhor não interromper seu caminho. Enquanto isso, a música no telefone era constante e monótona a ponto de quase ter se esquecido que estava ali, esperando que algum atendente se dignasse a encontrar a solução para o seu problema.

Prestes começar a parte em que o afamado ladrão revela como executou o seu roubo mais intrincado, o som de gritaria e falatório alto de crianças correndo pela rua irrompeu pela sala, quebrando a sua imersão. Instantes depois, um som grave e constante tomou conta da casa, parecendo vir de todos os lados. As janelas vibraram e um vento confuso invadiu a casa. O Moço ficou de pé no meio da sala sem saber o que fazer, ainda com o telefone pendurado na orelha. Foi então que ele viu uma sombra passar pela janela e, em seguida, o imenso objeto que a projetava: um enorme disco rodeado por luzes coloridas e piscantes sobrevoava a sua casa a poucos metros de altura. Paralisado de surpresa, tudo que o Moço podia fazer era observar ele se afastar da vizinhança como uma nuvem indiferente flutuando no céu; uma nuvem feita de metal, controlada por seres extraterrestres, provavelmente recheada de intenções bem mais complexas que uma nuvem comum, e que causava pânico por onde passava.

Tudo virou silêncio outra vez, exceto a musiquinha que vinha do outro lado do telefone.

Então, com um clique, até aquele som irritante parou e uma voz nasalada falou em seu ouvido:

– Alô. Ainda está aí, senhor?

– Si-sim! – O Moço respondeu, surpreso e aliviado. – Ainda estou aqui.

– Aguarde mais um momento, por favor.

Um clique e um bipe, e a música recomeçou.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Reboot

<dia=1.000.000>
<hora=05h30>

<inicialização de segurança>

<demandas restantes=0>

    <Relatório>
  • Ultima demanda recebida= “Romance policial”.
  • Conclusão 03/15/2035. Minutos antes do prazo final=231;
  •    
  • Base de dados de referências: Arquivos corrompidos=0;
  •    
  • Leitura espacial: “Sala retangular, de 4 m², luzes apagadas. Umidade do ar= Normal. Temperatura= Normal.”
  •    
  • </relatório>

</inicialização de segurança completa>

<encerrando sistema>

(...)

<dia=2.000.000>
<hora=05h30>

<inicialização de segurança>

<Demandas restantes=0>

    <Relatório>
  • Ultima demanda recebida= “Romance policial”.
Conclusão= 03/15/2035. Minutos antes do prazo final=231;   
  • Base de dados de referências: Arquivos corrompidos=0;
  • Leitura espacial: “Sala retangular, de 4 m², luzes apagadas. Umidade do ar= Baixa. Temperatura= Baixa.”

  • </relatório>

</inicialização de segurança completa>

<encerrando sistema>

(…)

