quarta-feira, 9 de maio de 2018

Anonimato

O ônibus estava cheio devido ao horário. Todos os assentos estavam ocupados com pessoas e com casacos que respingavam. Poças de água formavam-se dos respingos e da chuva que conseguia encontrar alguma fresta nas janelas precárias do coletivo. Ao menos uma alma bondosa (que ocupava um corpo suficientemente alto) fez a gentileza de fechar a abertura de ventilação do teto. Afinal, mesmo que não houvesse uma tempestade torrencial como essa, o céu realmente não seria uma real atração visual.
A falta de saturação do céu lá fora era claramente refletida no estado de espírito dos que estavam dentro. O dia havia sido difícil, o tempo estava extremamente abafado, a respiração era pesada e, quando não chovia, havia aquele período quente que servia apenas para as poças se transformarem em um bafo quente e insuportável. De fato esse era um clima recorrente naquela região, especialmente no centro da cidade, porém era difícil de ver alguém que houvesse se adaptado e se sentisse confortável com aquela mistura desgostosa de suor e chuva que se espalhava pela pele. A repetição dessa condição durante a semana apenas tornava mais simples de compreender o estado de espírito de todos que se deixavam pesar sobre os bancos, sem fazer o mínimo de esforço para manter um mínimo de compostura.
As muitas paradas, alternadas aos muitos semáforos fechados, criavam um ritmo constante que embalava os passageiros enquanto o ônibus seguia na direção sul da cidade. Seriam cerca de uma hora e meia para chegar ao terminal, onde todos sairiam para tomar cada um seu rumo em outros ônibus.
Após cerca de um terço de caminho andado, o ônibus para em uma estação quase vazia. Um casal entra com passos apressados, num primeiro olhar, fugindo da chuva. Porém nos detalhes era possível ver algo de nervoso. Os dois pararam de frente para a porta olhando para o outro com uma tensão clara no olhar e, depois de um silêncio sacramental, a mão esquerda de um voa até esbofetear impiedosamente a face do outro, em um som curto, abafado e estridente.
Após outro silêncio, conveniente para digerir a cena, começou a gritaria. Entre os "Você não deveria ter feito isso", os xingamentos, as novas tentativas de tapas que terminavam em um agarrando o outro, novos passageiros entravam e se juntavam à plateia silenciosa que não ousava interferir. O ônibus chacoalhava ao longo da avenida alheio a tudo que acontecia dentro, alheio às "verdades" que eram ditas, aos objetos jogados um no outro que se acumulavam ao chão, à violência no olhar e no falar, aos olhares incrédulos de todos os presentes. No final dela havia um grande ponto de ônibus, o último antes da parada final.
Ao abrir das portas, uma pequena multidão rapidamente preencheu todo o espaço disponível no corredor engolindo o casal com seus corpos e roupas molhadas. O cheiro da umidade preencheu o olhar enquanto a centena de rostos genéricos se somavam às dezenas dos anteriormente presentes observando o nada que havia restado.
Nenhuma palavra que foi dita enquanto o ônibus percorria lentamente seu caminho, fazia a volta necessária no terminal para estacionar no sentido contrário para depois tomar todo o caminho de volta.
Ao estacionar, as portas se abriram e como comportas de uma represa e o mar de gente que se apertava em pé se esparramou para fora do coletivo. Eles rapidamente tomaram seus caminhos pelos corredores, passagens subterrâneas e diversas plataformas. Entravam em filas, nas pequenas lojas localizadas por todo o terminal. Junto com a multidão o casal desapareceu tão rapidamente quanto apareceu. O momentâneo silêncio entre a saída apressada dos que estavam em pé e o impeto letárgico dos que estavam sentados de se levantar foi de certa forma estranho. Nenhum deles jamais havia visto estas duas pessoas, que não eram frequentadores quotidianos desta linha. Talvez aparecessem de novo, num dia próximo, para que fosse possível deduzir um desenrolar para todo aquele papelão. Talvez seria possível saber quem são. Seus nomes, de onde vieram, o que faziam da vida, o motivo da briga. Seria divertido poder julgar e apontar um dedo para um culpado.
Talvez, porém eles jamais aparecessem nessa linha novamente. Talvez estivessem resolvendo algum problema na região, ou mesmo na cidade, e não tivessem nenhuma relação com esse trajeto. Permaneceriam para sempre como o casal de loucos que entrou no ônibus enquanto resolvia suas pendências de forma nada civilizada. Permaneceriam para sempre como duas pessoas entre tantos milhões de outros, cujos nomes jamais saberemos. Pode ser que um dia aleatório, depois de tanto tempo entrem no mesmo ônibus, no mesmo horário, de mãos dadas, escolham um assento tomem seu rumo, vestido com o belo traje do anonimato, por trás do qual podemos ser todos um tanto loucos, livremente.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Costumes

