domingo, 18 de julho de 2010

Buracos

Caminhando pelos subúrbios bem alinhados, ajeitados e muito respeitados da ex-capital de seu ex-reino, o Rei demorou-se a caminhar por aquela região. Andou, andou e andou, até que foi deixando a parte alinhada para trás, e ruas mais sinuosas, porém igualmente belas, se dobravam à sua frente. Então as casas pararam de se mostrarem tão ajeitadas, a maioria escondida aqui e ali pelo mato, e não demorou muito para que umas parecessem menos respeitosas que outras.

Pareciam estar todas vazias. Porém, na frente de uma dessas casas que mais parecia uma pequena chácara de tão afastada que se encontrava das outras, o Rei encontrou um garoto brincando no jardim. Na grama já rala havia diversos buracos, e ele viu que o menino estava muito concentrado com uma pá na mão, como que a pensar onde cavaria o próximo. Sabendo que a mãe dele não ficaria nada feliz com aquilo, o Rei se aproximou da cerca e disse:

- Oi, garoto! O que estás a fazer?

- Cavando buracos – ele respondeu. – Não é óbvio?

- Oras, é claro que é! Ou acha que tenho cara de bobo?

O garoto olhou para o Rei, para os seus calções bufantes e coloridos e a capa longa e pomposa e voltou a olhar para seus buracos sem responder. O Rei se zangou com aquela atitude.

- Tu sabes quem eu sou, rapazinho?!

- É óbvio que não.

O monarca então foi ajeitar sua coroa, mas sua mão alcançou apenas alguns fios de cabelo ralos no topo de sua cabeça. A lembrança daquele estranho dia em que perdera sua coroa o assolaram de tal maneira que, ao ser mirado por um passante do outro lado da rua, despertaria pena imediata pela sua figura esguia e curvada na calçada.

- Bem, isso não me surpreende – o Rei falou, retomando a compostura. – Eu já fui um grande monarca, quase fui imperador, dono desta região e tudo que se pode ver até o horizonte, e até tive uma coroa de ouro e pedras preciosas. Mas quando a roubaram, perdi tudo.

- Que pena.

O garoto respondeu sem dar muita atenção. Sentou-se no chão e começou a cavar mais um buraco. O Rei, ainda em devaneios do passado, continuou:

- Eu também era famoso por ser muito generoso. Se recuperar o que é meu de direito e os dias de glória voltarem, não deixarei de lembrar de meus súditos. Diga, garoto, tem algo que tu desejas? Uma casa maior para ti e tua família, brinquedos, bichos, qualquer coisa?

O garoto então olhou para cima e, depois de uma pausa, respondeu: - Parece que vai chover. Você poderia levar meus buracos para um lugar seguro para que eles não se enchessem de água?

Olhando para cima, o Rei viu apenas um céu de inverno azul-brigadeiro.