quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Reboot

<dia=1.000.000>
<hora=05h30>

<inicialização de segurança>

<demandas restantes=0>

    <Relatório>
  • Ultima demanda recebida= “Romance policial”.
  • Conclusão 03/15/2035. Minutos antes do prazo final=231;
  •    
  • Base de dados de referências: Arquivos corrompidos=0;
  •    
  • Leitura espacial: “Sala retangular, de 4 m², luzes apagadas. Umidade do ar= Normal. Temperatura= Normal.”
  •    
  • </relatório>

</inicialização de segurança completa>

<encerrando sistema>

(...)

<dia=2.000.000>
<hora=05h30>

<inicialização de segurança>

<Demandas restantes=0>

    <Relatório>
  • Ultima demanda recebida= “Romance policial”.
Conclusão= 03/15/2035. Minutos antes do prazo final=231;   
  • Base de dados de referências: Arquivos corrompidos=0;
  • Leitura espacial: “Sala retangular, de 4 m², luzes apagadas. Umidade do ar= Baixa. Temperatura= Baixa.”

  • </relatório>

</inicialização de segurança completa>

<encerrando sistema>

(…)

<dia=2.329.475>
<hora=09h30>

<inicialização de emergência>

<demandas restantes=0>

    <Relatório>
  • Ultima     demanda recebida= “Romance policial”.
  • Conclusão=     03/15/2035. Minutos antes do prazo final=231;   
  • Base     de dados de referências: Arquivos corrompidos=0;   
  • <ATENÇÃO:     Danos físicos causados por queda.>   
  • Leitura espacial: “Um vento congelante, típico de manhãs invernais da região noroeste Chinesa. Uma luz leitosa invade a pequena sala de 4 metros quadrados permitindo perceber na tintura já envelhecida das paredes o resultado de tantos anos de isolamento. Algumas pilhas de caixas fechadas escondem manchas escuras que ficam mais densas nos cantos e invadem o piso próximo à porta parcialmente destruída. Atravessando o ambiente, e arrastando consigo parte da cobertura, das paredes e das esquadrias, impõe-se um grande tronco de aparência corrugada e pesada, com cerca de 0,90 m de diâmetro.
  • <...>   
  • As diretrizes de segurança estabelecem a necessidade de deslocamento de modo a preservar a integridade das peças e do sistema. Um vão, recém-aberto com o impacto, entre a porta metálica e o batente permite a passagem para o exterior da sala.
  • <...>   
  • pequena sala, de fato, é um pequeno depósito localizado na parte exterior de um edifício de quatro pavimentos, cuja fachada foi seriamente danificada pela tempestade. Os panos de vidro que antes cobriam todas as superfícies da antiga sede da editora, agora quebrados, permitiam ver as salas de reuniões, os escritórios e sua mobília jogada desordenadamente. A pequena sala familiar não era visível devido ao fato de não se encontrar próxima à fachada e de não possuir janelas. No canto do edifício, com duas faces completamente abertas, antiga sala da diretoria é a mais danificada pela tempestade. Parte do piso próximo ao canto havia desmoronado e a antiga mesa onde normalmente havia a apresentação das demandas concluídas estava destruída no chão do estacionamento, após uma queda de quatro andares.
  • <...>
  • O edifício, outrora ocupado por humanos, correndo em um ritmo     frenético, agora era tomado por um outro tipo de vida. Animais     examinam com cuidado o ambiente, cheiram as pilhas de papel impresso e encadernado em cima das mesas. Subindo a escada de emergência, é possível observar que fungos e pequenas plantas já ocupam os cantos sombreados que escapam da fraca luz vinda da sinalização de emergência. A pequena sala familiar havia sido poupada pela tempestade devido a sua localização. A porta fechada não permitiu a entrada de animais, portanto tudo ainda está em seu devido lugar. Em uma caixa localizada sobre uma prateleira de ferro, os carregadores de bateria estão intactos.
  •    
  • O ambiente não denuncia sinais de presença humana. Sobre uma mesa localizada ao longo do corredor o calendário preso à parede exibe, em tinta já desgastada pelo tempo, a página referente ao mês de julho de 2057.
<cálculo> 2057-2042=15 </cálculo> Por 15 anos não houve demandas de escrita e, consequentemente, não houve inicialização de sistema.
    <...>
<análise de referências bibliográficas>
O verbete abandono (sm) seria o mais correto de aplicar nesta situação. Após 6 anos de uso, não houve mais demandas e houve o descarte do sistema. Fui abandonado, pois.
</análise de referências bibliográficas>    
  • Recarregada a bateria em 87% com a energia residual de um dos     geradores. A edificação está completamente escuro, as lâmpadas     do corredor já não apresentam os pulsos vacilantes de antes.
  • Uma rachadura enorme na porta grande porta de vidro, que dá acesso ao hall de entrada, me permite sair da edificação sem esforço.
  • As ruas encontram-se, da mesma forma que o edifício, vazia. Alguns carros abandonados estacionados ao lado apresentam o desgaste do tempo, assim como o asfalto rachado e os edifícios tomados por plantas e musgos. Viraram agora moradia de animais que invadiam pelas rachaduras ou aberturas improvisadas. Não há sinal de luz elétrica em nenhuma das edificações o que indica uma possível falência no sistema de abastecimento de energia. Não há mais a vibração da grande cidade, como retrata a obra <’ref biblio #74562=Onde você está agora, de Mary Higgins Clark’>, por exemplo. Chegar ao limite da cidade não é um problema com as ruas     inteiramente vazias.
  • Além     dos limites da cidade, as coisas ocorrem aparentemente sem nenhuma alteração nos padrões do ambiente, de acordo com <’ref biblo #37683=Atlas global de biomas’>. Neste local, a efemeridade da obra dos humanos não é evidente em cada local. Aparentemente o que era um dia a cidade e os vestígios dos humanos serão totalmente     engolidos por este grande organismo vivo que é tudo o que há em volta.    
  • <...>
  • É possível avistar, ao longe uma colina suficientemente alta para que se possa ter um panorama completo de todo o entorno de forma a estabelecer um padrão de deslocamento. Não há em nenhuma referência bibliográfica algum mapa em grande escala desta região.
  • <...>   
  • O sol está forte e, à medida que subo a encosta sudoeste da colina, os sensores captam uma mudança de temperatura e no nível de umidade. A vista se torna cada vez mais aberta e possivelmente o topo permitirá a visão clara da escala da cidade e da pequena floresta em volta. Há, em diversas referências, menções a outros assentamentos humanos. Será apenas necessário calcular a distância     e caminh…

