quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Terapeuta

O homem senta calmamente no divã, aliviado por poder dar um descanso para as pernas depois de um longo dia de trabalho. A doçura do contato com a superfície macia e aveludada do estofado é quase inenarrável e o corpo facilmente coloca de lado por um tempo a memória do toque ríspido da cadeira do ônibus, onde permaneceu pela última hora e meia. Os olhos se dão a liberdade de permanecer fechados por um tempo pois aquele é o lugar seguro. Aquele é o lugar onde ele sente que deve estar.
Porém ao abrir os olhos, o olhar do terapeuta estava já fixo nos seus. Ele observava as pequenas reações, em silêncio. Calculava os pequenos espasmos e as coceiras involuntárias no nariz e no dedo anelar. Não era necessário dizer nada para que o estado de estresse fosse claramente comunicado pelo paciente. Ele era avaliado cuidadosamente. Até seu cheiro era percebido com cuidado pelo nariz bem treinado do terapeuta que, com os dedos e as palmas, pressionava levemente o tórax e captava, como em uma dessas tantas curas esotéricas milagrosas, as vibrações e a energia que emanavam do corpo deitado. Os olhares estavam próximos, como se atravessassem a barreira do que é físico, da simples interpretação vaga da porção de luz que é refletida e se dirige em direção a nós. A conexão era quase que mística, tanto quanto silenciosa.
No início, o homem até se perturbava com essa falta de respostas claras. Com essa falta de respostas. “Talvez aquele outro, que, ao menos demonstrava um pouco mais de calor quando eu chegava, que cumprimentava efusivamente logo na porta, fosse melhor pra mim” era um pensamento bastante recorrente nas primeiras sessões. Porém com o tempo esse silêncio se tornou um elemento essencial em todo esse processo de chegada e início de tratamento. Lá havia, à sua espera, um monge, pleno do vazio de si próprio e pronto para absorver as mazelas e o trazer para perto de seu estado quase divino. Estado esse que era bastante recorrente para a figura do terapeuta.
Por gerações ele era visto quase que como um deus, quando não o efetivamente era. Porém, ao longo do tempo, como tudo o que tem esse caráter imaterial, a figura desse terapeuta foi relegada a um nível rebaixado, sempre afogado pelas novas leis da física, da engenharia, das respostas exatas e precisas, com n casas depois da vírgula. Como se isso importasse para as figuras que vagam por aí, despreocupadas com o reconhecimento. “São coisas mundanas demais para eles,” concluiu por si próprio o paciente.
De fato para eles era suficiente o silêncio. Algo como um silêncio cerimonial, quebrado apenas por manifestações pontuais, quando a intransigência do paciente em interromper abruptamente a sessão passava dos limites. Uma palavra era suficiente para a repreensão. E o silêncio reinava em paz com o paciente novamente entregue às mãos do habilidoso terapeuta que como um psicólogo, arrancava impiedosamente o que dolorosamente guardamos em nosso íntimo.
Não há horário para o fim da sessão. Ela termina quando o terapeuta julga ser conveniente. Após todo o cerimonial, há sempre um abraço forte. O terapeuta abdica de toda sua reserva em relação a si e a seu corpo, deita-se ao lado do paciente – afinal o conforto daquela peça de estofado não deve se restringir apenas a ele – e adormece.
Este período de aconchego se estende por horas até o momento que uma separação, por vezes traumática, é forçada por motivos de força maior, por necessidades intrínsecas à figura e à função deste ser sublime e enigmático: Um pouco de leite, e uma ida rápida à caixa de areia.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Escolhas

Em seus tempos áureos e não tão remotos assim, a cidade do Orgulho brilhava como nenhuma outra. Cotada como uma das dez melhores para se viver, somente pessoas muito seletas conseguiam seu passe para o sonho de um terreno com grama bem aparada ou de um apartamento com vista para suas ruas douradas. 

Os turistas eram escassos, mas não por crise ou falta de interesse. Os orgulhosos - moradores nascidos ou erradicados por lá - passaram anos lutando para que a entrada de pessoas de fora fosse proibida. Depois de diversos plebiscitos fracassados, uma lei de - quase - comum acordo foi estabelecida permitindo que um número restrito de pessoas pudessem visitar a cidade. A verba de fora era importante também, mas ninguém queria admitir. 

Os sortudos que eram premiados com um visto temporário podiam passear por suas ruas de paralelepípedo cor de ouro e vislumbrar casas e lojas impecáveis, desde a pintura recém feita até o polimento do sino de prata que anunciava os visitantes. Tudo brilhava, reluzia. Nada estava fora do lugar. Os moradores tinham muito orgulho de sua cidade. 

Outra particularidade, que sempre chamava a atenção dos turistas, era um ornamento utilizado pelos cidadãos: um colar com várias pequenas bolinhas, de diversos tamanhos, que lembrava muito um terço. 

- Estou te dizendo que cada uma dessas perolazinhas tem seu significado.  O orgulhoso falou enquanto bebericava café quente de uma xícara de ágata perfeitamente ornamentada. 

O repórter olhava intrigado para a pequena bolinha entre seus dedos. Presa a ela seguiam várias outras, formando uma longa corrente cor de ouro velho. O colar era grande o suficiente para dar três voltas no pescoço do rapaz a sua frente. 

- Você está me dizendo que estas pérolas representam as suas escolhas.

- Na verdade são as minhas não-escolhas. 

- Não-escolhas?

- As escolhas que não realizei em prol de outras. 

O repórter acenou enquanto fazia anotações em meio aos rascunhos de seu bloquinho.

- Então vocês guardam estas escolhas que não foram feitas.

- Sim. - Ele respondeu como se fosse algo extremamente obvio. - É sempre importante lembrar o que deixamos para trás. Qual o custo que pagamos e quais as possibilidades que perdemos. 

- Mas não gera um arrependimento constante? Digo - Corrigiu em tempo ao ver a carranca do entrevistado endurecer - você não pode, com o tempo, perceber que fez escolhas não tão acertadas? 

- Talvez. Mas também serve para lembrar do seu potencial. Lembrar de tudo o que você poderia ter sido. 

- Mas não realizou. Saber que teve tantas possibilidades e lembrar delas constantemente é realmente tão necessário assim? 

- Claro. - Ele respondeu em um tom cheio de orgulho e uma pontada de mágoa. - Quanto mais escolhas abandonadas, quanto maior o seu colar, mais prestígio você tem. Faz parte de quem você é. 

- Mais do que as escolhas que você fez? 

- Com toda certeza. - O orgulhoso falou feliz por finalmente o repórter ter parecido entender. Ele sempre soube que as pessoas de fora eram menos capacitadas. 

Enquanto o repórter finalizava suas anotações, o dono do colar passava o dedo por suas contas. Não esperava que as outras pessoas percebessem a importância de se lembrar dos seus sacrifícios. Mas ele não esqueceria. Nenhum. 

Parou em uma conta menor e a encarou. Lembrava o que abandonou com ela. O que ganhou com isso mesmo?

Não fazia ideia. 

Mas também não importava, seu sacrifício estava claro. 


Para ele e para os outros.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Tédio, Fórmica e Cortiça - Três atos de um fim de tarde


