domingo, 9 de maio de 2010

O Rei e o Bobo-da-Corte

A sombra sombria na janela desapareceu. Um aldeão da Vila do Vale apontou para a estranha luz bruxuleante ao longe, que ora enfraquecia e ora aumentava. Ninguém lhe deu ouvidos, não queriam ser perturbados com fatos verdadeiros e contemporâneos concernentes à Torre. Quando das lendas do passado, porém, se tornavam ávidos ouvintes e eloqüentes contadores.

De volta à sua escrivaninha, a Senhora acendeu uma nova vela no castiçal enferrujado. No tempo em que estivera fora, visitou muitos reinos e conheceu muitas pessoas. Ouviu relatos e mais relatos de vidas e fatos e acontecimentos e causos e guerras e descobertas que ultrapassavam os limites do tempo e se moldavam aos espaços. Aquelas histórias lhe enchiam a mente e ansiavam por deixá-la, parecendo querer escorrer-lhe pelas orelhas e alojar-se comodamente sobre o papel a sua frente.

Assim, provida de pena, papel e tinta, pôs-se a prover de eternidade tudo aquilo o quanto passa, pois memórias vivem apenas enquanto vivem as mentes.

* ~ * ~ *

Em uma terra distante, vivia um Rei. Sua Corte era repleta de simpatia, seu reino, o mais vasto e desenvolvido, seu castelo era um verdadeiro labirinto de salões e espelhos.

Quando o Rei acordou de um de seus cochilos, ainda sentado em seu majestoso trono, percebeu que não usava mais sua coroa. Imediatamente olhou em volta, procurando o ladrão, mas o salão estava vazio. Havia apenas a figura solitária do Bobo-da-Corte a encarar-lhe com uma expressão séria, quase nula.

- Foste tu quem roubaste minha coroa, não foste? – bradou o Rei com um dedo inquisidor a sua frente.

- Se o Rei assim o diz, quem sou eu para contradizê-lo? – replicou o Bobo, sem se alterar.

- Por que estás tão sério? Por que não fazes graça ou contas alguma piada? E onde estão todos os meus súditos?

Em resposta à perplexidade do Rei, o Bobo-da-Corte assim falou: - Estão todos de luto, pois é um dia muito triste em todo o reino: o Rei perdeu sua coroa.

E, de fato, as sombras vestiam preto.