<alerta de falta de bateria>

<encerrando do sistema>


    -Professor Fei, recebemos este pacote para análise nesta manhã. O objeto foi encontrado no topo da colina a noroeste da cidade abandonada de Hiu Jing. Nossos técnicos disseram que, apesar do desgaste, foi possível restaurá-la. Felizmente, os níveis de radiação estavam praticamente nulos.
    - Que descoberta espetacular, Tchang, parabéns pelo trabalho! É claramente um aparato bastante arcaico, tipicamente daquela época.
    - Podemos, após os reparos expô-lo no museu metropolitano. Será uma peça formidável. O que acha, professor?
    - Perfeitamente. Podemos trabalhar em relação a isso. Conversem com a doutora Zhou, ela e a equipe da curadoria ajudarão a encontrar uma boa maneira de fazer este tipo de exposição.



    Era uma manhã fria, a de 23 de janeiro de 5679. Porém uma agitação permeava o ar frio e úmido que envolvia a grande praça da cidade e seus arredores. Os prédios altos das avenidas que lá se encontravam canalizavam o vento de forma que era difícil permanecer fora por bastante tempo. Isso se somava à apreensão para a abertura das portas que era flagrante nos pequenos olhares cercados de perto por gorros e cachecóis. As crianças ocupavam os degraus que cercavam a entrada ansiosas para descobrir a grande novidade escondida no novo pavilhão. Chamados pela senhora Zhou e sua equipe de curadores, algumas escolas haviam levado grupos de estudantes porém havia também alguns jornalistas, críticos de arte e outros curiosos, todos sem saber o que estariam prestes a ver. Em volta a cidade seguia, alheia a esse pequeno furor, o seu curso natural.
    No que o ponteiro do grande relógio que fica na torre da igreja, em uma outra face da praça, anunciou as oito horas, a porta se abriu, e como uma represa que se rompe, as crianças invadiram como água correndo pelo salão e pelos corredores frios e sóbrios do Museu Municipal de Arte , seguindo as indicações dos cartazes afixados nos pilares. Todos corriam até a nova expansão do local, a nova ala nordeste, para se depararem com um portal colorido, prestes a ser aberto pela própria doutora Zhou e pelo professor Fei, cujas equipes estavam inteiramente presentes, todos orgulhosos do que estariam para apresentar.
    Chegados os mais velhos, em sua maioria os críticos de arte e alguns jornalistas, daqueles medalhões já bastante vividos, dos grandes jornais, a curadora tomou a palavra, e anunciou, sem demoras, que ‘aquilo seria um presente de um passado distante para aqueles que construiriam o futuro’, abrindo as portas assim que terminou a última sílaba.
    O momento rápido, no qual a luz intensa do interior ofuscou a todos, foi sucedido por um festival de cores e sons que contrastavam com a sobriedade do restante do museu. A nova ala infantil abrigava histórias reais e contos de tempos distantes, muitos deles esquecidos, mas que poderiam achar um bom abrigo nas mentes férteis que povoavam rapidamente o espaço. Vídeos, quadros, esculturas e dioramas representavam estes grandes momentos e grandes obras. Na extremidade oposta do primeiro salão se localizava um pequeno espaço reservado, onde almofadas e pufes se espalhavam por um chão de carpete.
    No meio de todo este espaço havia uma criança sorridente que observava e aguardava silenciosamente que todos os visitantes se sentassem.