Mais uma terra distante, mais um povo isolado de outras civilizações.

O curioso é que aquele não era um lugar novo para o Viajante. Dois séculos antes, aquelas terras eram desertas. Agora, pessoas viviam em meia dúzia de cabanas de folha de palmeira à beira do lago. O Viajante os observava do alto de um morro, se escondendo atrás de uma pedra larga para não ser visto.

Só depois de muito tempo ele notou que uma mancha azul se movia na periferia da sua visão. Olhou para cima e o borrão se materializou na imagem nítida de uma moça com longos cabelos azuis sentada na pedra, abraçando os joelhos e observando-o com a cabeça inclinada como se não tivesse nenhuma outra preocupação no mundo. E talvez não tivesse mesmo.

— Vão te ver aí, Shuei! — o Viajante sussurrou, encolhendo-se mais do que era necessário para se manter escondido.

— Eles não podem me ver — ela respondeu com uma voz que soava como as ondas calmas do mar se quebrando aos pés de um penhasco.

— Ah é. Esqueci.

Shuei, como ele a chamava, era a personificação das águas e só aparecia para quem queria. Não sabia se ela tinha um nome original, mas numa das terras que visitou a chamavam de Shuei, e o som lhe agradava.

Ficaram observando em silêncio os homens do pequeno assentamento em seu ritual crepuscular, tentando entender o que toda aquela dança e gritaria em torno da palmeira significava. Fora do perímetro dos dançarinos, tochas altas foram acesas e fincadas no chão, e atrás delas as mulheres e crianças observavam com solenidade.

Em um dado momento, um dos homens abraçou a árvore e tentou subir nela sem o auxílio de equipamento algum. Os gritos agudos se intensificaram, parecendo incentivar o escalador, mas ele não passou da metade da árvore. Um após o outro, todos se revezaram na tentativa de escalar a árvore até que um deles finalmente conseguiu alcançar o topo da palmeira. De lá de cima ele cortou os cachos pesados de coquinhos e as mulheres, até então apenas nas margens daquela dança eufórica, se aproximaram com movimentos graciosos e recolheram os frutos que caíam no chão. O provedor de coquinhos foi presenteado com um colar de contas coloridas — os quais ele tinha em maior quantidade que os outros — e em seguida todos retornaram à calma rotina da noite, se preparando para o dia seguinte.

— Todo esse rebuliço por alguns coquinhos…

— A vida deles giram em torno daquela palmeira — Shuei lhe informou. — Com ela são capazes de montar seus abrigos. Dela eles tiram comida e preparam uma bebida especial que consideram sagrada. Depois que saem para caçar, é ela que lhes indica o caminho de casa quando todos os horizontes parecem um borrão verde uniforme. Aquela palmeira lhes representa segurança, sustento, família e a própria vida. Da mesma forma que a caixa de madeira na sua mochila representa essas coisas para você.

— Você fica me observando? — o Viajante perguntou, mais curioso do que ofendido.

— Eu observo tudo quando estou presente.

A tal caixa de madeira que ele carregava consigo desde que deixara o conforto do lar continha as memórias de sua avó. Sempre que sentia saudades de casa, ele a abria e se lembrava da mulher que o criou, da vida de aventuras que ela viveu e dos sonhos que realizou. Quando revirava o conteúdo de desenhos, fotos e cartas, o Viajante lembrava que tinha um nome e um passado, lembrava que tinha sonhos. Aquele era o pequeno ritual que o mantinha sempre na estrada há séculos. Aquele era o pequeno ritual que guiava a sua vida.

