terça-feira, 24 de agosto de 2010

A Tulipa e os Golfinhos

Era um dia ensolarado. O Pássaro da Garoa tentava dormir, mas um irritante Pássaro de Ferro fazia seu trinado metálico ecoar por todo o bosque. Tentando se afastar daquele barulho ensurdecedor, voou para a borda das árvores, onde verdejantes pastos começavam e se estendiam até o horizonte.

Ficou ali pousado nos galhos mais baixos de uma araucária, procurando o lugar mais sombreado para descansar, quando viu algo que chamou a sua atenção. Debaixo de uma árvore baixa crescia uma única flor pardacenta. Era jovem em forma e, porém, curvada, e sua cor não possuía brilho algum. Curioso, o Pássaro voou até ela e lhe perguntou:

- Por que está tão tristonha, Tulipa Parda?

- Porque não sou parda! – a flor lhe respondeu energicamente. - Tenho um enorme desejo, e a tristeza de não poder realizá-lo me rouba a cor.

- Qual o seu desejo?

- Queria ver golfinhos. Ouvi de uma caturrita que os golfinhos são criaturas que pulam na água e estão sempre rindo, são graciosos quando nadam e muito inteligentes. Mas ela também me disse que o mar fica muito longe daqui e que eu nunca poderia ver um golfinho. Nunca poderei ver essas criaturas maravilhosas.

- Ora, e o que as caturritas sabem?! Só repetem o que os outros lhe dizem, são piores que papagaios! Duvido até que ela tenha visto um golfinho em toda a sua vida. Se você quer ver golfinhos, golfinhos verá! Me espere aqui por alguns dias e eu te levarei até eles.

O Pássaro da Garoa levantou vôo e sumiu dentro da floresta. A Tulipa soltou um suspiro resignado e murmurou: - Não tenho escolha mesmo...

Os dias se passavam, e nada do Pássaro da Garoa voltar. A Tulipa nunca tivera esperanças de que um dia seu desejo se realizaria, mas algo mudou depois da visita daquela ave. Ela sentiu um calorzinho aquecer suas pétalas, um brilho interior que todo dia crescia um pouco. Sua postura logo melhorou e ela se tornou altiva, apesar de continuar pardacenta.

Eis que, numa manhã de garoa fina, o Pássaro da Garoa retornou, e em seu bico trazia muito barbante. Ele começou a cavar a terra úmida em volta da Tulipa, que imediatamente se desesperou. Ele a acamou, e disse que aquilo era necessário para ver os golfinhos. Apesar de aterrorizada e desconfiada, a Tulipa continuou apenas observando o trabalho árduo do pássaro, que fazia tudo aquilo sem ao menos conhecê-la.

Depois de cavar um aro bem fundo e largo em volta da flor, o Pássaro da Garoa pegou o barbante e fez uma série de nós com ele, se enroscando diversas vezes, mas por fim conseguiu formar uma bela rede. Então, já arfando, voltou-se para a Tulipa e prendeu suas garras num torrão de terra preso pela grama à base da flor. Com cuidado e muita dificuldade, conseguiu desprender a Tulipa do chão e colocar o seu torrão de terra sobre a rede de barbante. Juntando com as patas as pontas da rede, ele levantou vôo diretamente para o leste.

Sobrevoaram o bosque, onde araucárias despontavam acima das copas das outras árvores. Voaram baixo sobre a Encruzilhada dos Pinhões, onde as pessoas estavam recolhidas por causa do tempo úmido. Subiram até as nuvens ao atingirem a linha de morros que separava aquela cidade do mar. Por cima da serra sobrevoaram as nuvens, onde o sol brilhava. O Pássaro ignorava todo o seu cansaço, e a Tulipa quase não conseguia acreditar na incrível jornada que estava fazendo.

Descendo a serra, as nuvens haviam desaparecido, e tudo que a Tulipa podia ver na distância era o mar. Nada no horizonte além do azul do céu e o azul do oceano enchendo seus olhos. Abaixo dela ainda havia uma grande distância a ser percorrida antes de atingir a borda da terra, mas a Tulipa nem se preocupava com aquilo. O mar e o céu enchiam seus olhos e coração, e o sol brilhante tingia suas pétalas novamente de vermelho.

- Veja, veja! – o Pássaro falou, empolgado. – Lá longe! São os golfinhos! Pode vê-los pulando? São tantos!

- Sim, golfinhos...

Pequenas figuras cinzentas saltavam e caiam entre a praia e o horizonte, nadando contra o tapete de ondas. Daquela distância, os golfinhos pareciam tão pequenos se comparados à imensidão azul do seu lar. E era exatamente aquilo que a Tulipa percebia agora: seus golfinhos não passavam de pequenas figuras no oceano.