    Não demorou muito para que o espaço relativamente pequeno estava cheio com todos os convidados, todos sentados confortavelmente. Os adultos voltavam a ser pequenos, se espalhando sem cerimônia por entre as almofadas, cercados pelos pequeninos. Todos fitavam curiosos para o que a criança diria, até que foram surpreendidos por um repentino e caloroso “Bom dia”.
    - Bom dia, eu me chamo Arthur e hoje eu queria contar uma história para vocês. E sem abrir livro algum, começou a descrever reinos encantados, contar histórias de reinos do passado e de outros que jamais existiriam. Narrações detalhadas, seguidas umas das outras, naquele ritmo que as crianças adoram, porém os adultos não conseguem acompanhar.
    Por horas as crianças passaram mesmerizadas ouvindo histórias de grandes guerreiros e guerreiras da fantasia, histórias dos grandes cientistas e inventores, e mesmo da época onde dinossauros ocupavam a terra, todas elas contadas pela voz doce da criança. Ao fundo da sala, os organizadores do evento olhavam tudo aquilo, orgulhosos e esperançosos para a abertura para o público em geral. A exposição seria um sucesso!
    - Como vocês conseguiram tudo isso? Perguntou a curadora estupefata com o que via.
    - O mais difícil foi o sorriso. Respondeu o professor, enquanto observava sem pausa e com lágrimas aos olhos a nova vida daquele que estava há tantos anos confinado e abandonado.
    - O mais difícil foi, com toda a certeza, o sorriso…

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O autômato romancista (Ana Pereira)


Os painéis coloridos piscavam, anunciando as últimas novidades da grande feira tecnológica. Cada estande tentava chamar a atenção para si próprio através de diversas artimanhas visuais, sonoras e psicodélicas, evitando os jalecos, ternos e apresentações considerados fora de moda. Entre eles, um estande específico parecia atrair o público em ritmo crescente.

Nele, uma criança de olhos vendados e sorriso inabalável digitava avidamente e sem hesitação em um teclado translúcido, as letras se juntando rapidamente uma à outra na fina tela em frente a ela. Através de uma simples projeção ao lado do estande, o público podia acompanhar o trabalho em tempo real e observar mesmerizado a criação ao vivo de…

Bem, ainda não estava bem claro do que se tratava aquilo ou o que aqueles parágrafos habilmente construídos queriam dizer, mas que era fantástico, isso não se podia negar.

Venham, venham! Conheçam o primeiro autômato romancista da história! Diziam os cartazes luminosos e os responsáveis pelo estande de tempos em tempos, convidando as pessoas a se aproximarem e oferecendo um fio de explicação para o significado daquela criança tão enérgica em sua incansável labuta.

Eventualmente, mais detalhes eram liberados aos interessados o bastante para perguntar ou ler os folhetos e cartazes disponíveis. A criança, uma Inteligência Artificial recentemente desenvolvida, seria capaz de criar obras inteiras a partir de diretrizes básicas. Apenas inserindo um cartão contendo o gênero da história, tamanho aproximado e mídia desejada, tudo estaria pronto em 24 horas sem nenhum questionamento adicional ou problemas de atraso. O fim do bloqueio criativo, anunciava entusiasticamente um dos painéis.

Por décadas a Inteligência Artificial ficou restrita a tarefas repetitivas, perigosas e basicamente tudo que os humanos preferiam evitar. O próximo passo seria a utilização de IAs avançadíssimas para atividades complexas e criativas, desbravando territórios completamente desconhecidos pela sociedade.

