sexta-feira, 14 de maio de 2010

A Máquina de Fazer Barulho (parte 1)

Numa terra distante da Torre, além da Encruzilhada dos Pinhões, existe um local onde as pessoas buscam respostas para os mais diversos problemas da vida. É comumente chamado de Templo do Conhecimento, mas na prática é muito mais que apenas um templo. O complexo de masmorras ligadas à biblioteca do lugar comporta um grande número de pessoas, possibilitando que especialistas das mais diversas áreas do conhecimento prático partilhem suas idéias com os mais jovens e leigos. Como a maioria dessas pessoas que buscam conhecimento não tem tempo para perder preparando suas próprias refeições, alguns indivíduos viram nisso uma possibilidade de lucro e montaram nos arredores alguns locais para refeições.

A vida no Templo do Conhecimento era tranqüila e enriquecedora, palco e berço de muitas idéias e teorias que mais tarde espalhariam inovações pelo mundo. Sendo como era, um local muito tolerante às surpresas e ao incomum, ninguém se alarmou muito quando surgiu uma grande máquina ao lado do Grande Salão de Refeições.

A Máquina era uma engenhoca formada por várias peças metálicas que se moviam e soltavam fumaça branca, cheia de alavancas, rodas dentadas e botões coloridos. Quem a controlava era um grupo de meia dúzia de pessoas, que às vezes variava e chegava a uma dúzia de indivíduos.

Nos primeiros dias, até que despertou alguma curiosidade. Algumas pessoas passavam e perguntavam "O que esta máquina faz?", ao que seus donos respondiam "Exatamente isto que está fazendo agora". As roldanas giravam, as alavancas subiam e desciam, os pistões eram impulsionados pelo vapor e os botões piscavam. E tudo o que a Máquina produzia era barulho. Nenhum produto útil ou sequer agradável, quem dirá belo. Apenas barulho.

Depois de algum tempo, cansadas do barulho, algumas pessoas tentaram pedir educadamente (ou não) para que os donos da Máquina a desligassem. Os donos, porém, não lhes davam ouvidos e até zombavam dos pobres desavisados, intimidando-os por estarem em maior número. Sim, maior número, pois eram poucas as pessoas que se dispunham a se indispor com eles, e nunca eram ousados o suficiente para se unirem contra os donos da Máquina. De qualquer forma, todos estavam ocupados demais para despender de alguns minutos de seu almoço em prol de tal causa.

O Bobo-da-Corte, porém, dispunha de tempo.

Depois que o rei perdeu sua coroa, não havia mais ninguém para entreter no reino, por isso partiu em busca de algo que lhe ampliasse o espírito. Buscar conhecimento lhe pareceu uma boa forma de começar.

Assim resultou que ele se encontrava a caminho do Grande Salão de Refeições quando a Máquina de Fazer Barulho foi ligada mais uma incontável vez. Curioso com a irritação resignada de todos a sua volta, o Bobo-da-Corte saiu perguntando de onde veio tal máquina, desde quando estava ali, a quem pertencia e por que ninguém fazia nada se todos a desaprovavam.

Vendo que a situação se repetia todos os dias sem que as pessoas mudassem sua postura ou que a Máquina contribuísse de qualquer forma para aquela sociedade, o Bobo-da-Corte passou a observar a engenhoca mais de perto. Não demorou para perceber que ela funcionava através de um maquinário a vapor, e era alimentada diretamente pelo rio que abastecia o Templo através de um cano longo e fino.

Se aproveitando que as pessoas que iam até o rio estavam distraídas com seus próprios afazeres, o Bobo-da-Corte pegou um dos bobos peixes que nadavam naquelas águas cristalinas e enfiou-o no tubo que alimentava a Máquina de Fazer Barulho.

Com o cano devidamente entupido, o Bobo voltou para perto do Grande Salão de Refeições, onde os donos da Máquina estavam perplexos. Eles tiravam e colocavam peças, mexiam e remexiam, apertavam e desparafusavam o que era possível, e nada daquilo fazia a Máquina funcionar. Talvez eles encontrassem o problema dali a alguns dias e a Máquina voltasse a fazer barulho. Talvez não.

Porém, internamente todos agradeciam ao Bobo-da-Corte. E o faziam em silêncio, pois silêncio era tudo que as pessoas queriam ouvir há muitos dias.