sexta-feira, 4 de junho de 2010

Roda d'Água

A Senhora largou por um momento a caneta e os rolos de pergaminhos. Dirigiu-se à janela. Era noite de lua cheia, e seu olhar era capaz de enxergar a grandes distâncias.

Muito longe dali, um jovem estava sentado à beira de um rio pedregoso. O Jovem olhava para a Roda d’Água que tinha seu movimento impelido pela força da cascata que abastecia parte de sua cidade. Ele tinha os pés descalços enfiados na água gelada e uma palha pendurada no canto dos lábios. Em seu coração ele se sentia como aquela roda, e baixinho começou a cantar as palavras que brotavam em sua mente:

Roda
Roda viva
Roda d’água
Roda da vida
Tudo gira
Gira-gira
Gira pião!

Tudo roda
Efeito centrífugo
Rodopia
Tudo voa
E vai ao chão

Chão de longe
Chão chegando perto
Olho no olho
Olho por olho
Dente por dente
Impacto certo
Boca sem dentes

Tudo gira
Gira-gira
Tudo roda
Roda d’água
Roda pião!

Quando terminou de cantar, sentindo o coração mais leve, conseguiu esboçar um sorriso sincero. Em sua boca faltavam três dentes; ainda havia muitos outros.