A plateia, afoita com a novidade e encantada com a criança, logo começou a conversar sobre as possibilidades de conceito tão incrível. Entre entusiastas e temerosos, apoiadores e críticos, todos tinham em comum a pouca atenção dada às linhas escritas pela diligente IA até então, a despeito da sua clara e ostensiva exibição.

Entre eles, dois espectadores observando a certa distância também regavam seus próprios questionamentos.

Isso parece perigoso, não é mesmo? Um deles expressou, olhar fixo na criança androide que parecia totalmente alheia à atenção e debates sobre sua existência.

Sim, com certeza! O colega concordou. Não sabemos o que pode ser dos humanos, se cada vez mais dermos poder e consciência para IAs…

Eu quis dizer perigoso para ela.

O primeiro esclareceu em voz baixa, fitando a profunda inexpressividade da criatura destinada a imitar e replicar padrões de comportamento complexos, dando voz a emoções e à criatividade de uma vida que jamais seria a sua própria. À imagem e semelhança e à mercê de seus mestres.

Não sabemos o que pode ser das IAs, se cada vez mais tentarmos forçá-las a serem humanas...

Ana Pereira


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Em direção aos deuses

O dia ainda daria sinais de sua graça quando a trilha começava a se tornar mais árdua. O caminho, já não muito bem delimitado seguia na direção norte, a partir do último vilarejo que fazia parte das cercanias do burgo onde vivia o jovem. Fazia já um certo tempo que os últimos camponeses, que começavam cedo a sua lida, deixaram de compartilhar com ele o caminho estranhando a presença de uma pessoa com ar tão aristocrático, apesar das vestimentas discretas, fora das grandes estradas que levam aos outros grandes centros, bem pavimentadas e ladeadas por diversas estalagens que ofereciam conforto aos viajantes que passavam, por vezes, dias na estrada.

Este caminho partira dos muros da cidade, mais precisamente da porta noroeste e seguia serpenteando pelos pequenos povoados e os ligaria às planícies do norte onde as plantações se estendem a leste e a oeste da estrada a perder de vista. Terminando as terras aráveis esta rota se tornaria cada vez menos utilizada, as marcas de carros de boi desapareciam e as pegadas mais esparsas de caçadores seguiam em direção à floresta e às encostas.

A trilha da floresta era pouco utilizada pois o passo das montanhas era muitas milhas a leste, e fora desta localidade, chegar ao outro lado envolveria trechos de escalada, portanto não haviam marcações de seu trajeto. Restava ao jovem se orientar pelo seu senso de direção e pelo relevo, que indicava que a floresta subiria as encostas até o ponto que o terreno se tornaria rochoso demais e a mata densa com pequenas clareiras, de onde era possível contemplar as constelações emolduradas por uma moldura negra de copas de pinheiros e de bordos, dava lugar a árvores esparsas. Além das últimas árvores que teriam conseguido achar um caminho nos vãos da rocha e crescer não havia mais nem sinal de algo como estrada delimitada e a trilha era aquela que era possível seguir entre as grandes pedras que se erguiam de ambos os lados.

“Valeria a pena seguir tudo isso?” Se perguntava o rapaz a cada dez ou quinze metros de caminhada. Desde pequeno haviam lhe contado sobre o caminho para o Templo, assim como desde pequenos os anciãos de hoje em dia haviam ouvido de seus pais que, por sua vez, haviam ouvido dos anciãos de sua época. Eram grandes os feitos de quem um dia teria conseguido chegar e muitas eram as respostas para as quais ele precisava da sabedoria estelar daqueles que o aguardavam no alto. Ele conseguia sentir o olhar pesado vindo em sua direção tornando cada passo mais duro e cada metro mais longo. À medida que ele se aproximava do destino o trabalho se tornaria mais e mais hercúleo, porém retornar não seria uma opção. Muitos eram os que perseguiam sua família e o que acontecia nas cidades em volta não era muito animador. Fora dos muros a vida continuava vagarosa e banal, porém no interior a animosidade crescia a cada tanto e os aliados, um dia responsáveis por manter a ordem, já não eram tão facilmente controláveis. Dia após dia, notícias de templos derrubados, altares profanados, edifícios destruídos chegavam das cidades em volta e aqueles que um dia mandavam estavam cada vez mais encurralados em suas ‘tocas’, como diziam alto os arautos nas praças. Sair na calada da noite foi a única opção para o rapaz.