Então, olhando pensativa para o pequeno vilarejo, Shuei concluiu: — Pessoas se apegam aos detalhes mais estranhos. Mas é isso que dá a eles significado e poder.

— O que aconteceria se deixássemos de lado os nossos pequenos rituais?

— Você estaria disposto a abrir mão da caixa de madeira para descobrir?

Aquela pergunta deixou o Viajante atônito e embasbacado, buscando palavras no ar como se tentasse capturar borboletas com uma rede furada. Não que ela fosse difícil de responder. O problema era que a sua resposta seria um sonoro e indignado "Nunca!", embora em suas pretensões filosóficas ele esperasse que seus instintos fossem mais elaborados e profundos que aquela curta palavra. Sempre precisou viajar leve, carregando pouco mais que a roupa do corpo e o mínimo de apetrechos que o ajudariam a sobreviver entre cidade, por isso sempre havia se percebido como uma pessoa bastante desprendida de bens materiais. Porém, para ele era impensável se separar da caixa de memórias da avó. Ao mesmo tempo que lhes atribuía um significado que ia além da sua mera utilidade material, aqueles papéis e lascas de um passado que não lhe pertenciam definiam quem ele era no momento presente.

Com um pouco de assombro e vergonha, respondeu com sinceridade à pergunta da amiga: — Não sei. Certamente não quero me desfazer dela agora só para responder a essa questão.

A boca de Shuei se esticou em um sorriso levemente fatalista, mas também havia ternura no seu olhar.

— Essa é a sua resposta.

terça-feira, 10 de abril de 2018

Paredes

Deitada na cama, com a nuca apoiada no travesseiro, era possível olhar em volta, analisando os poucos espaços ainda cinza nas paredes à sua volta. A pintura mal feita, que, anos atrás, dominava o ambiente já estava coberto de histórias, lembranças e memórias em forma de móveis, papel colado, desenhos, quadros, fotos.
    Ao fundo, em um dos cantos, ficava uma estante com uma dúzia de prateleiras, onde ela guardava todos os livros que lera. Eram décadas de leitura, empilhados, enfiados nos cantos, deitados nos vãos entre os livros e a prateleira superior, alguns estavam parcialmente para fora das prateleiras, formando estruturas em balanço, suportadas por uma involuntária lógica de empilhamento. Ocupando todo canto possível do móvel, eles começaram a se acumular no chão em volta. Livros empilhados viraram um criado-mudo improvisado, viravam pequenos aparadores, como o que completava a parede do fundo. Sobre esse aparador, pequenos enfeites, miudezas que fora acumulando pelos anos. Pequenas lembranças de quando era criança, o relógio que ganhara do avô, o primeiro colar de pérolas e um número considerável de pequenas caixas aveludadas com anéis, brincos, alianças de relacionamentos fracassados.
    Pôsteres e cartões-postais ocupavam o resto da parede, lembranças de vários países que conhecera, fotos suas com as pessoas que ela amava, mapas de cidades turísticas, todos eles se sobrepunham de alguma forma organizados, ao menos na cabeça dela. Sobre eles pequenos ímãs de geladeira estavam colados, por falta de uma geladeira para prendê-los. O ‘charme’ kitsch era bastante evidente nas pequenas miniaturas de locais que muitos apenas sonham em um dia conhecer.
    A parede da esquerda era parcialmente coberta com pastas e mais pastas. Folhas de papel almaço escapavam pelas frestas, cobertos de letras cursivas gordas. Relatórios jamais eram suficientes e o trabalho incessante havia ultrapassado qualquer limite quantitativo. Caixas arquivos davam uma sustentação a mais na base, igualmente cheias de papel. Por cima de uma pilha mais baixa, havia algumas roupas guardadas da época de escola. Uniformes, fantasias das festinhas de carnaval e vestidos de festa junina estavam dobrados um sobre o outro em uma pilha que poderia estar coroada por uma beca, se ela possuísse uma.
    Acima de tudo isso, mais pôsteres e fotos, cobertos em parte por diplomas e certificados acumulados durante uma vida de constante aprimoramento profissional, todos devidamente enquadrados. Já diziam os pais: “Se você não acompanhar o mundo e não estudar, o que você vai ser? Nada?”
    Falando em pais, eles mereciam um lugar de destaque na parede da direita. Sobre a já conhecida miscelânea de coisas coladas e rabiscadas nas paredes, haviam duas lindas fotos. O pai havia um olhar sereno e sagaz, vestia um terno elegante e ostentava um vistoso bigode. Sob o paletó, usava um colete de cujo bolso pendia um relógio prateado. No quadro ao lado, a mãe com uma vontade imensurável de sair da pose para dar um abraço. Havia sido um parto tirar aquela foto. Porém de todas as tentativas, esta foi a imagem perfeita. Um leve problema de foco dava um quê de natural para toda a cena. Ocupando o resto na parede estavam um sem-número de vasos com algumas dezenas de espécies de flores e plantas. Uma pequena trepadeira ousava se enrolar nos pés da estante de livros e procurar um caminho até a pequena janela alta. Era um pequeno vão, mas era o suficiente para atrair as folhas, as vinhas e os olhares para a luz do céu.
    O cheiro agradável das flores ocupava todo o ambiente e dava um certo alento para o caos. Durante as horas de sono, a lavanda que crescia no vaso mais largo deixava o seu perfume para aliviar a espera e a dificuldade de permanecer contando. Porém é cada vez mais raro encontrar a moça deitada na cama. Ela passava noites em claro, levantava e checava um pouco de tudo. Tudo ali era precioso demais para ela para que ela simplesmente negligenciasse cada detalhe.
    Porém, ultimamente, as noites em claro mudaram de tom.     A inquietude tomou conta e os passos se tornavam cada vez mais apressado, seguindo sempre o mesmo caminho, entremeando os montes de coisas. Ela respirava cada vez mais intensamente e seu coração batia dando a toada para esse princípio de loucura noturna. A cada instante a falta de ar a tirava de si mesma e colocava-a como espectadora de sua própria vida, olhando de fora do gradil que ficava onde deveria estar a quarta parede que fecharia a cela quadrada.
    Deitada na cama, com a nuca apoiada no travesseiro, seria possível contemplar tudo aquilo que estava em volta.
    Doeria menos.  

