sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A Loja de Espelhos (parte 3)

A Artífice de Reflexos relaxava numa cadeira de balanço nos fundos da loja. Uma fumaça pretensiosa e densa saia de seu cachimbo e se alastrava pelo ar, enevoando os espelhos. Era um dia nublado, pouca luz entrava pelas janelas estreitas. A velha se balançava lentamente, observando sua última criação com um olhar pensativo.

- É engraçado como algo tão natural e inevitável desperta tanta polêmica e mistério. Tantos sentimentos conflitantes: calma, medo, curiosidade, raiva, anseio, repulsa. Como algo tão simples e objetivo pode ser tão incerto e indefinível?

Puxou uma longa tragada de seu cachimbo, soltando a fumaça vagarosamente. O espelho ao qual se referia estava coberto por um véu negro muito leve, quase transparente. Apesar de não poder ver seu próprio reflexo em qualquer espelho que fosse, a Artífice sabia que um dia viria em que ela seria confrontada com a realidade contida naquela superfície. Afinal, todo reflexo encerra em si uma parte da realidade tão verdadeira quanto o todo.

O pequeno sino acima da porta soltou seu tradicional barulho ressoante, interrompendo os devaneios da Artífice. Uma figura bastante peculiar entrou, fazendo os espelhos da loja explodirem em cores vibrantes ao refletir seus calções bufantes, casaco de veludo com babados de seda e as fivelas faiscantes dos sapatos envernizados. Apesar da pompa ao andar, seu longo manto estava bastante sujo e rasgado, indicando árduas e longas viagens. Não passava de um andarilho extravagante.

- Boa tarde, minha senhora! – o Rei exclamou ao ver a velha nos fundos, dirigindo-se a ela. – Você tem uma loja bastante adorável! – Então, olhando em volta, acrescentou: - Um tanto escura, mas encantadora!

A Artífice duvidou daqueles elogios, então respondeu: - Obrigada. Você também.

Como esperado, o Rei lhe deu as costas sem nem ao menos se dar ao trabalho de responder ou sequer de ouvir, apenas pôs-se a zanzar por entre os espelhos mais preocupado em analisar as molduras.

- São realmente obras de arte! Do lado de fora pensei “Ah, mas que loja peculiar! Deve ter dado muito trabalho fazer esta fachada, será que por dentro é igualmente interessante?” E devo admitir que não me arrependi nem um pouco de entrar!

- Aham.

A Artífice continuava fumando lentamente seu cachimbo enquanto o Rei continava falando e via as molduras com as mãos. Só parava para ver seu reflexo quando se virava e encontrava um espelho diretamente em seu caminho, e logo desviava o olhar para as bordas. Não demorou para que se deparasse com o espelho coberto pelo véu. Sua moldura era feita de um metal cinza-escuro e cobre. De alguma forma a luz se perdia naquela moldura fosca, quase nada era refletido pelo metal retorcido. O Rei ficou fascinado pela nobreza daquele espelho.

- Esta peça é certamente uma obra-prima! – exclamou. Coincidentemente, e apenas coincidentemente, ele não estava errado.

- A Artífice levantou da cadeira e, andando até ele, perguntou: - Este espelho lhe interessa?

- E como! Olhe estas cores, estas curvas, estes detalhes! E que toque intrigante este tecido... – o Rei estava prestes a tocar no véu escuro quando uma mão ligeira e enrugada se interpôs entre os dois.

- Deixe que eu puxo o véu para você.

A Artífice alcançou um cordão prateado atrás do espelho e o puxou. O véu se abriu no meioo como as cortinas de um teatro e o Rei deixou o queixo cair. Dando uns poucos passos para trás, a velha ficou observando o reflexo no espelho de viés.

- Isto é magia? É o salão do meu castelo que vejo! E aquela é a minha...

As sombras que formavam a corte do palácio começaram a assumir formas sólidas. Pessoas e mais pessoas surgiam diante dos olhos do Rei, embora não houvesse mais ninguém na loja além dele e da Artífice. Homens com roupas semelhantes às dele e mulheres em vestidos com tantas camadas de tecido que mais pareciam bolos, e jóias faiscantes nos pulsos, pescoços e lapelas de todos. Alguns o Reio conhecia, outros ainda não.

Então, o susto! A imagem do Rei dava as costas para todas aquelas pessoas e, rápido como o quebrar de um graveto, foi apunhalado por um dos nobres do salão. Outros vieram depois dele, esfaqueando o reflexo de seu corpo que caía lenta e dolorosamente até o chão, sem emitir som algum.

- Que bruxaria é essa?! – o Rei exclamou, afastando-se do espelho, mas mantendo os olhos fixos naquela imagem muda.

Enquanto ele gritava outros impropérios, a Artífice notou que outro espelho o refletia, mas não era a imagem do Rei que ele mostrava. Curiosamente, era a imagem do homem que entrara na loja alguns dias antes, com roupa preto e branca e chapéu de várias pontas. Sua fisionomia estava cabisbaixa, quase triste, e ele olhava para o reflexo do Rei no Espelho da Morte.

Assustado e zangado, o Rei saiu correndo da loja, chamando a Artífice de “bruxa maligna”. Ela não se importou. Mesmo que tivesse explicado ao Rei o que era aquele espelho, ele não teria lhe dado ouvidos e ficaria ainda mais curioso para ver seu reflexo ali. O que a intrigava era a conexão entre aquelas duas pessoas tão distintas.

- É engraçado que alguém tão tolo e alguém tão sábio tenham uma ligação tão profunda e, mesmo assim, vivam se desencontrando. Este mundo é realmente um lugarzinho engraçado.