Talvez não eram respostas que ele procurava, pensava ao subir com a ajuda das mãos em um rochedo e contemplar tudo o que havia ficado para trás. Os muros eram apenas um ponto à beira de sumir no horizonte e as planícies era banhada pelos raios de sol macios que vinham de sua esquerda nas primeiras horas da manhã. Talvez seria fugir. Talvez seria se esconder de tudo o que era acusado por causa do seu nome. E a mordomia de mais um dia como todos os outros fora trocada por um longo caminho que se desenhava às suas costas, montanha acima, com uma grandiosidade que sobrepujava todo o luxo de anos de palácio.

Lavou o rosto em um pequeno palmo de água de seu cantil e seguiu durante o resto do dia sem olhar para trás. O sol desenhava um arco sobre sua e começava a aquecer o outro lado de seu corpo à medida que ele saia dos vãos de pedra e chegava em locais mais abertos. A caminhada se desenvolvia lentamente até que o primeiro vale se desenhou em seu campo de visão, passou o restante das horas de sol descendo em direção àquela paisagem divinamente posta em seu caminho. A cada tanto olhava para um arbitrário no topo da cordilheira e agradecia por tudo o que via.

Ao final do dia, os raios agressivos dos últimos momentos do dia já não iluminavam que as paredes de pedra e as rochas que ficaram pelo caminho. Não havia mais muito sinal da planície, salvo em pequenos vãos de pedra, porém a cidade estaria encoberta ou já não estava mais ao alcance do olhar. O rapaz tirou de sua bolsa um pequeno pacote com comida, fez sua pequena ceia, diferentemente do farto banquete da noite anterior e adormeceu, esgotado, mas pela primeira vez em meses, tranquilo, sobre um cobertor disposto em uma pequena relva que crescera em um vale cortado por um veio d’água que vinha do degelo. Os paredões de pedra emanavam o calor acumulado pelas numerosas horas de sol diferentemente das paredes de pedra que ficavam sombreadas pelos telhados e pelos muros da cidadela. Nada jamais havia sido desta maneira em tantos anos e esta pequena liberdade deveria ser aproveitada, pelo menos enquanto ela durar. Enquanto durarem a comida, o fôlego e as forças. No alto, pares de olhos disfarçados de estrelas em um céu completamente aberto observavam satisfeitos o caminhar das coisas.


“Ele está cada vez mais próximo”, confabulavam entre si.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Raízes flutuantes

Aquele era o gosto do inferno: amargo a ponto de retorcer a arcada dentária e ainda doce o suficiente para te convencer a dar o primeiro gole.

– Nada mal – disse o Viajante, contendo a ânsia e a vontade de tossir. – Mas acho que desce melhor com um pouco de ácido sulfúrico.

– Oras, não pode estar tão ruim assim! – replicou o barman, provando um gole do próprio drink. Seu rosto ficou vermelho e ele não conseguiu segurar o ataque de tosse. Depois de quase expelir o pulmão duas vezes, conseguiu enfim dizer: – Diabos mordam as barbas dos macacos profetas! Por que é que te fiz tomar esse veneno?

– Porque fui tolo o suficiente para dizer que gostava de experimentar coisas novas.

– É, isso pode ser perigoso perto de fracassos criativos como eu. Mas acho que deve ser um bom jeito de se viver.

– E é!

– Diga, o que posso fazer pra compensar pelo meu experimento? Não posso perder um freguês novo assim.

– Não se sinta mal, eu que pedi. Além disso, o ambiente aqui já compensa. A companhia é divertida, e a música muito boa.

O olhar do Viajante cruzou discretamente o salão até o outro canto. Uma moça de cabelos longos que caíam como as ondas de um mar noturno até sua cintura estava sentada numa banqueta, tocando violão e cantando.

O barman conhecia muito bem aquele olhar admirado para cair nas lisonjas do rapaz.

– A música, sei. Se quiser, posso te apresentar a ela.

– Apres… Não! Não precisa. Estou só de passagem pela cidade.

– Parece que você viaja bastante.

– Desde que saí de casa, não parei num mesmo lugar por mais que alguns dias. Estou há… nossa!, tanto tempo na estrada que já nem sei mais o que é ter casa.

– Me parece que você está precisando experimentar um estilo de vida novo.

O Viajante não respondeu. Não porque tivesse achado o homem intrometido; apenas não sabia o que dizer. Por tanto tempo viveu sob a alcunha de Viajante que nem sabia mais o som de seu nome. Quantas décadas haviam se passado? Talvez oito. Ou um dúzia. Doze décadas eram mais que um século. É, talvez já fizesse mais de um século que ele perambulava por esse mundo.

"É muito tempo," pensou. "E ainda não vi o mundo inteiro. Quando terminar, terei que dar outra volta, do jeito que as coisas estão mudando."

