quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Loja de Espelhos (parte 1)

Diversas ruas da Encruzilhada dos Pinhões eram dedicadas aos mais diversos ramos do comércio. Móveis, roupas, alimentos crus ou preparados, brinquedos e até animais eram trocados por moedas e um pedaço do vazio dentro das pessoas, que voltava a crescer tão logo elas se cansavam das novas aquisições.

Ocorreu que o Bobo da Corte procurava uma loja de sinetes, pois uma das bolinhas tilintantes de seu chapéu havia se perdido no meio de algum caminho que ele deixara para trás. Sua busca mal passara da metade do dia quando ele se deparou com uma loja bastante curiosa.

A entrada era uma faiscante combinação de incontáveis espelhos pequenos e irregulares, dotados de molduras que pareciam ter sido feitas sob medida umas das outras para se encaixarem. A vitrine, em vez de exibir os principais produtos da loja e deixar entrever-se um curioso pedaço do interior, era em si um enorme espelho perfeitamente plano e sem emendas que refletia as lojas do outro lado da rua. Até mesmo as vidraças da porta eram espelhos, com a exceção de um pequeno retângulo ao meio que deixava ver apenas uma placa que dizia “ABERTO” e, em outras horas do dia, “FECHADO”. Acima da porta, uma outra placa, apesar de inútil, encontrava-se pendurada com os dizeres “Loja de Espelhos”.

O Bobo da Corte entrou sem cerimônias e um suave sino soou acima de sua cabeça ao fechar a porta. Todas as paredes eram forradas por um tecido escuro que servia de fundo para os mais diversos tipos de espelhos: grandes, pequenos, redondos, ovais, retangulares e recortados em formas inclassificáveis. No meio da loja, espelhos de corpo ou erguidos sobre pedestais. A luz que entrava no lugar vinha apenas de estreitas janelas próximas do teto. Apesar disso, não havia cantos escuros, pois toda a luz era refletida de um espelho para outro. Tinha-se a impressão de a luz estava esticada e diluída naquele ambiente, amarelada e envelhecida devido às molduras douradas e acobreadas dos produtos da loja. Alguns vasos de plantas magras tentavam dar um toque mais viçoso ao lugar, mas ainda assim tinha-se a estranha sensação de que o tempo estava preso naqueles fachos de luz.

De uma escada estreita, no fundo direito da loja, veio o som de lentos passos, descendo degrau por degrau. O Bobo ficou esperando, e logo uma figura baixa e muito envelhecida, com rugas bem marcadas e secas, colocou-se diante dele. Tinha uma mão atrás das costas, e na outra um cachimbo de cabo longo que soltava uma estranha fumaça amarela. (Ou seria o efeito daquela luz confusa?)

- É você a dona da loja? – perguntou o Bobo.

A velha soltou algumas baforadas no ambiente antes de responder: - Sou tão dona deste lugar quanto o dinheiro me permite ser. Se sou dona dos espelhos que aqui são vendidos, dinheiro nenhum poderia dizer. Agora, se sou eu a Artífice de Reflexos, isso eu posso ser. E sou. – A velha soltou mais uma lenta baforada de seu caximbo durante a silenciosa perplexidade do Bobo da Corte, e então acrescentou: - Algum dos espelhos lhe interessa?

O Bobo olhou em volta, muito admirado com aquela senhora e sua pequena loja. Deu alguns passos para lá e para cá, disposto a ver melhor os detalhes de alguns dos espelhos. Algo lhe dizia que alguns deles não eram meros objetos reflexivos que serviam apenas para mostrar às moças bonitas sua própria beleza. A velha senhora seguia cada um de seus passos e olhares curiosos sem mover uma única ruga, continuando a espalhar uma fumaça fina no ambiente.

A um canto encontrava-se um espelho com um véu preto meio transparente preso no topo de sua moldura. O tecido era muito leve e balançava suavemente. Curiosamente, não havia ali nenhuma janela aberta ou corrente de ar que fizesse o véu se mexer daquela maneira. Antes que pudesse tocar no tecido, a velha falou:

- Este espelho lhe interessa?

Com um arrepio a lhe percorrer a espinha, o Bobo afastou a mão do véu.

- Ainda não.

Ele se afastou do espelho e, com um aceno de cabeça pra a velha senhora, deixou aquela loja sem olhar para trás. Com sorte, seus passos errôneos e caóticos jamais voltariam a cruzar com aquele lugar, e muito menos com o espelho escondido atrás do véu.