segunda-feira, 31 de maio de 2010

A Máquina que Voava

A cada três meses, no dia da última lua nova de cada estação, as crianças de toda a região se agitavam. As que viviam na Encruzilhada dos Pinhões corriam para fora das salas de aula nos últimos minutos da manhã, ignorando todo e qualquer protesto dos professores. As crianças da Vila do Vale devoravam seus almoços e desembestavam porta afora paras os jardins. No reino dos Vastos Prados do Oeste, todas as brincadeiras de corda e pião cessavam no final da tarde. E todas elas, não importa onde estivessem, abriam a boca em espanto e levantavam seus dedinhos ao céu, apontando para a enorme figura que saía detrás das nuvens ou que ameaçava tampar o sol.

Uma grande forma ogival se destacava no céu. O invólucro laranja exibia desenhos como que serpentinas nos mais variados tons de azul, e logo abaixo dele se encaixava uma caixa retangular esverdeada rodeada por janelas. Através dos vidros era possível ver um homem, um único homem, pilotando aquela grande Máquina de Voar. Seu bigode espesso, já um pouco grisalho, não era cheio o suficiente para esconder seu sorriso e as bochechas rosadas. Quando ria, sua barriga rotunda se chacoalhava e seu quepe azul caía quase todas as vezes. E que risada sonora ele tinha! Era possível ouvi-lo a diversas quadras de distância.

“É o Capitão! É o Capitão!” exclamava a primeira criança que o avistava, ou que o ouvia, e todas a acompanhavam em coro: “O Capitão veio! Ele sempre vem! Olhem, é o Capitão!”

Sempre que via uma aglomeração de crianças, o Capitão ria alto e descia sua Máquina Voadora até os telhados das casas baixas. Ele cumprimentava as crianças e soltava alguns estalinhos e fogos de artifício, e todas elas gritavam e corriam para acompanhar a Máquina Voadora até que ela subisse novamente para as nuvens, acompanhando-a com o olhar até que desaparecesse no horizonte.

Toda vez que partia, sem exceção, o Capitão se despedia com frases inspiradoras e encorajadoras. A sua favorita era: - Sonhem alto, crianças! Pois mesmo que cheguem apenas na metade do caminho, já terão ido muito longe!

Um garoto, desta vez, continuou seguindo a Máquina Voadora mais do que os outros e gritou o mais alto que pôde: - Qual é o seu sonho, Capitão?

- Nadar na Via Láctea, meu garoto. Nadar na Via Láctea! – ele respondeu, e se afastou do chão com uma gostosa risada.

As crianças se entreolharam e se perguntaram se algum dia ele conseguiria chegar até a Via Láctea naquela Máquina Voadora. As mais velhas e céticas diziam que não, que isso era impossível, e as mais novas se desanimavam. O garoto que perguntou qual era o sonho do Capitão, porém, não deixou seu coração se abalar, pois sabia que seu ídolo não deixaria que algo como o Impossível o impedisse.

Enquanto isso, o Capitão continuava a sua jornada sem nunca parar, sempre em busca do seu sonho.

Muito além do reino dos Vastos Prados do Oeste, numa terra desabitada, selvagem e bela, perto da meia-noite o Capitão encontrou um lago de águas limpas e calmas que refletia perfeitamente o céu estrelado acima de sua cabeça. Ele pousou a Máquina Voadora e ficou algum tempo admirando aquelas águas antes de se despir e mergulhar naquele espelho escuro.

O Capitão nadou de uma margem a outra, mergulhou como um golfinho e emergiu como uma baleia, espalhando água para todos os lados e rindo consigo mesmo, sozinho na escuridão da noite. Quando finalmente se cansou ficou apenas boiando no centro do lago, banhado pela luz das estrelas que piscavam lá em cima e das que dançavam a sua volta.

Com um sorriso brilhando nos olhos, ele falou baixinho, de si para si: - O céu era apenas metade do caminho. Apenas metade do caminho...