sexta-feira, 16 de março de 2018

Voyer

           De minha janela, vejo o ponto luminoso da janela da menina.

         Todos os dias, às duas da manhã, o ponto se consome em meio à fumaça expelida de forma despretensiosa, quase desleixada, como se pudesse refletir sobre as verdades do mundo e encobrir as que não gostasse.
        A menina não sabe que posso vê-la cá de minha janela, no prédio em frente, o que deixa a minha observação ainda melhor, eu gosto de observar a solidão dela, o jeito que ela pega o cigarro, firme, quase que um beijo raivoso de escrava do vício.
       Se pudesse, eu pagaria pelas suas aflições, pela tristeza dela. Compraria entrada inteira para ver o filme que ela vê todos os dias naquela janela para a rua vazia, que faz ela se emocionar a cada vez que ele termina, se é que termina. Mal sabe a menina (ainda que eu não saiba sua idade) que a cena que ela protagoniza é mais triste do que a sétima arte pode fazer, e ao mesmo tempo tão bonita que eu não resisto a esse voyeurismo egoísta, próximo do sádico, me julgo às vezes.
       Confesso, com certo embaraço, que faço trilha sonora para ela de vez em quando. Ligo o som do computador num volume só para meus ouvidos e encaixando as notas das músicas em cada virada de cabeça que ela dá, a cada respirada profunda olhando a Araucária. Já me peguei desejando que ela não fosse feliz, para que o meu filme sempre tivesse sequência. Soa egoísta, e de fato o é. Mas me sinto ligado à menina triste da janela e ao mundo que ela condena com os olhos.
        Nem mesmo sei a raiz da sua dor, na verdade não importa. Sei que as lágrimas caem e são enxugadas imediatamente, como se aquilo fosse errado. Se ela soubesse a beleza desse momento, talvez chorasse de novo.
    Às duas e meia, a janela se fecha. A luz da menina é quase sempre apagada (possivelmente, a de seu interior também), vejo os contornos do show com a iluminação urbana profusa do centro. No dia que se segue, a menina da janela permanece anônima para mim, talvez até já a tenha visto andando pela avenida, quem sabe. 
       Prefiro assim. A magia se mantém.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Terapeuta