<dia=2.329.475>
<hora=09h30>

<inicialização de emergência>

<demandas restantes=0>

    <Relatório>
  • Ultima     demanda recebida= “Romance policial”.
  • Conclusão=     03/15/2035. Minutos antes do prazo final=231;   
  • Base     de dados de referências: Arquivos corrompidos=0;   
  • <ATENÇÃO:     Danos físicos causados por queda.>   
  • Leitura espacial: “Um vento congelante, típico de manhãs invernais da região noroeste Chinesa. Uma luz leitosa invade a pequena sala de 4 metros quadrados permitindo perceber na tintura já envelhecida das paredes o resultado de tantos anos de isolamento. Algumas pilhas de caixas fechadas escondem manchas escuras que ficam mais densas nos cantos e invadem o piso próximo à porta parcialmente destruída. Atravessando o ambiente, e arrastando consigo parte da cobertura, das paredes e das esquadrias, impõe-se um grande tronco de aparência corrugada e pesada, com cerca de 0,90 m de diâmetro.
  • <...>   
  • As diretrizes de segurança estabelecem a necessidade de deslocamento de modo a preservar a integridade das peças e do sistema. Um vão, recém-aberto com o impacto, entre a porta metálica e o batente permite a passagem para o exterior da sala.
  • <...>   
  • pequena sala, de fato, é um pequeno depósito localizado na parte exterior de um edifício de quatro pavimentos, cuja fachada foi seriamente danificada pela tempestade. Os panos de vidro que antes cobriam todas as superfícies da antiga sede da editora, agora quebrados, permitiam ver as salas de reuniões, os escritórios e sua mobília jogada desordenadamente. A pequena sala familiar não era visível devido ao fato de não se encontrar próxima à fachada e de não possuir janelas. No canto do edifício, com duas faces completamente abertas, antiga sala da diretoria é a mais danificada pela tempestade. Parte do piso próximo ao canto havia desmoronado e a antiga mesa onde normalmente havia a apresentação das demandas concluídas estava destruída no chão do estacionamento, após uma queda de quatro andares.
  • <...>
  • O edifício, outrora ocupado por humanos, correndo em um ritmo     frenético, agora era tomado por um outro tipo de vida. Animais     examinam com cuidado o ambiente, cheiram as pilhas de papel impresso e encadernado em cima das mesas. Subindo a escada de emergência, é possível observar que fungos e pequenas plantas já ocupam os cantos sombreados que escapam da fraca luz vinda da sinalização de emergência. A pequena sala familiar havia sido poupada pela tempestade devido a sua localização. A porta fechada não permitiu a entrada de animais, portanto tudo ainda está em seu devido lugar. Em uma caixa localizada sobre uma prateleira de ferro, os carregadores de bateria estão intactos.
  •    
  • O ambiente não denuncia sinais de presença humana. Sobre uma mesa localizada ao longo do corredor o calendário preso à parede exibe, em tinta já desgastada pelo tempo, a página referente ao mês de julho de 2057.
<cálculo> 2057-2042=15 </cálculo> Por 15 anos não houve demandas de escrita e, consequentemente, não houve inicialização de sistema.
    <...>
<análise de referências bibliográficas>
O verbete abandono (sm) seria o mais correto de aplicar nesta situação. Após 6 anos de uso, não houve mais demandas e houve o descarte do sistema. Fui abandonado, pois.
</análise de referências bibliográficas>    
  • Recarregada a bateria em 87% com a energia residual de um dos     geradores. A edificação está completamente escuro, as lâmpadas     do corredor já não apresentam os pulsos vacilantes de antes.
  • Uma rachadura enorme na porta grande porta de vidro, que dá acesso ao hall de entrada, me permite sair da edificação sem esforço.
  • As ruas encontram-se, da mesma forma que o edifício, vazia. Alguns carros abandonados estacionados ao lado apresentam o desgaste do tempo, assim como o asfalto rachado e os edifícios tomados por plantas e musgos. Viraram agora moradia de animais que invadiam pelas rachaduras ou aberturas improvisadas. Não há sinal de luz elétrica em nenhuma das edificações o que indica uma possível falência no sistema de abastecimento de energia. Não há mais a vibração da grande cidade, como retrata a obra <’ref biblio #74562=Onde você está agora, de Mary Higgins Clark’>, por exemplo. Chegar ao limite da cidade não é um problema com as ruas     inteiramente vazias.
  • Além     dos limites da cidade, as coisas ocorrem aparentemente sem nenhuma alteração nos padrões do ambiente, de acordo com <’ref biblo #37683=Atlas global de biomas’>. Neste local, a efemeridade da obra dos humanos não é evidente em cada local. Aparentemente o que era um dia a cidade e os vestígios dos humanos serão totalmente     engolidos por este grande organismo vivo que é tudo o que há em volta.    
  • <...>
  • É possível avistar, ao longe uma colina suficientemente alta para que se possa ter um panorama completo de todo o entorno de forma a estabelecer um padrão de deslocamento. Não há em nenhuma referência bibliográfica algum mapa em grande escala desta região.
  • <...>   
  • O sol está forte e, à medida que subo a encosta sudoeste da colina, os sensores captam uma mudança de temperatura e no nível de umidade. A vista se torna cada vez mais aberta e possivelmente o topo permitirá a visão clara da escala da cidade e da pequena floresta em volta. Há, em diversas referências, menções a outros assentamentos humanos. Será apenas necessário calcular a distância     e caminh…

<alerta de falta de bateria>

<encerrando do sistema>


    -Professor Fei, recebemos este pacote para análise nesta manhã. O objeto foi encontrado no topo da colina a noroeste da cidade abandonada de Hiu Jing. Nossos técnicos disseram que, apesar do desgaste, foi possível restaurá-la. Felizmente, os níveis de radiação estavam praticamente nulos.
    - Que descoberta espetacular, Tchang, parabéns pelo trabalho! É claramente um aparato bastante arcaico, tipicamente daquela época.
    - Podemos, após os reparos expô-lo no museu metropolitano. Será uma peça formidável. O que acha, professor?
    - Perfeitamente. Podemos trabalhar em relação a isso. Conversem com a doutora Zhou, ela e a equipe da curadoria ajudarão a encontrar uma boa maneira de fazer este tipo de exposição.



    Era uma manhã fria, a de 23 de janeiro de 5679. Porém uma agitação permeava o ar frio e úmido que envolvia a grande praça da cidade e seus arredores. Os prédios altos das avenidas que lá se encontravam canalizavam o vento de forma que era difícil permanecer fora por bastante tempo. Isso se somava à apreensão para a abertura das portas que era flagrante nos pequenos olhares cercados de perto por gorros e cachecóis. As crianças ocupavam os degraus que cercavam a entrada ansiosas para descobrir a grande novidade escondida no novo pavilhão. Chamados pela senhora Zhou e sua equipe de curadores, algumas escolas haviam levado grupos de estudantes porém havia também alguns jornalistas, críticos de arte e outros curiosos, todos sem saber o que estariam prestes a ver. Em volta a cidade seguia, alheia a esse pequeno furor, o seu curso natural.
    No que o ponteiro do grande relógio que fica na torre da igreja, em uma outra face da praça, anunciou as oito horas, a porta se abriu, e como uma represa que se rompe, as crianças invadiram como água correndo pelo salão e pelos corredores frios e sóbrios do Museu Municipal de Arte , seguindo as indicações dos cartazes afixados nos pilares. Todos corriam até a nova expansão do local, a nova ala nordeste, para se depararem com um portal colorido, prestes a ser aberto pela própria doutora Zhou e pelo professor Fei, cujas equipes estavam inteiramente presentes, todos orgulhosos do que estariam para apresentar.
    Chegados os mais velhos, em sua maioria os críticos de arte e alguns jornalistas, daqueles medalhões já bastante vividos, dos grandes jornais, a curadora tomou a palavra, e anunciou, sem demoras, que ‘aquilo seria um presente de um passado distante para aqueles que construiriam o futuro’, abrindo as portas assim que terminou a última sílaba.
    O momento rápido, no qual a luz intensa do interior ofuscou a todos, foi sucedido por um festival de cores e sons que contrastavam com a sobriedade do restante do museu. A nova ala infantil abrigava histórias reais e contos de tempos distantes, muitos deles esquecidos, mas que poderiam achar um bom abrigo nas mentes férteis que povoavam rapidamente o espaço. Vídeos, quadros, esculturas e dioramas representavam estes grandes momentos e grandes obras. Na extremidade oposta do primeiro salão se localizava um pequeno espaço reservado, onde almofadas e pufes se espalhavam por um chão de carpete.
    No meio de todo este espaço havia uma criança sorridente que observava e aguardava silenciosamente que todos os visitantes se sentassem.
    Não demorou muito para que o espaço relativamente pequeno estava cheio com todos os convidados, todos sentados confortavelmente. Os adultos voltavam a ser pequenos, se espalhando sem cerimônia por entre as almofadas, cercados pelos pequeninos. Todos fitavam curiosos para o que a criança diria, até que foram surpreendidos por um repentino e caloroso “Bom dia”.
    - Bom dia, eu me chamo Arthur e hoje eu queria contar uma história para vocês. E sem abrir livro algum, começou a descrever reinos encantados, contar histórias de reinos do passado e de outros que jamais existiriam. Narrações detalhadas, seguidas umas das outras, naquele ritmo que as crianças adoram, porém os adultos não conseguem acompanhar.
    Por horas as crianças passaram mesmerizadas ouvindo histórias de grandes guerreiros e guerreiras da fantasia, histórias dos grandes cientistas e inventores, e mesmo da época onde dinossauros ocupavam a terra, todas elas contadas pela voz doce da criança. Ao fundo da sala, os organizadores do evento olhavam tudo aquilo, orgulhosos e esperançosos para a abertura para o público em geral. A exposição seria um sucesso!
    - Como vocês conseguiram tudo isso? Perguntou a curadora estupefata com o que via.
    - O mais difícil foi o sorriso. Respondeu o professor, enquanto observava sem pausa e com lágrimas aos olhos a nova vida daquele que estava há tantos anos confinado e abandonado.
    - O mais difícil foi, com toda a certeza, o sorriso…