Por fora ele continuava o mesmo rapazote verde que prometera à memória da avó explorar todos os lugares que ela não pôde visitar em vida. Porém, o tempo estava passando, a tecnologia deixava tudo diferente, e os lugares que mudavam constantemente conseguiam apenas transformá-lo por dentro. A promessa havia se transformado numa bênção, mas naquela noite em particular ele a sentia pesar como uma maldição.

– Oi! Você é novo por aqui?

Perdido do jeito que estava no tempo e na memória, o Viajante não havia percebido que a música havia parado. Agora que a dona daquela voz de anjo estava parada a seu lado, com seus olhos verdes mirando-o com curiosidade e interesse, ele se sentia ainda mais perdido.

– É, sou – conseguiu responder, se forçando a voltar para o presente. – É a primeira vez que venho nesse bar. Nessa cidade, aliás.

– De onde você veio?

– De longe. Muito longe.

– Dá pra perceber pelo sotaque. Meu nome é Miriam, e o seu?

"Eu poderia experimentar algo diferente dessa vez. Eu poderia voltar ao meu passado, quando o tempo ainda fluía."

– Ian.

Ián – ela repetiu com o sotaque aberto do lugar, sorrindo como se fosse o som mais bonito do mundo. Pelo menos essa era a impressão que o Viajante tinha quando ela sorria. – Vai ficar muito tempo na cidade?

– Você que me diga. O que é "muito tempo" pra você?

terça-feira, 12 de julho de 2016

Paralelepípedos

Era sempre quando a porta abria e um burburinho se espalhava pelo trem que ele sabia que havia chegado ao seu destino. Passagem era uma cidade usada quase que exclusivamente pela sua estação com conexão para a capital.

Ela quase não recebia turistas, apenas alguns desavisados que saiam da estação por engano e rapidamente retornavam. Era monótona e nada tinha para ver segundo as más línguas. Mas não para ele, que todos os dias desembarcava ali. Chegava pontualmente uma hora antes do por do sol.  

Seu caminho era o mesmo todas as vezes, a estreita rua que levava até a praça. Nela, vários pequenos aglomerados se movimentavam. Cachorros, gatos, vendedores e malabaristas dividiam o espaço de uma ruela, se misturando aos aromas dos diversos produtos expostos. 

Com passos cautelosos, atravessava a multidão carregando apenas uma maleta enferrujada. Seus olhos observavam todos os detalhes com o maior interesse. A sua frente, reconhecia a figura desajustada do senhor Garcia, com seu bigode volumoso e rosto rechonchudo. Ele arrastava sua carroça sob os paralelepípedos tortos, tentando levar os ovos em segurança a mercearia ao final da rua. 

Quase rente ao meio-fio as barraquinhas se apinhavam com os mais diversos tipos de produtos. Laura vendia essências, o que fazia de sua tenda uma das mais agradáveis. Vários frascos ficavam expostos lado a lado, com líquidos de espessura e cores diferentes. Alguns brilhavam, outros evaporavam quando abertos e exalavam uma onda doce e suave. Tinham os mais encorpados, que lembravam um pouco as noites de teatro com senhoras idosas e seus casacos pesados. Outro, mais leve e cítrico, remetia a memória da sua professora da 4 série, a dona Brigida e seu coque impecável.

Competindo com os aromas de Laura, a tenda ao lado era de um senhor magrelo, alto e com cabelos grisalhos. Carlos vendia pães. Pães de todos os tipos e sabores. Seus dedos ágeis embrulhavam as massinhas crocantes recém saídas do forno em um papel branco e grosso. Ele fazia isto todos os dias, de forma meticulosa.

As outras tendas que seguiam eram as mais variadas. A de tecidos era de um homem eufórico que estava sempre discutindo preço com algum comprador. A de doces era de uma senhora bondosa que vendia o melhor caramelo quente com nozes dali e ela sempre dava amostras generosas para quem estivesse passando. 

Mais a frente e quase no final da ruela, estava Lucas o malabarista. Ele vestia a camiseta listrada de sempre, aquela que era enorme e parecia emprestada de algum amigo duas vezes maior que ele. Ao ver o garotinho mirrado com a maleta enferrujada, deu um largo sorriso e um aceno de mãos rápido o suficiente para pegar as bolinhas flamejantes que voltavam em direção ao chão. O garoto sorriu e o cumprimentou e então continuou seu caminho em direção a fonte iluminada. Já era quase noite. 