O homem senta calmamente no divã, aliviado por poder dar um descanso para as pernas depois de um longo dia de trabalho. A doçura do contato com a superfície macia e aveludada do estofado é quase inenarrável e o corpo facilmente coloca de lado por um tempo a memória do toque ríspido da cadeira do ônibus, onde permaneceu pela última hora e meia. Os olhos se dão a liberdade de permanecer fechados por um tempo pois aquele é o lugar seguro. Aquele é o lugar onde ele sente que deve estar.
Porém ao abrir os olhos, o olhar do terapeuta estava já fixo nos seus. Ele observava as pequenas reações, em silêncio. Calculava os pequenos espasmos e as coceiras involuntárias no nariz e no dedo anelar. Não era necessário dizer nada para que o estado de estresse fosse claramente comunicado pelo paciente. Ele era avaliado cuidadosamente. Até seu cheiro era percebido com cuidado pelo nariz bem treinado do terapeuta que, com os dedos e as palmas, pressionava levemente o tórax e captava, como em uma dessas tantas curas esotéricas milagrosas, as vibrações e a energia que emanavam do corpo deitado. Os olhares estavam próximos, como se atravessassem a barreira do que é físico, da simples interpretação vaga da porção de luz que é refletida e se dirige em direção a nós. A conexão era quase que mística, tanto quanto silenciosa.
No início, o homem até se perturbava com essa falta de respostas claras. Com essa falta de respostas. “Talvez aquele outro, que, ao menos demonstrava um pouco mais de calor quando eu chegava, que cumprimentava efusivamente logo na porta, fosse melhor pra mim” era um pensamento bastante recorrente nas primeiras sessões. Porém com o tempo esse silêncio se tornou um elemento essencial em todo esse processo de chegada e início de tratamento. Lá havia, à sua espera, um monge, pleno do vazio de si próprio e pronto para absorver as mazelas e o trazer para perto de seu estado quase divino. Estado esse que era bastante recorrente para a figura do terapeuta.
Por gerações ele era visto quase que como um deus, quando não o efetivamente era. Porém, ao longo do tempo, como tudo o que tem esse caráter imaterial, a figura desse terapeuta foi relegada a um nível rebaixado, sempre afogado pelas novas leis da física, da engenharia, das respostas exatas e precisas, com n casas depois da vírgula. Como se isso importasse para as figuras que vagam por aí, despreocupadas com o reconhecimento. “São coisas mundanas demais para eles,” concluiu por si próprio o paciente.
De fato para eles era suficiente o silêncio. Algo como um silêncio cerimonial, quebrado apenas por manifestações pontuais, quando a intransigência do paciente em interromper abruptamente a sessão passava dos limites. Uma palavra era suficiente para a repreensão. E o silêncio reinava em paz com o paciente novamente entregue às mãos do habilidoso terapeuta que como um psicólogo, arrancava impiedosamente o que dolorosamente guardamos em nosso íntimo.
Não há horário para o fim da sessão. Ela termina quando o terapeuta julga ser conveniente. Após todo o cerimonial, há sempre um abraço forte. O terapeuta abdica de toda sua reserva em relação a si e a seu corpo, deita-se ao lado do paciente – afinal o conforto daquela peça de estofado não deve se restringir apenas a ele – e adormece.
Este período de aconchego se estende por horas até o momento que uma separação, por vezes traumática, é forçada por motivos de força maior, por necessidades intrínsecas à figura e à função deste ser sublime e enigmático: Um pouco de leite, e uma ida rápida à caixa de areia.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Escolhas

Em seus tempos áureos e não tão remotos assim, a cidade do Orgulho brilhava como nenhuma outra. Cotada como uma das dez melhores para se viver, somente pessoas muito seletas conseguiam seu passe para o sonho de um terreno com grama bem aparada ou de um apartamento com vista para suas ruas douradas. 

Os turistas eram escassos, mas não por crise ou falta de interesse. Os orgulhosos - moradores nascidos ou erradicados por lá - passaram anos lutando para que a entrada de pessoas de fora fosse proibida. Depois de diversos plebiscitos fracassados, uma lei de - quase - comum acordo foi estabelecida permitindo que um número restrito de pessoas pudessem visitar a cidade. A verba de fora era importante também, mas ninguém queria admitir. 

