domingo, 31 de outubro de 2010

Fantasmas

Numa tarde de terça-feira, a Menina cochichou para o Menino na saída da escola: “Me encontre no Marco Zero da cidade à meia-noite. Tenho um segredo pra te mostrar. Venha sozinho.

O começo da noite passou devagar entre um jantar ansioso e deveres de taca tediosos. Os pais do Menino o colocaram para dormir, mas ele não fechou os olhos até ouvi-los irem para seu próprio quarto. Esperou até que o som de conversa parasse e saiu da cama. Vestiu-se e esperou ainda mais meia hora antes de sair de casa, e ainda assim estava adiantado. Queria muito saber qual era o segredo.

As ruas estavam vazias. O único som que se ouvia era o de cães e gatos virando latas de lixo e o vento silvando por entre os prédios e poucas árvores do centro. O Menino puxou a gola de seu casaco para perto das orelhas e continuou andando rápido, um tanto apreensivo pela hora avançada, mas com a curiosidade iluminando o caminho a sua frente.

O Marco Zero da Encruzilhada dos Pinhões era um enorme pinheiro plantado do outro lado da praça em frente à Igreja. Seus galhos faziam uma sombra de pelo menos dez metros para todos os lados e era preciso três adultos para abraçar seu tronco. Ao lado dele havia uma placa em homenagem ao fundador da cidade e plantador daquele pinheiro. Ao lado da placa estava a Menina, esperando-o.

- Não falou pra ninguém que estava vindo, falou? – ela perguntou, baixinho como se as corujas pudessem ouvi-los e delatá-los.

- É claro que não! Vim como prometi, sozinho. Agora quero saber que segredo é esse?

- Fique aqui do meu lado e olhe para a praça. Logos eles aparecerão. É uma noite ventosa, com certeza vão aparecer.

- Eles quem?

- Fale mais baixo! Espere que você vai ver.

O Menino fez o que ela pediu. Esperou mais alguns minutos e o sino da Igreja anunciou o exato momento em que um dia terminava e outro começava. Um evento comum em outros dias, mas naquele momento o Menino sentiu um calafrio percorrer toda a sua espinha. O vento parecia mais gelado, agitando os papéis de bala e panfletos espalhados pelo chão da praça. Foi então que ele viu!

Diversas formas esbranquiçadas erguendo-se na praça parecendo balões com perninhas. Em alguns ele achava que via rostos bem definidos, em outros apenas algumas sombras disformes, mas estavam realmente lá: fantasmas andando na praça, se encontrando e cumprimentando com um aceno de cabeças-balão, dançando em volta das árvores e lixeiras e descansando brevemente nos bancos.

Ao fim de uma hora, tudo o que sobrou na praça eram os papéis de bala, panfletos, sacolas de plástico jogadas no chão e duas crianças com estrelas nos olhos aos pés de uma araucária centenária.

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Nota da Autora:

A minha inspiração para este conto foi uma tirinha de Liniers que vi alguns meses atrás:


Para mais tirinha deste mestre dos desenhos com alma, visitem o seu site: