sexta-feira, 9 de julho de 2010

Os Sem-Cidade

A Encruzilhada dos Pinhões não era um mero encontro de estradas. Pode ter começado assim, mas hoje era uma grande metrópole, com muitas pessoas de chapéu e gravata a zanzar pelo centro e muita gente simples morando no seu limiar. Carroças cheias de mercadorias apostam corridas com carruagens sem conta pelas ruas. Pessoas disputam espaço com mulas-de-carga. Cachorros famintos vadeavam pelas travessas apinhadas de barraquinhas de vendedores que competem pelo grito mais alto do preço mais baixo. Talvez só a igrejinha e a prefeitura permanecessem as mesmas, pois até os tradicionais casarões das famílias mais antigas cederam seus espaços às atividades do progresso.

O Menino passava quase todo dia pela Praça Central, o lugar onde todos os caminhos da encruzilhada se encontravam. Andava apressado de um lado para o outro para não se atrasar na escola e voltava apurado de outro lado para um para não perder o jantar. Eis que um dia seus cadarços lhe pregam uma peça e o Menino nos próprios pés tropeça. Que detalhe bobo!

Ao se levantar, porém, tudo está diferente. Não há mais carroças nas ruas, não há mais gente apressada, tampouco o som dos vendedores e ofertistas. Até o ar parece se acalmar, respirando pausadamente e soprando uma leve brisa de alívio. O único sinal de vida que encontrou foi um gato que se enroscava no batente da porta do armazém por não haver uma mão gentil que o agradasse. Até mesmo na Rua das Flores (uma ramificação da encruzilhada principal), famosa por seus adornos primaveris, não havia viva alma a flanar. Pensando bem, nunca houve quem agradasse o gato do armazém além de seu dono preocupado com números, sempre com um lápis atrás da orelha, ou quem realmente se detivesse por um momento para cheirar as flores daquela rua maravilhosa.

Algo mágico e misterioso ocorria com a Encruzilhada dos Pinhões. Algo mágico e maravilhoso ocorria com o Menino enquanto ele caminhava por aquelas ruas vazias.

Não sabia dizer se era o sol de meio-dia ou se eram seus cadarços (afinal, a culpa de ter tropeçado era deles), mas a cidade lhe parecia completamente diferente. As calçadas estavam limpas e arrumadas, os paralelepípedos todos alinhados, os prédios e casarões imaculados e viçosos como no dia em que foram erguidos. As flores da Rua das Flores acabavam de desabrochar e as árvores da Praça Central exibiam aquele verde-folha claro e brilhante como se tivessem sido plantadas ontem. Era como se tudo o quanto conformava a cidade tivesse acabado de se formar diante de seus olhos. Era tudo novo, apesar de muitas coisas pertencerem a tempos e histórias diferentes. O Menino podia ver a cidade como ela realmente era, um organismo vivo e pulsante, com vida, com uma história, palco de várias histórias, de várias vidas. A Encruzilhada dos Pinhões era finalmente sua.

De repente, como uma brincadeira de cadarços, do outro lado da praça ele viu uma Menina tropeçando. Ela não estava ali um segundo atrás. A Menina olhou em volta com aquele mesmo brilho de fascínio, maravilhada com a nova velha cidade que se revelava para ela. Então avisou o Menino e sorriu. O Menino sorriu de volta e acenou, mas antes que fosse correspondido o vulto de uma mulher levantou a Menina pela mão e ambas desapareceram. Nada mais.

O Menino então se sentou no meio-fio, contemplando com um sorriso tristonho aquela cidade maravilhosa e vazia. Sabia que, assim como aquela cidade não tinha pessoas, milhares de pessoas passavam por ali todos os dias sem ter a cidade.