sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A Loja de Espelhos (parte 2)

Uma figura encapuzada entrou naquela loja sem vitrine. Sobre a porta, um sino soou à sua passagem. No interior, dúzias de espelhos refletiam de forma vaga o brilho azulado da lua, multiplicando a luz por todos os cantos da loja. A figura ajeitou a touca do manto para encobrir melhor sua face.

Logo ouviu passos morosos descendo a escada. Uma velha baixa e muito enrugada parou no último degrau soltando longas baforadas de seu cachimbo.

- Já fazem anos, minha cara – disse a velha de forma pausada, sempre terminando as frases com uma nova nuvem de fumaça. – Quantos já passaram? Vinte, trinta? Já nem me lembro e, realmente, não importa. É sempre bom rever velhos amigos. Quer dizer, na medida do possível.

A velha riu-se em silêncio do capuz desnecessariamente grande da Senhora.

- Você sabe que não gosto de ser reconhecida na cidade. Ou pelos seus espelhos.

- Há, sim! Você anda novamente com os olhos abertos, isso é muito bom. Posso presumir que esta é uma visita de negócios então?

- Certamente.

A Senhora começou a andar pela loja procurando algo que lhe interessasse. Para a maioria das pessoas, aqueles espelhos não passavam de uma combinação comum de vidro e prata, mas para ela e a Artífice de Reflexos eram muito mais do que isso. Elas podiam sentir a aura de magia emanando de cada peça, sendo cada uma confeccionada para fins diferentes. Alguns eram, de fato, espelhos comuns, mas os desavisados que entrassem ali estariam brincando com os dados da sorte e do azar. A Artífice era uma grande piadista, à sua maneira.

Ainda andando e avaliando as peças, a Senhora falou pausadamente: - Eu gostaria de fazer duas encomendas. O primeiro, um espelho quadrado de meia braça de lado. Sem encantamentos.

- Com uma borda larga e lisa, de prata mole, como o último?

- Exato. Use-o apenas recentemente, e é sempre bom ter um espelho desses de reserva. O segundo quero que seja um espelho oval, não maior que uma cabeça. E quero que use isto.

A Senhora parou de andar e entregou à velha um saquinho de veludo marrom amarrado com uma fita dourada. A Artífice o abriu e deu uma espiada no conteúdo, fechando um dos olhos e destacando ainda mais as rugas do seu rosto.

- Vejo que andou visitando a Cigana Vermelha. Tem certeza que quer um espelho tão pequeno para isso?

- Sim. Ao contrário de certas pessoas, eu sei que não é recomendável fazer espelhos tão grandes como aquele para certas finalidades. – A Senhora apontou para um espelho coberto com um véu preto semi-transparente no único canto escuro da loja. Apesar de todas as portas e janelas estarem fechadas e não haver brisa alguma no lugar, o véu balançava suavemente. – Eu mal posso acreditar que você fez esse espelho outra vez.

- O que te faz duvidar? Não sou de criar ilusões, sabe bem disso. O espelho é real. Vamos, veja mais de perto. 

A velha parou ao lado do espelho, soltando suas longas baforadas em volta dele. A Senhora não ousou sair do lugar, então ela continuou:

- Sabe, aconteceu algo muito curioso esses dias. Um homem bastante peculiar, com roupas extravagantes, toda quadriculada de preto e branco, e um chapéu que tinha não uma, mas várias pontas, entrou aqui na loja. Ele olhou, olhou e por fim esse espelho lhe chamou a atenção. Mesmo sem poder ver o que nós vemos, ele saiu correndo desse espelho como se corresse do próprio diabo. Posso até dizer que ele foi mais sábio que você, minha cara Senhora.

- Eu não tenho intenção nenhuma de ver o que este espelho reflete.

- Ah, mas você ainda tem a curiosidade. A prudência daquele homem foi capaz de suprimir completamente a vontade de olhar o espelho. Já a sua prudência se equipara com a sua curiosidade, o que não é muito sábio da sua parte. E não precisa se aborrecer com esta minha observação. Eu disse que ele foi mais sábio que você naquele momento, não que o é.

- Sim, são coisas diferentes, de fato. De qualquer forma, posso buscar minhas encomendas ma próxima lua nova?

- Certamente.

A figura encapuzada puxou o seu manto contra o corpo e saiu no frio da noite. Uma lufada invadiu a loja e levantou um pedaço do véu que cobria o espelho misterioso. A Artífice olhou diretamente para ele, mas ele não mostrava reflexo algum. Aliás, nenhum dos espelhos daquele lugar mostrava o seu reflexo. Por esse motivo eram todos dispostos a dar as costas a um canto nos fundos da loja, onde ela normalmente ficava quando algum cliente entrava.

Mas aquilo não a incomodava. Era de sua maldição que vinha o seu dom, e ela se divertia muito com aquilo.

- Os deuses pensam que suas charadas irônicas são um grande teste para os mortais. Tolos, é o que são. E tola eu seria em prender-me a um enigma sem solução. Prefiro eu criar meus próprios pequenos enigmas.

E o véu escuro que cobria o espelho continuava a balançar suavemente ao sabor de brisa alguma.