segunda-feira, 13 de setembro de 2010

"Shuei"

A Cidade era o Rio.

A correnteza a atravessava de uma ponta a outra, murmurando sobre as pedras e rindo-se nas quedas d’água. Em alguns trechos, havia sido canalizado. Ali, aquietava-se, morria um pouquinho: a correnteza, a cidade. Depois, da boca do cano, corria rápido por entre salgueiros, samambaias e taquaras, se escondendo do resto da cidade nos pequenos vales. Escondia a si e outras surpresas: animais sedentos e crianças festeiras que, de vez em quando, se encontravam, congelavam no tempo um suspiro e então corriam um do olhar do outro. Tudo isso escorria e se esparramava num banhado que esperava pacientemente na boca do rio pela chegada das águas novas. Além dele, o mar.

A Cidade era o Mar.

Se estendendo para o norte, uma fita de areias brancas era encharcada todos os dias pela maré alta e salgada. Para o sul, seixo e cascalho formavam as bases instáveis de um porto que crescia, crescia e tragava as águas. As andorinhas e quero-queros que ali viviam agora fugiam assustadas do vapor quente e fumaça que saia dos navios e maquinários do cais. Suas silhuetas eram visíveis apenas na distância azul. Lá, na distância, ondas gritavam e se espiralavam em borrifos de espuma branca na base dos rochedos. Na distância, descansava o infinito. Na distância, a distância. Na distância, o cinza-chumbo crescia.

A Cidade era a Chuva.

Às vezes, chegava furiosa com os ventos marinhos, berrando raios na praia e ameaçando tufões. Pesada, grossa, cegante, devastadora. Em sua fúria, virava embarcações e arrastava cardumes para longe. Caía sobre a cidade sem piedade alguma. Outras vezes, vinha de mansinho das montanhas, como um pranto. Caía sem parar sobre a cidade, dias e dias seguidos. E depois, quando terminava de chorar, o cinza frio das nuvens permanecia no céu. Como uma foto preto e branca em cima da lareira. Como uma memória, uma lembrança de sua passagem. Mais raro e incrível eram as águas do sol. Chegava sem aviso, sem direção. Caía sobre a cidade de repente, pesada como um sermão, porém refrescante como sorvete. Quando vai embora deixa saudades e um sentimento bom de alma lavada. E, sempre que sai de cena, entra o sol. Mas este pouco sabe sobre a Cidade.

* ~ * ~ *

No ponto onde as águas do Rio encontram a Cidade pela primeira vez, uma moça estava sentada sobre uma pedra redonda, observando. Ali do alto ela podia ver todas as casas e edificações se estenderem até o Mar, de onde soprava um característico vento de Chuva.

Sem descanso, a Moça se punha a observar...

* ~ * ~ *

Um Viajante seguia pela estrada do oeste em direção à Cidade. Não sabia onde estava, só sabia que precisava andar. Para onde, não importava. Desde que saíra do conforto da sua sala de estar, só encontrara maravilhas mundo afora. Não procurava nada, não buscava nada. Apenas conhecia e se encantava.

Quando conseguiu mais uma vez enxergar os contornos de uma cidade no horizonte, encontrou mais um algo que não procurava. Encarrapitada no topo de uma pedra limosa com os braços em volta dos joelhos, uma bela jovem de longos cabelos azuis como o céu... - não, azuis como o mar... não outra vez... talvez... azuis como... como... - bah, simples e puramente azuis. Seu olhar se fixava na Cidade adiante com uma concentração calma e inabalável.

- Bom dia, Moça do Cabelo Azul! Está um belo dia para uma caminhada, não?

- Sim, está – ela disse suavemente, mas sem tirar os olhos da Cidade. – Mas logo vai chover.

- Que bom que encontrei logo este lugar, de outra forma ia me molhar bastante. Venha, é melhor sair desta pedra se também não quer se molhar.

- Sairei num instante. Moro perto daqui, ainda posso ficar mais um pouco.

- Está bem então.

O Viajante continuou andando, mas parou outra vez depois de poucos passos.

- Diga-me, você fica todo dia em cima dessa pedra?

- Não todo dia, mas amiúde. Gosto de observar a Cidade. Daqui se tem uma boa vista.

- Sim, é verdade – o Viajante colocou uma mão sobre os olhos para poder ver melhor os contornos de civilização no vale lá embaixo limitado pelos contornos que o oceano desenhava na terra. – Já visitei muitos lugares, e esta é uma das paisagens mais belas que já vi. Qual o nome desta Cidade?

- Ela tem muitos nomes. Todo viajante, como você, a chama de algo diferente: Dwr, Ilma, Tsqali, Pānī, Neró, Vody, Ur, Maji, Su, Dlo, Wasser, Mul, Ujit, Vesi, Uisce, Vatten. Os habitantes, porém, a chamam simplesmente de Aqua.

- Impressionante! Muitas pessoas do mundo inteiro devem passar por aqui.

- Pode até se dizer que a Cidade passa por muitas pessoas do mundo inteiro.

O Viajante quedou-se por uns instantes tentando absorver todo o significado das palavras da Moça de Cabelo Azul. Seu peito se enchia com o silêncio daquele momento, solene e vagaroso. Havia algo de muito especial naquela jovem sentada sobre a pedra. Sentia que podia passar horas conversando sobre o mundo com ela – mas a Chuva se aproximava e ele precisava encontrar abrigo logo.

- Poderia me dizer o seu nome, bela Moça do Cabelo Azul? Algo me diz que ainda temos muito o quê conversar, mas por hoje nosso tempo é curto. Gostaria de encontrá-la novamente.

- Haverá bastante tempo para conversarmos – ela disse, amavelmente. Depois de uma pausa pensativa, acrescentou: - Você pode me chamar de “Shuei”.

- Está bem, Shuei! Voltarei logo para conversarmos mais!

Dizendo isso, o Viajante seguiu seu caminho em direção à cidade com passos apressados. Podia ver a Chuva chegando no litoral; não demoraria muito para atravessar a cidade e encontrá-lo ali no campo aberto.

Porém, alguma coisa em sua mente não descansava. Muitas das palavras que davam nome àquela cidade lhe pareciam familiar, vindas dos vários países que visitara. Tinha a mesma sensação com o nome da Moça.

Um trovão ecoou sobre a Cidade. Ao longe, ouvia o rugido do Mar em fúria. A Chuva o alcançou, fria e indiferente. Não... não era indiferente. Graças a ela, podia enxergar claramente agora. Seu olhar voltou pelo Rio até a pedra redonda onde encontrara a Moça de Cabelo Azul. Mesmo daquela distância podia ver que agora o lugar estava vazio.

Com um sorriso no rosto encharcado, acenou para o nada e disse: - Até logo, Shuei! Sempre que quiser conversar, estarei aqui para ouvi-la.

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Nota da Autora:

Só para esclarecer, os vários nomes da Cidade significam “água” em outras línguas. Para aquelas que possuem caracteres muito diferentes do português eu utilizei a escrita fonética mais aproximada.
Shuei: chinês. Aqua: latim.
Dwr: galês. Ilma: maltês. Tsqali: georgiano. Pānī: híndi. Neró: grego. Vody: russo. Ur: basco. Maji: suaíle. Su: turco. Dlo: crioulo haitiano. Wasser: alemão. Mul: coreano. Ujit: albanês. Vesi: finlandês. Uisce: irlandês. Vatten: sueco.