sexta-feira, 25 de junho de 2010

O Coelho de Óculos e a Rosa

Um dia a Senhora resolver ver como estavam seus Monstros, pois passara alguns anos fora sem poder alimentá-los. Porém, como todos sabemos, alguns monstros podem sobreviver séculos sem que algum desavisado caia em suas garras e lhe sirva de lanche. Mas isso não impede que fiquem famintos. Fome, aliás, lhe é um estado constante.

A Senhora fez o que pôde para alimentá-los, mas alguns se recusaram a comer. Os mais velhos e fracos pareciam estar com os dias contados. Logo a Senhora teria que preparar um funeral digno para aqueles Monstros que por tanto tempo defenderam a Torre de Cavalheiros covardes e Aldeões grosseiros. Mesmo aceitando o fim natural de todas as coisas vivas, a Senhora se entristecia ao ver suas adoradas criações deixando este mundo.

Em seu passeio, ao passar por uma cela que julgava estar vazia, a Senhora ouviu um ruído muito baixo e ligeiro, como estalinhos. Ela parou e abriu a porta, e ouviu o som outra vez. Procurando na escuridão, ela logo encontrou uma diminuta criatura banca a um canto. Era um coelho que, curiosamente, usava um par de óculos de armação fina e dourada. Sem medo, ele pulou lentamente até a Senhora que o pegou no colo; seu pêlo era macio ao toque e brilhava sob a luz das estrelas que entrava pela estreita janela.

Aquele não era um de seus Monstros, disso a Senhora tinha certeza. Curiosa para saber de onde ele viera e como entrara na sua Torre sem ser devorado, ela tentou ler a mente do Coelho de Óculos. Porém, por mais que o encarasse fixamente, não obteve sucesso. Pelo contrário, foi a voz do próprio Coelho que soou dentro de sua mente.

Pra lá de teu nome, o que há?
Atrás de tua face, quem és?

A Senhora se espantou e tentou uma vez mais ler a mente daquela criatura fascinante. Novamente falhou, e o Coelho lhe falou mais uma vez:

Além de tua sombra, o que há?
Dentro de tua pele, quem és?

Ao realmente ouvir as palavras do Coelho, a Senhora sorriu, pois finalmente as entendeu. Levou-o então para a sala mais alta de sua Torre, onde residia.

Pegou um grande espelho oval de prata e despejou em sua superfície uma fina camada de água. Com um diamante muito afiado e fino como uma caneta talhou meia dúzia de runas na borda do espelho. A água se agitou e passou a refletir o céu estrelado que se encontrava mais além do telhado, e sua imagem estranhamente não tinha fundo, como se só o que houvesse ali fosse água infinda. Trouxe então o Coelho de Óculos e colocou-o sobre o espelho. A criatura ficou lá, sentada, até que finalmente se fundiu com a água, só restando uma imagem confusa de um coelho de água dentro da água.

A senhora pendurou o grande espelho na parede e a água permaneceu parada, ondulando de leve ao toque, mas sem escorrer. Aos poucos a imagem diluída do coelho começou a assumir as formas e cores de uma Rosa Branca. Apesar de seus espinhos estarem manchados de vermelho, aquela seria sempre a mais pura e bela de todas as flores.