terça-feira, 13 de julho de 2010

Tempestade Verde

Ao norte, no limiar da Encruzilhada dos Pinhões, onde terminada a cidade estendia-se uma planície. Apenas ao longe era possível avistar alguns morros, embaçados e azulados pela distância.

Um dia, porém, algo mais foi visto além dos morros e passando por cima deles como se não representassem obstáculo algum. As pessoas que a viam deixavam os queixos caírem e coçavam a cabeça, apontando à distancia umas para as outras aquilo que todos podiam ver. Seu avanço foi lento, deu muito tempo de aviso, e quando finalmente chegou à Encruzilhada dos Pinhões, todos se esconderam em suas casas, temerosos.

Uma imensa nuvem verde de chuva pairava sobre a cidade. Sim, verde, verde-escuro, verde-chumbo. No começo ficou lá, parada, apenas transformando o dia em noite. As poucas pessoas que se arriscavam a continuar seus afazeres fora das casas e prédios se recolheram ao som do primeiro trovão como se ele fosse o prenúncio de uma catástrofe.

Ouviu-se mais um trovão, e depois outro, e logo o céu era um espetáculo de luzes e tambores que ecoavam pela nuvem verde. Não demorou muito para que viesse a chuva e, com ela, o frio. As pessoas se reuniram em suas salas, buscando o calor e aconchego dos familiares e amigos.

Assim se passou um dia. E mais outro. E outro. E a chuva não dava sinais de que iria embora. As ruas desertas e agora enlameadas formavam pequenos córregos ao longo do meio-fio que apenas aqueles que muito precisavam se aventuravam a atravessar. As janelas de todos os lugares estavam quase sempre fechadas, mas quando não havia vento era possível ver uma criança curiosa espiando por entre as venezianas. E isso era tudo que acontecia na Encruzilhada dos Pinhões.

Mais além da cidade, nos bosques que a circundavam, até os animais se recolheram em silêncio. Apenas os pássaros-da-garoa cantavam e trinavam à vontade, contentes com a vinda da chuva que há semanas não passava por aquela região. Eles voavam no meio da chuva, sem se importar com os raios e trovões, e por onde seis ou mais deles passavam em linha se formava um belo e pequeno arco-íris no formato de seu vôo. Pelo menos é o que aquelas crianças curiosas diziam.