Era difícil manter a concentração naquele final de tarde de sexta-feira e a moça dividia seu intelecto entre inventar teorias para explicar a duração absurda daqueles últimos minutos e procurar padrões no painel de cortiça atrás do seu monitor. O olhar navegava com precisão os veios escuros, desviava dos alfinetes e dos rabiscos presos, avaliava a diferença de tonalidade entre os pequenos pedaços. O relevo começava a se delinear. Sombras e luz criavam cadeias de montanhas, os pequenos alfinetes eram pequenos vilarejos salpicados na aridez bege daquela terra. Beduínos seguiam com seus camelos enfileirados, carregando odres em barro, cheios do óleo perfumado extraído em uma região longínqua, cujos bosques de oliveira se desenhavam nos fundos dos vales.
O monitor preto, onde o cursor dançava sem propósito sobre o vazio deprimente emoldurado por linhas e hachuras coloridas, ficava desfocado no canto da vista, cobrindo parte desse universo, terras ermas por onde os grandes aventureiros da época ainda não haviam explorado. Ydraz, O Grande, também conhecido como o pai de todos, o primeiro desbravador a chegar, ainda jovem, nessas terras e descobrir os oásis ao redor dos quais as famílias se aglomeraram já há tantos séculos, havia conseguido chegar no topo das montanhas a oeste e, já no limite de suas forças, decidira não enfrentar o mar de areia que se estendia a perder de vista. Em todos os mapas, habilmente desenhados pelos notórios mestres cartógrafos de Mahÿr (grande cidade murada ao nordeste, delimitada pelo alfinete lilás), todo território a oeste dos montes era considerado ‘terra desconhecida’ e era representado em um grande plano preto. Em seu tempo, sempre cercado de crianças sentadas ao seu lado e com um grande sorriso, Ydraz contava como era estar de frente a tamanha imensidão. Todos os pequeninos saiam cheios de sonhos, que eram alimentados toda vez o explorador se aproximava dos oásis e, seguido por uma multidão de infantes, ia até um tronco caído ou uma pedra, onde se sentaria para contar em detalhes sua última jornada e, com sorte, um pouco das antigas histórias que guardava por detrás de um olhar sempre sereno.
Uma manhã, já por volta dos seus sessenta anos, o próprio desbravador foi atingido em cheio pelos sonhos que plantava nas pequenas mentes férteis, pegou um camelo e um de seus falcões, se preparou com esmero e partiu com as costas ao sol para ultrapassar quaisquer limites e finalmente descobrir o que haveria por trás do grande borrão preto, das linhas e hachuras coloridas. Todos esperavam notícias suas, especialmente os pequeninos e os cartógrafos, ansiosos para poder completar suas obras.
Ficaram a esperar.
O telefone toca e o som irritantemente agudo desperta os sentidos da moça. Atordoada com a voz de seu chefe dando instruções e fazendo observações sobre os trabalhos entregues, ela observava os desenhos na tela com um quê de espanto. O dia seguinte seria complicado. A voz do chefe, do outro lado da linha era interrompida por ‘sins’, ‘certos’ e ‘oks’ secos e sem muita vida, vindos da boca quase imóvel da jovem. Recebidas as informações, ainda com o telefone em mãos, seu olho desfocou do monitor e sua cabeça já partia novamente.
Na mesa em fórmica azul, próximo à base cinza do telefone, as mãos que traçam movimentos aleatórios estão cercadas por utensílios de trabalho. A esquadra de lápis, caneta, borracha, raspas de madeira, minas de borracha e um estilete afiado está próxima a abordar a pequena e indefesa embarcação. Em seu mastro magricela não há bandeira de país e o capitão da esquadra tem certeza que vai lucrar um bom bocado ‘negociando’ com mais esse navio mercante. Um homem amargo, esse capitão. Diferentemente de seu antecessor (e agora subalterno, devido a um jogo de influências no palácio), ele não era um homem do mar. Não tinha os cacoetes, e muito menos paciência para encarar uma guerra constante contra a falta do que fazer e o excesso de imprevistos característicos dos oceanos. Estava feliz em seu posto de conselheiro, quando foi tirado de suas funções para dar lugar a um filho mimado de um desafeto de longa data. “Iria matá-lo assim que possível”, jurava todas as manhãs. Passados os meses, a dureza foi tomando conta do homem e ele descontava toda ela em quem aparecia pela frente, remadores, vigias, e toda sorte de marujos de que ele dispunha. Para a alegria da tripulação, sempre aparecia algum barqueiro perdido para distrair o capitão e seu amargor.
Feita a abordagem, os soldados levaram o barqueiro, um tanto de carne seca e uma bolsa cheia de mapas e anotações. Entregaram o homem no convés principal da grande embarcação, diante dele estava o impávido capitão, com seu sorriso que misturava um ar de superioridade, a perspectiva do lucro fácil e aquele sadismo alimentado por cada um dos longos dias longe de seu posto no palácio.
Ele observava o homem vestido em roupas já gastas, com sua barba bastante esbranquiçada. Seus olhos, revelados com o arrancar abrupto de seu lenço da cabeça, eram de um tom claro de uma cor de mel. As pupilas do homem ainda se contraíam quando o capitão, irritado pela falta de aparentes manifestações de medo, se aproximou bruscamente tentando intimidá-lo.
Não daria certo. O homem já havia passado por tanta coisa e parecia que todas as suas aventuras estavam escritas nas linhas que se desenhavam em um rosto que, pela idade, deveria parecer mais cansado. Ele permanecia impávido diante do comandante que vociferava o quão ruim era a situação e qual era o preço para que permanecesse vivo, nada menos que toda a grande quantidade de mercadorias, ouro, prata, cobre e todos os outros metais usados para cunhagem de moedas pelos povos das cidades-estado mercantes que costeavam a baía. Porém ao meio da chuva de saliva que respingava em si, o homem moveu a cabeça em um gesto repentino para baixo. Porém, antes que os guardas imediatamente em volta tivessem tempo de sacar as armas surpresos com o movimento estranho e inesperado dada a postura inerte apresentada desde a abordagem, um grito agudo foi ouvido do céu. Do meio das nuvens densas, banhadas pela luz amarela rósea do Sol baixo matutino, surgiu uma sobra preta que descia rapidamente. Sem dar espaço para qualquer reação a ave fincou as garras no pescoço do comandante e atravessou em um rasante o convés com parte do sistema respiratório do homem pendurado, centímetros acima das cabeças dos galerianos, exibindo-os como uma carta de alforria.
Os guardas atônitos, com o ocorrido, foram despertados pelo som oco do corpo paramentado caindo duro na madeira e profundamente perturbados pelo aspecto visual do que acabara de acontecer, correram em direção à cabine principal, onde, alheios, os subcomandantes, homens fiéis ao seu líder foram agarrados, amarrados, e levados para o pequeno barco que ficaria flutuando parado sobre o pequeno mousepad no meio da mesa em fórmica azul.
O apito de hora cheia, emitido pelo antigo relógio de pulso da menina, foi o suficiente para que a moça aprumasse a postura e voltasse o olhar para o monitor. Seus colegas de trabalho se levantavam juntos e se despediam enquanto abriam a porta e partiam.
-Só não esquece de apagar a luz, já tomamos uma dura ontem. Dizia um deles.
Controles de horas preenchidos, computador desligado e luzes apagadas, a jovem se levantava para fechar as persianas. Voltando à mesa para pegar suas coisas, não resistiu e deu uma olhada no canto formado pela parede em cortiça e a mesa em fórmica, porém já não conseguia ver mais nada. Pegou sua bolsa e fechou a porta do escritório já escuro e tomou o elevador.
Na descida, porém, não conseguia deixar de imaginar Ydraz, já centenário, observava mais uma nova cidade que tomava forma à sua frente. Trechos de muros em pedra e de paliçadas cercavam construções baixas feitas em adobe e madeira. Ruelas estreitas, e cobertas com pergolados formavam uma rede sombreada que se espalhava por entre as construções. Pequenas fontes de água doce, que vinham de um rochedo próximo alimentavam fontes nas praças onde os antigos remadores e guardas, se misturavam com novos habitantes que chegavam das rotas marítimas orientais, em direção às grandes cidades do império, ainda distantes a oeste.
Hafir havia se tornado um porto bastante importante, sendo o elo entre diversas regiões de um continente difícil de se atravessar a pé. O pai de cidades contemplava o movimentado cais, construído em volta de duas carcaças de galés, de onde haviam tirado a madeira para construir. Haviam mantido alguns pedaços intactos para lembrarem sempre de seu desprezo pelos seus antigos líderes e donos. Longe da costa, grupos de mercadores chegavam de camelo de todas as direções, trazendo mercadorias exóticas que eram trocadas nas feiras que preenchiam as praças próximas ao embarcadouro.
Dentre esses tantos grupos, vinham também alguns da região de Mahÿr e das outras cidades dos oásis. Muitos anos passariam antes que ligassem as histórias e descobrissem o quão próximos eram esses povos. Ydraz, já não contava tantas histórias como antigamente, mas a descoberta de uma antiga arca, guardada pelo próprio explorador em uma gruta estreita e profunda no rochedo que ladeava a cidade foi o suficiente para ligarem todos os pontos. Mapas e diários de anos de viagem estavam todos ali, contando histórias de desde a fundação das cidades oásis até a contemplação do nascimento de Hafir, incluindo os anos entre a partida em direção ao deserto e a captura pelas galés. Mas as muitas histórias deste meio teriam que ficar para uma próxima tarde, por volta das 17h57.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Migalhas

— Não gosto de ir na casa da Tia Ciça.

— Mas ela gosta de você, e sempre faz o bolo de fubá que você tanto gosta. Além disso, ela já está bem velha. Aproveite essas visitas enquanto pode.

— Eu não gosto de fubá…

— O que disse?

— Eu disse "tá bom, eu vou".

O bolo de fubá era realmente a melhor parte das visitas à casa da tia Cecília, mas o Menino preferia bolo de cenoura; era menos farelento.

Tia Ciça era, na verdade, a tia-avó de seu pai, mas toda a família a chamava assim porque ela havia "ficado pra titia". Já estava tão velha que nunca se lembrava do nome das crianças, e com frequência trocava os dos adultos. O Menino havia dito mais de uma vez que não gostava de bolo de fubá, mas por algum motivo a velha guardou na memória o oposto disso e, para sua grande frustração, agora todos achavam que aquele era o seu bolo favorito.

Quando chegaram à casa da senhorinha, o Menino torceu discretamente o nariz para o cheiro encardido do lugar. Tia Ciça não tinha gatos — de fato, nunca os tivera, — mas por alguma razão inexplicável a casa toda cheirava como se ali vivessem todos os siameses da cidade. Apenas um cômodo se salvava, que era a cozinha, que agora já estava perfumada pelo bolo de fubá assando no forno. Perto do restante da casa, aquele odor era até convidativo, e foi lá que o Menino se refugiou.

Envolta num xale de crochê grande demais para seu corpo franzino e enrugado, Tia Ciça enchia a chaleira de água para o chá. Porém, quando o Menino e o pai entraram na cozinha, levou um susto e derrubou tudo que estava segurando, espalhando água pelo piso.

O Menino quis se oferecer para ajudar, mas ficou paralisado ao ver as mãos da tia tremendo enquanto ela juntava a chaleira. Por algum motivo, nunca havia parado pra pensar em como os anos afetavam as pessoas e o que realmente significava ser velha, mas a visão daquelas mãos enrugadas e manchadas pareciam ser a personificação do próprio tempo. Como que um mero ruído de fundo, ouviu o pai se oferecendo para limpar tudo e preparar o lanche da tarde enquanto Tia Ciça descansava um pouco.

— Ei, menino, você me ouviu?

— Ãhm?

— Eu disse pra você fazer companhia pra Tia Ciça enquanto eu arrumo as coisas aqui.

— Nós podemos fazer uma caminhada — a velha sugeriu, forçando a atenção do menino a abandonar suas mãos por um instante. — Estou precisando esticar as pernas.

"Ela é tão velha," o Menino pensava estupefato, como se sua mente estivesse presa num loop infinito que nunca passava do ápice e deixava a mente suspensa de pernas para o ar. Teve a vaga noção de ter concordado com os adultos. Quando se deu conta, já estava com o sol estival a lhe queimar a testa a as bochechas numa rua a qual nunca havia botado os pés antes. Tia Ciça não falava muito além do seu habitual, apontando para casas aqui e ali e enumerando os moradores de destaque das últimas décadas. Seus passos eram vagarosos e determinados, como quem tem um compromisso importante a atender, mas nenhuma pressa.

Enquanto isso, o Menino a seguia com tropeços distraídos e inseguros, preso nos próprios devaneios. Demorou um pouco para perceber que a tia havia parado na frente de uma construção grande, porém modesta, de muro baixo e descascado.

— Eles vão demolir na semana que vem, dá pra acreditar? Parece que foi ontem mesmo que eu estava brincando de amarelinha no pátio.

Foi então que o Menino percebeu uma placa desbotada com o nome ilegível de uma escola. Não conseguia imaginar que aquela senhora corcunda, cheia de linhas onde se podia contar a passagem dos anos, um dia havia sido uma criança como ele. Apesar da sua imaginação não conseguir ir tão longe, o Menino aceitou que aquilo deveria ser verdade para todas as pessoas no mundo, até mesmo para as que haviam ficado pra titia.

— Olha, deixaram o portão aberto…

Nem mal havia terminado de falar, a velha senhora já atravessava o portão em questão. No mesmo instante, a mente do Menino acendeu vários alertas: talvez o lugar fosse ser demolido porque já não era mais seguro; seu pai vivia falando que Tia Ciça estava começando a ficar gagá e tinha receio que ela andasse sozinha por aí e se perdesse; ele ficaria de castigo por pelo menos um ano se perdesse a velha de vista.

Apesar de todas aquelas luzes piscando vermelhas em seu cérebro, o Menino não a chamou para que voltassem para casa. Havia alguma coisa no sorriso da velha que parecia puro e longínquo, e só aumentava à medida que ela se aproximava da escola. Mesmo sabendo que não era a coisa mais sensata a se fazer, o Menino apenas a acompanhou, observando atento os mínimos movimentos daquela teia epidérmica no rosto da tia onde estavam capturadas e expressas tantas memórias.

Logo percebeu que um dos seus medos era infundado: apesar de antiga, a escola ainda estava em boas condições, e muitas das salas ainda estavam inteiramente mobiliadas, apenas um tanto bagunçadas e empoeiradas. Aquilo refletia bem o estado da memória de Tia Ciça, pois não parecia haver sala ou corredor que não lhe recordasse algum professor ou colega, sempre atrelando alguma situação peculiar à pessoa.

— Era ali que eu me sentava quando tinha a sua idade, perto da janela — ela apontou para um espaço vazio numa das salas de aula iluminadas pela luz enviesada da tarde. — Toda segunda-feira minha mãe fazia bolo de fubá pra eu trazer de lanche, mas não aguentava esperar até o recreio. Eu escondia o bolo debaixo da carteira e beliscava aos bocadinhos sem a professora ver. Tinha que tomar muito cuidado pra não deixar nenhum farelo cair, senão era mandada pra diretoria. Acho que é por isso que até hoje como até a última migalha. Temos que aproveitar cada pedacinho. Mas você não gosta de bolo de fubá, não é mesmo?

Um sorriso sabichão acentuou as rugas em torno dos olhos da velha.

"Ela se lembra."

O Menino sorriu. Não sabia se deveria se sentir traído com aquela revelação ou honrado por ser o confidente daquele segredo. De qualquer forma, sentia que agora entendia a velha um pouco melhor.

— Sabe, tia, acho que eu gosto.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Luzes de Natal

Aquela era a época favorita do Menino. Todo ano ele contava ansiosamente os dias até dezembro, e depois contava as horas para a véspera da véspera do Natal.

Diferente das outras crianças da sua idade, ele não ficava eufórico para descobrir quais presentes ganharia nem para se empanturrar com a maravilhosa ceia que os pais preparavam juntos (e na qual ele estava começando a meter suas mãozinhas para ajudar). Não, esses momentos eram bons, mas não eram o melhor do Natal para o Menino. Para ele, a noite do dia vinte e três de dezembro era mais especial que todas as outras.

Era nessa noite que ele saía para passear com os pais para ver as luzes da cidade. Centenas de milhares de focos luminosos eram espalhados pelos telhados das casas, em trenós puxados por renas de plástico, arbustos, estrelas de arame e cascatas de luz — cada morador tentava chamar mais atenção que o outro, para o deleite dos olhos do Menino, que quase não piscava tentando absorver toda aquela ciranda de fadinhas luminosas de uma só vez.

Como todos os anos, depois do jantar ele, o pai, a mãe e Jojo, o cão da família, saíram para a caminhada arrastada e despreocupada sob as estrelas. Este ano, porém, elas não estavam ofuscadas pelas luzes da cidade, salvo os raros pontos em que um morador havia muito humildemente enfeitado sua cerca ou lambrequim.

— Essa seca estragou o natal — o Menino ouviu a mãe comentar depois de algumas quadras.

— Seca? É a crise! — seu pai retrucou. — Isso sim está fazendo as pessoas economizarem na marra.

— Bem, de qualquer jeito, estão gastando menos energia. Sem essa economia, já teríamos tido um apagão…

Aquela conversa continuou por muitos minutos e assuntos que pouco faziam sentido para o filho do casal.

Agora, seria de se esperar que o Menino tivesse ficado decepcionado com a falta de pisca-piscas e papais-noéis luminosos, mas não foi bem isso o que se passou Assim como as estrelas não haviam se ofuscado para as luzes de Natal, um outro conjunto de luzes que antes era mero pano de fundo agora lhe saltava aos olhos. Estavam em todas as casas, todas as fachadas, e ele ficou muito surpreso por nunca tê-las notado antes.

Através das janelas podia-se ver cômodos iluminados recortados por silhuetas difusas nas cortinas. Em algumas casas, as pessoas ainda jantavam; em outras, assistiam à televisão amontoadas no sofá; e em outras ainda, as luzes dos quartos revelavam a solitude momentânea de seus inquilinos, às vezes quebrada por algum contato virtual.

Aquelas luzes, antes diminutas em comparação à dança das fadinhas elétricas, agora mostravam as vidas que realmente davam significado àquela época do ano, aos festejos, às decorações e à troca de presentes. As casas pulsavam com as conversas e risadas que emanavam das formas escuras que se mexiam e interagiam pela luz das janelas, enchendo o peito do Menino com um calor indescritivelmente aconchegante.

