terça-feira, 25 de maio de 2010

A Matriarca

Na Encruzilhada dos Pinhões havia toda a sorte de pessoas. Aquelas já mencionadas, fofoqueiras, bisbilhoteiras e medrosas, não precisam de introdução. Todos conhecem pessoas assim. Não há nenhuma novidade aqui.

Mas há uma moradora da Encruzilhada que merece uma introdução à altura. Hoje, com seus tornozelos inchados e morenos, mãos firmes e craqueladas, e com linhas de pesar e de riso no rosto (mais destas que daquelas), ela é a mais nobre dos habitantes da Encruzilhada dos Pinhões, mesmo sem possuir título de nobreza.

De todos, ela é a mais sábia e a mais forte de espírito. Seus conselhos estão sempre à disposição daqueles que querem ouvir, mesmo que não sejam exatamente o que querem escutar. Passou por todas as intempéries da vida de cabeça erguida, mesmo quando parecia que seria derrubada pelos fortes furacões, sempre manteve uma postura altiva e firme diante dos desafios. Nunca desejou mal a uma alma sequer, mas também nunca aceitou desaforos de quem quer que fosse. Com sinceridade e determinação sempre presentes, seu olhar era capaz de afugentar os fracos de vontade e inflamar o espírito daqueles que buscavam iluminação.

Alguns dizem que em dias antigos ela ajudou a construir a Torre. Outros dizem ainda que ela conheceu pessoalmente a Senhora que lá habita. Dessas coisas, porém, a Matriarca nada fala e nada quer saber de boatos. Em vez disso, dedica seus dias a cultivar belas flores em seu jardim.

Quem for observador o suficiente, porém, notará que nas noites mais escuras ela volta seu olhar na direção da Torre, buscando o agora constante brilho de velas na janela mais alta.