Os sortudos que eram premiados com um visto temporário podiam passear por suas ruas de paralelepípedo cor de ouro e vislumbrar casas e lojas impecáveis, desde a pintura recém feita até o polimento do sino de prata que anunciava os visitantes. Tudo brilhava, reluzia. Nada estava fora do lugar. Os moradores tinham muito orgulho de sua cidade. 

Outra particularidade, que sempre chamava a atenção dos turistas, era um ornamento utilizado pelos cidadãos: um colar com várias pequenas bolinhas, de diversos tamanhos, que lembrava muito um terço. 

- Estou te dizendo que cada uma dessas perolazinhas tem seu significado.  O orgulhoso falou enquanto bebericava café quente de uma xícara de ágata perfeitamente ornamentada. 

O repórter olhava intrigado para a pequena bolinha entre seus dedos. Presa a ela seguiam várias outras, formando uma longa corrente cor de ouro velho. O colar era grande o suficiente para dar três voltas no pescoço do rapaz a sua frente. 

- Você está me dizendo que estas pérolas representam as suas escolhas.

- Na verdade são as minhas não-escolhas. 

- Não-escolhas?

- As escolhas que não realizei em prol de outras. 

O repórter acenou enquanto fazia anotações em meio aos rascunhos de seu bloquinho.

- Então vocês guardam estas escolhas que não foram feitas.

- Sim. - Ele respondeu como se fosse algo extremamente obvio. - É sempre importante lembrar o que deixamos para trás. Qual o custo que pagamos e quais as possibilidades que perdemos. 

- Mas não gera um arrependimento constante? Digo - Corrigiu em tempo ao ver a carranca do entrevistado endurecer - você não pode, com o tempo, perceber que fez escolhas não tão acertadas? 

- Talvez. Mas também serve para lembrar do seu potencial. Lembrar de tudo o que você poderia ter sido. 

- Mas não realizou. Saber que teve tantas possibilidades e lembrar delas constantemente é realmente tão necessário assim? 

- Claro. - Ele respondeu em um tom cheio de orgulho e uma pontada de mágoa. - Quanto mais escolhas abandonadas, quanto maior o seu colar, mais prestígio você tem. Faz parte de quem você é. 

- Mais do que as escolhas que você fez? 

- Com toda certeza. - O orgulhoso falou feliz por finalmente o repórter ter parecido entender. Ele sempre soube que as pessoas de fora eram menos capacitadas. 

Enquanto o repórter finalizava suas anotações, o dono do colar passava o dedo por suas contas. Não esperava que as outras pessoas percebessem a importância de se lembrar dos seus sacrifícios. Mas ele não esqueceria. Nenhum. 

Parou em uma conta menor e a encarou. Lembrava o que abandonou com ela. O que ganhou com isso mesmo?

Não fazia ideia. 

Mas também não importava, seu sacrifício estava claro. 


Para ele e para os outros.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Tédio, Fórmica e Cortiça - Três atos de um fim de tarde


