sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Faísca

Estantes sete vezes maiores que ela mesma. Uma fileira delas. Duas, três. Mais do que ela conseguia contar – o que não era muito, vejam bem. Eram dúzias de fileiras de estantes enormes que quase tocavam o teto. Cada uma delas era repleta de caixinhas compridas e coloridas dispostas na vertical. Diziam que havia um mistério dentro de cada uma delas.

As estantes tinham seis vezes o seu tamanho. Só então prestou atenção nos sinais engraçados gravados nas laterais daquelas caixinhas. Esperou até que não tivesse ninguém por perto e arriscou tirar uma daquelas caixinhas da estante mais próxima. Para a sua surpresa, a caixa só tinha três lados – aquele fino e comprido que ela via e os dois lados maiores. Dentro havia muitas e muitas folhas de papel, e todas elas estavam cheias daqueles símbolos estranhos arrumados em linha como as estantes e agrupados em pequenas quantidades. Para a Menina, aqueles símbolos continuavam sendo um mistério.

As estantes tinham agora apenas cinco vezes o seu tamanho. A Menina andou confiante entre aqueles penhascos de madeira entalhada e encarou de frente uma de suas cavernas repleta de caixas. Agora aqueles símbolos todos faziam algum sentido. Na lateral de uma das caixas ela leu “Faísca”. Folheou as páginas. Não eram muitas, mas perfeitas para começar.

Segurando firmemente a caixa em seus bracinhos finos, a Menina saiu correndo da biblioteca. Correu por muito tempo, tanto que – ainda - não conseguia contar os minutos. Correu até chegar num dos bosques que circundavam a Encruzilhada dos Pinhões. Sentou-se à sombra de um chorão próximo a um riacho e abriu aquela caixinha mágica chamada Faísca.

As horas passaram. Horas se tornaram dias. Dias se tornaram semanas, meses, anos. E toda vez que entrava na biblioteca, a Menina saía de lá com uma nova Faísca que a levava para os mais diversos cantos do mundo sem precisar sair de debaixo da sua árvore.