quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A Cigana Vermelha

Os Monstros da Torre não apareciam do nada. A Senhora precisava estar sempre buscando novas magias para invocar novos bichinhos, ou até para alimentar os que já existiam. De outra forma, o encantamento que mantinha a Torre de pé se quebrava e todas aquelas criaturas ficariam sem um lar, à mercê de pessoas que não as compreendiam e, por medo do que não entendiam, as maltratariam das piores formas imagináveis.

Sem mais recursos em sua morada, a Senhora partiu em busca de uma velha conhecida. Já havia consultado-a uma vez antes, e sabia que ela possuía poderes que desconhecia. Poderia passar uma vida inteira a decifrar-lhe e, ainda assim, não seria possível conhecer toda a extensão de sua magia.

Depois de vários dias e várias noites andando, finalmente avistou um sinal daquela que buscava. No começo, não passava de um ponto brilhante e diminuto na distante escuridão, mas à medida que se aproximava o brilho crescia e a ofuscava.

Acostumando-se com a luminosidade, a Senhora parou diante de uma fogueira. Alta e bem construída, os troncos se intercalavam para sustentar uma alta torre de chamas. Aquele brilho inconstante e alaranjado consumia cada pedaço da madeira, queimando a casca e consumindo cada fibra, transformando as primeiras vítimas em brasas negras recobertas de fuligem. Qualquer pessoa diria que aquela era uma fogueira comum, mas o olhar da Senhora era mais agudo, enxergando tanto mais longe quanto mais próximo, e seus olhos estavam agora fixados no coração da fogueira.

As chamas não eram meras labaredas a consumir a madeira. Eram dançarinas, e as brasas, seu palco. Pulavam de um galho a outro com saltos delicados que faziam a madeira crepitar, rodopiando as saias avermelhadas de anáguas amarelas e agitando seus leques no alto da cabeça ou escondendo parte do rosto. Nunca olhavam diretamente para sua platéia, pois quando o faziam o fascínio podia ser tanto que algum incauto ficaria por horas e horas hipnotizado. Faziam movimentos ao mesmo tempo bruscos e graciosos, viscerais e suaves, dançando uma música sem som, contraditória e misteriosa. Aqui e ali algumas agitavam suas castanholas, fazendo a madeira estalar e soltar faíscas, seus próprios pirilampos que, à sua vontade, apareciam e desapareciam num piscar de olhos.

A Senhora deixou-se hipnotizar por estas dançarinas, pois conhecia seu poder e a magia de sua dança. Sabia também a quem obedeciam, e esperou pacientemente que acabassem sua dança. Pouco à pouco, as dançarinas foram se cansando. As que se deitavam para dormir nas brasas logo desapareciam e davam lugar a suas irmãs.

Quando a última se deitou, a Senhora ouviu o som de castanholas atrás de si. Virou-se, porém não viu nenhuma fogueira ou dançarina ousada que houvesse pulado para o mato seco. Ela mesma, então, sussurrou algumas palavras dentro de sua mão e, quando a abriu, iluminou a clareira a sua volta com uma luz branca.

Era como se visse uma das dançarinas das chamas aumentada, bem a sua frente, com a diferença que a sua pele era a de uma pessoa normal, queimada pelo sol, e não emitia nenhum brilho quente. Seus olhos, porém, eram duas brasas negras, apenas esperando o menor sopro para revelarem toda a cólera ou conforto do qual eram capazes.

- Espero que tenha apreciado o espetáculo. Soube que estava procurando algo nesta região – disse a Cigana Vermelha com um sorriso ambíguo e pestanas semi-serradas.

- Já encontrei o que precisava – disse a Senhora se curvando.

- Volte sempre - a mulher morena riu.

Um vento quente soprou, subindo e levando a imagem da Cigana embora, ainda rindo. A Senhora pegou um punhado de cinzas ainda quentes do que restava da fogueira e voltou para a sua Torre.