Era difícil manter a concentração naquele final de tarde de sexta-feira e a moça dividia seu intelecto entre inventar teorias para explicar a duração absurda daqueles últimos minutos e procurar padrões no painel de cortiça atrás do seu monitor. O olhar navegava com precisão os veios escuros, desviava dos alfinetes e dos rabiscos presos, avaliava a diferença de tonalidade entre os pequenos pedaços. O relevo começava a se delinear. Sombras e luz criavam cadeias de montanhas, os pequenos alfinetes eram pequenos vilarejos salpicados na aridez bege daquela terra. Beduínos seguiam com seus camelos enfileirados, carregando odres em barro, cheios do óleo perfumado extraído em uma região longínqua, cujos bosques de oliveira se desenhavam nos fundos dos vales.
O monitor preto, onde o cursor dançava sem propósito sobre o vazio deprimente emoldurado por linhas e hachuras coloridas, ficava desfocado no canto da vista, cobrindo parte desse universo, terras ermas por onde os grandes aventureiros da época ainda não haviam explorado. Ydraz, O Grande, também conhecido como o pai de todos, o primeiro desbravador a chegar, ainda jovem, nessas terras e descobrir os oásis ao redor dos quais as famílias se aglomeraram já há tantos séculos, havia conseguido chegar no topo das montanhas a oeste e, já no limite de suas forças, decidira não enfrentar o mar de areia que se estendia a perder de vista. Em todos os mapas, habilmente desenhados pelos notórios mestres cartógrafos de Mahÿr (grande cidade murada ao nordeste, delimitada pelo alfinete lilás), todo território a oeste dos montes era considerado ‘terra desconhecida’ e era representado em um grande plano preto. Em seu tempo, sempre cercado de crianças sentadas ao seu lado e com um grande sorriso, Ydraz contava como era estar de frente a tamanha imensidão. Todos os pequeninos saiam cheios de sonhos, que eram alimentados toda vez o explorador se aproximava dos oásis e, seguido por uma multidão de infantes, ia até um tronco caído ou uma pedra, onde se sentaria para contar em detalhes sua última jornada e, com sorte, um pouco das antigas histórias que guardava por detrás de um olhar sempre sereno.
Uma manhã, já por volta dos seus sessenta anos, o próprio desbravador foi atingido em cheio pelos sonhos que plantava nas pequenas mentes férteis, pegou um camelo e um de seus falcões, se preparou com esmero e partiu com as costas ao sol para ultrapassar quaisquer limites e finalmente descobrir o que haveria por trás do grande borrão preto, das linhas e hachuras coloridas. Todos esperavam notícias suas, especialmente os pequeninos e os cartógrafos, ansiosos para poder completar suas obras.
Ficaram a esperar.
O telefone toca e o som irritantemente agudo desperta os sentidos da moça. Atordoada com a voz de seu chefe dando instruções e fazendo observações sobre os trabalhos entregues, ela observava os desenhos na tela com um quê de espanto. O dia seguinte seria complicado. A voz do chefe, do outro lado da linha era interrompida por ‘sins’, ‘certos’ e ‘oks’ secos e sem muita vida, vindos da boca quase imóvel da jovem. Recebidas as informações, ainda com o telefone em mãos, seu olho desfocou do monitor e sua cabeça já partia novamente.
Na mesa em fórmica azul, próximo à base cinza do telefone, as mãos que traçam movimentos aleatórios estão cercadas por utensílios de trabalho. A esquadra de lápis, caneta, borracha, raspas de madeira, minas de borracha e um estilete afiado está próxima a abordar a pequena e indefesa embarcação. Em seu mastro magricela não há bandeira de país e o capitão da esquadra tem certeza que vai lucrar um bom bocado ‘negociando’ com mais esse navio mercante. Um homem amargo, esse capitão. Diferentemente de seu antecessor (e agora subalterno, devido a um jogo de influências no palácio), ele não era um homem do mar. Não tinha os cacoetes, e muito menos paciência para encarar uma guerra constante contra a falta do que fazer e o excesso de imprevistos característicos dos oceanos. Estava feliz em seu posto de conselheiro, quando foi tirado de suas funções para dar lugar a um filho mimado de um desafeto de longa data. “Iria matá-lo assim que possível”, jurava todas as manhãs. Passados os meses, a dureza foi tomando conta do homem e ele descontava toda ela em quem aparecia pela frente, remadores, vigias, e toda sorte de marujos de que ele dispunha. Para a alegria da tripulação, sempre aparecia algum barqueiro perdido para distrair o capitão e seu amargor.
Feita a abordagem, os soldados levaram o barqueiro, um tanto de carne seca e uma bolsa cheia de mapas e anotações. Entregaram o homem no convés principal da grande embarcação, diante dele estava o impávido capitão, com seu sorriso que misturava um ar de superioridade, a perspectiva do lucro fácil e aquele sadismo alimentado por cada um dos longos dias longe de seu posto no palácio.