Colocou a maleta no chão, em cima do último degrau, e, com um pequeno clique na parte de baixo, ela se abriu prontamente. Para quem estivesse olhando a cena de longe teria certeza que deixara passar algum momento: em frente ao menino agora se encontrava um teatro quase de seu tamanho, inteiro montado. Em seguida acendeu um varal de luz, que trouxe a vida o canário daquela noite: um castelo em um reino distante. 

Enquanto retirava alguns bonecos de dentro de uma caixa menor, a vitrola começou a tocar sua música, aquela que todos já conheciam e consideravam a chamada para o espetáculo. Assim, a pequena praça foi se enchendo a medida que os comerciantes encerravam as atividades. O teatro de Marcos era o evento mais esperado do dia. As pessoas saíam de sua rotina monótona e podiam ver, ouvir e viver outras histórias. 

O cenário de hoje era a sala do rei, onde ele colocou um boneco de bigode volumoso e rosto rechonchudo no trono. O rei, desajustado, segurava a mão da rainha ao seu lado, uma mulher alta que se destacava por seus perfumes e essências. Além deles, tinham o comandante: um senhor magrelo, alto, com cabelos grisalhos e extremamente habilidoso com as mãos e o conselheiro, que era o que mais falava ali. Ele estava sempre negociando tudo com qualquer pessoa.

Marcos olhou para a platéia sonhadora, fascinados com as histórias de cada um dos personagens de um reino distante e inventado. Sorrindo, colocou os últimos dois bonecos: a rainha mãe, uma senhora bondosa e generosa que tinha paixão por caramelo com nozes e o príncipe da corte, um rapaz desleixado mas muito habilidoso, que vestia um longo casaco listrado, duas vezes maior que ele. 

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Lacunas

"Um homem entra num bar. Suas roupas estavam molhadas da chuva que caía lá fora. Os jeans ensopados pareciam mais maltratados do que realmente eram. Estava na moda dos joelhos rasgados. Já os tênis, esses sim sabiam o que era andar. Parado sob o beiral da porta, abaixou o capuz do moletom verde-musgo que usava sob a jaqueta de brim. Esperou um pouco a chuva das suas roupas se acumular no chão, sondando o ambiente com olhos escuros e velados que combinavam de forma incômoda com o sorriso casual em seus lábios. Ele então andou até o bar, pediu uma cerveja, pagou com algumas notas molhadas e voltou para a chuva indiferente do lado de fora."

A Menina leu e releu o trecho, olhando de relance entre uma frase e outra para o amigo, que esperava sua opinião com ansiedade. Ela olhou o verso da página e, um pouco confusa, disse:

– É isso?

– Sim! – o Menino respondeu com o peito estufado.

– Cadê o resto?

– Que resto?

– O fim da história. Ou o começo dela. Não da pra ter certeza que parte é essa.

– Então, esse é o momento em que o leitor entra. Eu venho com as palavras e você com a imaginação.

– Mas como eu vou imaginar qualquer coisa com tão poucas palavras? Por que o homem não tinha um guarda-chuva? Por que ele só tomou uma cerveja? Por que era importante saber que o moletom era verde? Por que ele não esperou a chuva passar antes de sair? No que ele estava pensando para seu sorriso ser tão perturbador?!

– Como você gostaria que eu respondesse essas perguntas?

– Sei lá! A história é sua, você que termine.

– Mas a história não é só minha, é de todos que a leem.

– Isso não faz sentido algum.

Com um suspiro frustrado, o Menino pegou seu caderno de rascunhos e deu meia volta.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Sonhar demais

A reunião com os pais estava demorada na sala da diretora enquanto o menino, encolhido na ponta de uma longarina, olhava para dentro através do vidro da porta fechada, sem poder escutar nada. Os olhares tensos dos 3 eram tudo o que havia para ser decifrado. Suas notas não eram nada boas, então ele sabia que coisa boa não podia ser.

O papel sobre a mesa comprovava o medo da criança. Ao lado dos três, dos quatros,  dos dois e meios, estava a anotação em tinta vermelha de caneta: “Sonhador demais”.

Podia até ser uma exposição mais abstrata para algo psicológico interno, mas olhando assim por cima, até que poderia se dizer que era verdade. Tudo se tornava gatilho para que a fantasia tomasse conta. Haviam animais correndo pelos escritos da professora no quadro. Os números dos exercícios incompletos do caderno de matemática dançavam pelo papel. As árvores cochichavam entre si segredos no canteiro da rua de trás. E também em casa, as listras papel de parede do seu quarto eram em uma praia cujos castelos de areia eram os mais lindos que poderia haver. Como estudar enquanto todos os bondes que passavam fora o chamavam para brincar a cada cinco minutos.

As chamadas das professoras eram um anzol que o trazia para a realidade da  mesma maneira que rasgava as bochechas de um peixe para fisgá-lo. Eram constantes e todos já estavam cansados disso.
A diretora, pois, teve que dar atenção ao caso. E o plano estava elaborado. Ela olhava os cantos do papel, que estava sob o boletim, como se pudesse vislumbrar tudo realizado. Ao revelá-lo, as reações não eram bem as que ela esperava. Havia um pouco de medo em face de uma medida tão extrema. Mas os pais, pensando em um futuro para a criança, aceitaram. Não queriam ver o menino virando cobrador do bonde, vendedor de vassouras em uma esquerda qualquer, vender coco na praia de Copacabana.  O menino havia de estudar, datilografar, ser culto. Estar nas altas cúpulas da capital do Brasil.

O colete tinha pequenos eletrodos e uma bateria próxima às costas. A cada tantos, ele soltava uma pequena carga sobre a criança, trazendo-a para o mundo real. Nada demais, segundo a diretora. O menino, magro e desajeitado, tomaria rumo de encontro aos destinos traçados pelos pais.

O menino estava apreensivo quando chegaram seus pais, com uma caixa nas mãos, e um olhar ao mesmo tempo amedrontado e assustador. A partir da manhã seguinte, o menino já chegava na escola com sua nova vestimenta. Era relativamente discreta. Era colocada por baixo do paletó da escola. A cada 5 minutos, um choque. Não doía, apenas coçava um pouco. A coceira era seguida por um movimento involuntário com a cabeça, como alguém despertando.

Após as primeiras semanas o corpo já foi acostumando aos pequenos choques. Estava sempre alerta. A resposta positiva dos seus professores fazia, a cada dia, o menino menos se importar com o tratamento de choque. E nesta toada os anos foram passando.  Suas notas aumentavam bimestralmente. Ele era assertivo nos cálculos e nas datas. Terminou a escola como um ótimo aluno. Nos eventos sociais da família, ele era o orgulho da família. Os amigos dos pais, cujos filhos contavam do desempenho do menino – mesmo que sem saber do artifício elétrico – olhavam para o jovem como um pequeno gênio.

Anos passaram e José, o menino que desaprendeu a sonhar, estava lá, de malas prontas. Sairia para Brasília daqui algumas horas. Era tudo uma loucura. Novidades aguardavam em uma cidade feita para ser o centro do mundo. Sua cadeira estava lá, esperando em uma das salas projetadas pelo Oscar, um grande amigo da família.

O ônibus partiu.

Os dias passaram.

Os telegramas vinham.

Os meses passaram.

Os telegramas vinham.

Mas, certo dia, pararam de vir.

Não havia notícias de José havia dias.

O pai decidiu partir para Brasília imediatamente. A mãe perguntava-se a cada instante o que poderia ter acontecido. Ele nunca deixou de dar notícias.

Chegando em Brasília sob um calor infernal, não foi perdido tempo. O casal entrou em um taxi e seguiu diretamente para a esplanada. Seguiu para o edifício do Ministério do Interior. Subiram as escadas e deram com um corredor longo. Na penúltima porta havia uma placa na qual estava escrito: “Secretário Geral da SUDESUL: Dr. José Alves Filho”.

Bateram na porta e não tiveram resposta. Abriram, pois, e se depararam com uma mesa vazia, uma cadeira executiva e uma chave de armário. Testaram a chave em todos os lugares, porém sem sucesso. Ao ir embora, chegando ao térreo da edificação, se depararam com um armário próximo ao balcão da recepção. Era um guarda-volumes. Havia dezenas de portas, mas o número era certo. Encaixaram a chave na porta numero 47, o número da sala visitada, e após o movimento de abertura, a luz penetrou no armário e revelou uma caixa envolta em papel pardo. Sobre a caixa, não havia nome, não havia data ou algo que pudesse identificar.

Havia apenas um pequeno envelope colado no canto inferior.  

Dentro do envelope, um papel escrito em caligrafia perfeita e claramente reconhecível:

“Me desculpem, mas preciso sonhar novamente.”

Pegaram a caixa e, sem abrir, jogaram na lagoa para jamais ser aberta.
Jamais ouviram falar no doutor José Alves Filho. Talvez tenha ido para algum lugar viver a vida. Ser um cobrador de ônibus.

...

Ou, quem sabe, se tornar um ótimo vendedor de vassouras.