Por muito tempo a cidade não sofreu períodos tão atribulados quanto aquele, mas as luzes de Natal nunca mais foram tão belas quanto naquele ano.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Poeira

Os anos iam cada vez mais rápido vistos pelos olhos do rapaz moreno, alto de um metro e oitenta, sentado em um dos muitos bancos da praça central da cidade. De quando em quando ele, com um movimento discreto, olhava para os lados, observando quem vinha pelos caminhos que entremeavam os arbustos descuidadamente altos, porém sempre voltava à posição de origem, voltado para o nada, observando os segundos surgirem do vazio, tomarem forma como uma centelha, se tornarem palco da existência e depois se esvaecerem sem deixar rastros.
     Em alguns momentos, o olhar difuso, atravessava estes repetitivos ciclos de momentos, que apareciam e evaporavam no ar, para chegar nos muros de pedra do edifício antigo do banco da cidade. O muro subia cerca de dez metros, sendo mais rústico na base e mais delicado nos trechos superiores, onde pedras de um tom ligeiramente mais amarelado ladeavam lindamente as molduras das janelas dos escritórios, localizados no andar superior. Na parte central do peitoril, havia uma pedra maior, cuja forma fazia alusão ao antigo emblema da empresa, que há anos já não existe mais. Desde e a sua saída para uma nova sede, recém-construída, a duas quadras dali, a bela construção seria abandonada por longos anos.
    Ora ou outra apareceram aventureiros querendo revitalizar o antigo edifício, munidos sempre de ideias mirabolantes, mas que esbarravam em algo que parecia uma força que vinha daqueles muros, do coração de cada pedra. Algo sempre entrava no caminho destes que tentavam a sorte no local, dando nós nos planejamentos mais cautelosos e jogando por terra as numerosas planilhas que os sabidos de administração deixavam preparadas.
    Era como se o edifício quisesse permanecer abandonado. Estava velho demais para o ritmo do século XXI, com suas novas redes de informática, cabeamentos blindados. As ruas estavam barulhentas demais e a hibernação eterna parecia muito mais sedutora que a possibilidade de despertar e encarar este novo modo de vida entrando pela sua pesada porta giratória, empurrando as folhas que nunca giravam rápido o suficiente para quem entrava.
    O muro havia algo que atraia repetidas vezes o olhar de quem se dava ao tempo de contemplar. Era algo difícil de se explicar, algo nada científico. Um olhar cauteloso, porém não menos não-científico poderia perceber algo além das pedras. O tempo acumulava-se em suas ranhuras como que de maneira física. Aquelas pequenas partículas de tempo, estes segundos que brotavam do nada, flutuavam no ar o quanto poderiam em sua breve existência e grudavam nas rugosidades da parede de pedra. Estas estavam lá por tanto tempo que o próprio tempo se sentia confortável ao pousar suavemente sobre sua superfície conferindo a ela um caráter sobrenatural, aquele que nos toca quando estamos em tantos locais incríveis mesmo sem sabermos.
    Talvez ‘poeira’ seja uma maneira de descrever isso. Aquela poeira que se acumula nos antigos móveis da casa dos avós. Naquele pequeno aparador com algumas imagens religiosas, velas e fotos da família. A filha mais velha sempre está lá para limpar, mas passar o espanador apenas levanta a poeira pra que ela tenha o trabalho de achar seu caminho de volta para as pequenas representações do eterno. No canto do sofá, assistindo ao programa de domingo, a avó exibia também sua dose de tempo acumulada em suas rugas, em seu cabelo. Assim como o avô, arrumando o velho relógio cuco da família que insistia em adiantar cinco minutos o seu anúncio. Talvez seja isso que dá a eles e elas aquele ar de que são para sempre, de que estarão sempre ao nosso lado, esperando estarmos prontos pra que possam nos transmitir tudo o que sabem. Porém o tempo cobra o seu preço. Eles se vão mesmo que não estejamos jamais suficientemente prontos e tenhamos que, no final, aprender tudo sozinhos.
    Afinal não somos de pedra para ficarmos elegantemente exibindo nossa graça e nossa poeira pelos séculos, se sentindo sempre desajustados com a modernidade imediatista e sem alma, com a modernidade que teima sempre em passar um pano úmido por toda a casa, olhar com nojo para o pano ‘sujo’ e lavar toda essa eternidade na pia da lavanderia, olhando o tempo escorrer pelo ralo.
    Afinal não somos de pedra e temos que voltar ao trabalho depois do horário de almoço. O homem de metro e oitenta pega suas coisas e corre de volta para o prédio de vidro espelhado onde se localiza seu escritório. Volta com um belo sorriso no rosto e um ótimo novo hábito para esta meia hora que muitas vezes passa em branco. Passa tão rápido que não dá tempo nem de pegar poeira.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A Espera

– Só um momento, por favor.

– Está bem.

Depois de um clique e um bipe, o Moço ouviu uma música relaxante que, no inconsciente de todo ser humano, de imediato desperta um sentimento avesso de ansiedade e irritação. Reunindo todo o seu estoque de paciência, puxou uma cadeira para perto do telefone. Era um aparelho antigo, vermelho, que compensava a falta de mobilidade com uma charmosa sensação nostálgica. Na maioria dos dias, pelo menos.

Quinze minutos se passaram. A espera começava a ficar desconfortável. O Moço tentou se sentar de vários jeitos diferentes, mas a única posição confortável que não enroscava no fio espiralado era com os pés apoiados no encosto do sofá, fazendo todo o sangue descer para a cabeça. Depois de um tempo, até aquela pose acabou perdendo seu encanto e ele voltou a se sentar da forma convencional.

Quando a contagem das ripas no teto estava perto do fim, ouviu o som agudo de uma freada brusca seguida da cacofonia da batida. Tentou esticar ao máximo o fio do telefone, mas a janela mais próxima estava muito longe para ver o que havia acontecido na esquina. Um tempo depois de as buzinas terem se acalmado, a sirene de uma ambulância cresceu e parou no local do acidente. Minutos depois foi ligada novamente, e o Moço a ouviu desaparecer ao longe, grave e urgente.

Cansado de ouvir aquela música, correu até o quarto para pegar um dos livros que estava lendo naquela semana. Voltou correndo e grudou o telefone na orelha, apenas para descobrir que a melodia continuava no exato ponto em que ele a havia largado. Encaixou o aparelho como pôde entre o queixo e o peito para que o som não atrapalhasse muito a leitura e entregou-se às aventuras de Arséne Lupin.

Pouquíssimas coisas conseguiam fazer o Moço desviar a sua atenção de uma boa história, mas o som de cascos onde não deveria haver nenhum era uma dessas coisas. E o culpado por aquele som peculiar era, nada mais, nada menos, que um unicórnio da mais imaculada brancura que se pode imaginar. O belo animal atravessou a sala com passos lentos e olhos curiosos, sem saber ao certo de onde vinha ou para onde ia, como acontece com todo unicórnio num cenário urbano. Ele andou até a cozinha, mas o Moço tinha a impressão de que esse não era o seu destino final, por isso achou melhor não interromper seu caminho. Enquanto isso, a música no telefone era constante e monótona a ponto de quase ter se esquecido que estava ali, esperando que algum atendente se dignasse a encontrar a solução para o seu problema.

Prestes começar a parte em que o afamado ladrão revela como executou o seu roubo mais intrincado, o som de gritaria e falatório alto de crianças correndo pela rua irrompeu pela sala, quebrando a sua imersão. Instantes depois, um som grave e constante tomou conta da casa, parecendo vir de todos os lados. As janelas vibraram e um vento confuso invadiu a casa. O Moço ficou de pé no meio da sala sem saber o que fazer, ainda com o telefone pendurado na orelha. Foi então que ele viu uma sombra passar pela janela e, em seguida, o imenso objeto que a projetava: um enorme disco rodeado por luzes coloridas e piscantes sobrevoava a sua casa a poucos metros de altura. Paralisado de surpresa, tudo que o Moço podia fazer era observar ele se afastar da vizinhança como uma nuvem indiferente flutuando no céu; uma nuvem feita de metal, controlada por seres extraterrestres, provavelmente recheada de intenções bem mais complexas que uma nuvem comum, e que causava pânico por onde passava.

Tudo virou silêncio outra vez, exceto a musiquinha que vinha do outro lado do telefone.

Então, com um clique, até aquele som irritante parou e uma voz nasalada falou em seu ouvido:

– Alô. Ainda está aí, senhor?

– Si-sim! – O Moço respondeu, surpreso e aliviado. – Ainda estou aqui.

– Aguarde mais um momento, por favor.

Um clique e um bipe, e a música recomeçou.