Ele observava o homem vestido em roupas já gastas, com sua barba bastante esbranquiçada. Seus olhos, revelados com o arrancar abrupto de seu lenço da cabeça, eram de um tom claro de uma cor de mel. As pupilas do homem ainda se contraíam quando o capitão, irritado pela falta de aparentes manifestações de medo, se aproximou bruscamente tentando intimidá-lo.
Não daria certo. O homem já havia passado por tanta coisa e parecia que todas as suas aventuras estavam escritas nas linhas que se desenhavam em um rosto que, pela idade, deveria parecer mais cansado. Ele permanecia impávido diante do comandante que vociferava o quão ruim era a situação e qual era o preço para que permanecesse vivo, nada menos que toda a grande quantidade de mercadorias, ouro, prata, cobre e todos os outros metais usados para cunhagem de moedas pelos povos das cidades-estado mercantes que costeavam a baía. Porém ao meio da chuva de saliva que respingava em si, o homem moveu a cabeça em um gesto repentino para baixo. Porém, antes que os guardas imediatamente em volta tivessem tempo de sacar as armas surpresos com o movimento estranho e inesperado dada a postura inerte apresentada desde a abordagem, um grito agudo foi ouvido do céu. Do meio das nuvens densas, banhadas pela luz amarela rósea do Sol baixo matutino, surgiu uma sobra preta que descia rapidamente. Sem dar espaço para qualquer reação a ave fincou as garras no pescoço do comandante e atravessou em um rasante o convés com parte do sistema respiratório do homem pendurado, centímetros acima das cabeças dos galerianos, exibindo-os como uma carta de alforria.
Os guardas atônitos, com o ocorrido, foram despertados pelo som oco do corpo paramentado caindo duro na madeira e profundamente perturbados pelo aspecto visual do que acabara de acontecer, correram em direção à cabine principal, onde, alheios, os subcomandantes, homens fiéis ao seu líder foram agarrados, amarrados, e levados para o pequeno barco que ficaria flutuando parado sobre o pequeno mousepad no meio da mesa em fórmica azul.
O apito de hora cheia, emitido pelo antigo relógio de pulso da menina, foi o suficiente para que a moça aprumasse a postura e voltasse o olhar para o monitor. Seus colegas de trabalho se levantavam juntos e se despediam enquanto abriam a porta e partiam.
-Só não esquece de apagar a luz, já tomamos uma dura ontem. Dizia um deles.
Controles de horas preenchidos, computador desligado e luzes apagadas, a jovem se levantava para fechar as persianas. Voltando à mesa para pegar suas coisas, não resistiu e deu uma olhada no canto formado pela parede em cortiça e a mesa em fórmica, porém já não conseguia ver mais nada. Pegou sua bolsa e fechou a porta do escritório já escuro e tomou o elevador.
Na descida, porém, não conseguia deixar de imaginar Ydraz, já centenário, observava mais uma nova cidade que tomava forma à sua frente. Trechos de muros em pedra e de paliçadas cercavam construções baixas feitas em adobe e madeira. Ruelas estreitas, e cobertas com pergolados formavam uma rede sombreada que se espalhava por entre as construções. Pequenas fontes de água doce, que vinham de um rochedo próximo alimentavam fontes nas praças onde os antigos remadores e guardas, se misturavam com novos habitantes que chegavam das rotas marítimas orientais, em direção às grandes cidades do império, ainda distantes a oeste.
Hafir havia se tornado um porto bastante importante, sendo o elo entre diversas regiões de um continente difícil de se atravessar a pé. O pai de cidades contemplava o movimentado cais, construído em volta de duas carcaças de galés, de onde haviam tirado a madeira para construir. Haviam mantido alguns pedaços intactos para lembrarem sempre de seu desprezo pelos seus antigos líderes e donos. Longe da costa, grupos de mercadores chegavam de camelo de todas as direções, trazendo mercadorias exóticas que eram trocadas nas feiras que preenchiam as praças próximas ao embarcadouro.
Dentre esses tantos grupos, vinham também alguns da região de Mahÿr e das outras cidades dos oásis. Muitos anos passariam antes que ligassem as histórias e descobrissem o quão próximos eram esses povos. Ydraz, já não contava tantas histórias como antigamente, mas a descoberta de uma antiga arca, guardada pelo próprio explorador em uma gruta estreita e profunda no rochedo que ladeava a cidade foi o suficiente para ligarem todos os pontos. Mapas e diários de anos de viagem estavam todos ali, contando histórias de desde a fundação das cidades oásis até a contemplação do nascimento de Hafir, incluindo os anos entre a partida em direção ao deserto e a captura pelas galés. Mas as muitas histórias deste meio teriam que ficar para uma próxima tarde, por volta das 17h57.