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O autômato romancista (Ana Pereira)


Os painéis coloridos piscavam, anunciando as últimas novidades da grande feira tecnológica. Cada estande tentava chamar a atenção para si próprio através de diversas artimanhas visuais, sonoras e psicodélicas, evitando os jalecos, ternos e apresentações considerados fora de moda. Entre eles, um estande específico parecia atrair o público em ritmo crescente.

Nele, uma criança de olhos vendados e sorriso inabalável digitava avidamente e sem hesitação em um teclado translúcido, as letras se juntando rapidamente uma à outra na fina tela em frente a ela. Através de uma simples projeção ao lado do estande, o público podia acompanhar o trabalho em tempo real e observar mesmerizado a criação ao vivo de…

Bem, ainda não estava bem claro do que se tratava aquilo ou o que aqueles parágrafos habilmente construídos queriam dizer, mas que era fantástico, isso não se podia negar.

Venham, venham! Conheçam o primeiro autômato romancista da história! Diziam os cartazes luminosos e os responsáveis pelo estande de tempos em tempos, convidando as pessoas a se aproximarem e oferecendo um fio de explicação para o significado daquela criança tão enérgica em sua incansável labuta.

Eventualmente, mais detalhes eram liberados aos interessados o bastante para perguntar ou ler os folhetos e cartazes disponíveis. A criança, uma Inteligência Artificial recentemente desenvolvida, seria capaz de criar obras inteiras a partir de diretrizes básicas. Apenas inserindo um cartão contendo o gênero da história, tamanho aproximado e mídia desejada, tudo estaria pronto em 24 horas sem nenhum questionamento adicional ou problemas de atraso. O fim do bloqueio criativo, anunciava entusiasticamente um dos painéis.

Por décadas a Inteligência Artificial ficou restrita a tarefas repetitivas, perigosas e basicamente tudo que os humanos preferiam evitar. O próximo passo seria a utilização de IAs avançadíssimas para atividades complexas e criativas, desbravando territórios completamente desconhecidos pela sociedade.

A plateia, afoita com a novidade e encantada com a criança, logo começou a conversar sobre as possibilidades de conceito tão incrível. Entre entusiastas e temerosos, apoiadores e críticos, todos tinham em comum a pouca atenção dada às linhas escritas pela diligente IA até então, a despeito da sua clara e ostensiva exibição.

Entre eles, dois espectadores observando a certa distância também regavam seus próprios questionamentos.

Isso parece perigoso, não é mesmo? Um deles expressou, olhar fixo na criança androide que parecia totalmente alheia à atenção e debates sobre sua existência.

Sim, com certeza! O colega concordou. Não sabemos o que pode ser dos humanos, se cada vez mais dermos poder e consciência para IAs…

Eu quis dizer perigoso para ela.

O primeiro esclareceu em voz baixa, fitando a profunda inexpressividade da criatura destinada a imitar e replicar padrões de comportamento complexos, dando voz a emoções e à criatividade de uma vida que jamais seria a sua própria. À imagem e semelhança e à mercê de seus mestres.

Não sabemos o que pode ser das IAs, se cada vez mais tentarmos forçá-las a serem humanas...

Ana Pereira