terça-feira, 19 de outubro de 2010

A Máquina de Fazer Fumaça

O Viajante passou vários dias em Aqua. Eventualmente chegou o momento em que seu coração ficou inquieto novamente. Ele levantou bem cedo numa manhã chuvosa e se despediu de Shuei. Buscando novos horizontes, rumou para a Estação daquela cidade.

- Eu quero uma passagem! – anunciou, ainda encharcado, no primeiro guichê de atendimento que encontrou.

- Qual o destino? – o atendente perguntou com uma paciência que parecia ser eterna.

- Qualquer lugar, não importa. Quero entrar no primeiro trem que sair desta Estação!

- O primeiro trem para “Qualquer Lugar” parte depois da chuva.

- E que horas é isso?

- Depois da chuva é depois da chuva, oras bolas!

Com bolas e horas de sobra, o Viajante sentou impacientemente num dos desconfortáveis bancos da Estação. Não que fossem realmente desconfortáveis, mas era assim que estavam no momento. Ele cruzou as pernas, descruzou, cruzou novamente, deitou e olhou para o teto, levantou-se. Cansado de toda aquela espera, foi até a janela e falou alto:

- Por que essa chuva não para nunca? Já é quase hora do almoço.

Quase no mesmo instante a chuva diminuiu subitamente para uma garoa fina. Um som pesado de rodas crescia cada vez mais do lado de fora da Estação, e o Viajante saiu para ver o que era.

Uma enorme locomotiva de ferro acobreado vinha chegando pelos trilhos arrastando uma série de vagões atrás de si. Uma nuvem de fumaça escura subia de sua chaminé e se acumulada sobre a locomotiva à medida que ela parava. Em letras azul-marinho bem trabalhadas via-se seu nome na lateral: Máquina de Fazer Fumaça. Apesar de a casca parecer um tanto maltratada pelo tempo, via-se que foi construída para ser um transporte de luxo, com suas ferragens dourado-escudo e os vagões pintados de azul-marinho, preto e dourado.

A enorme máquina parou na Estação com um ruidoso chiado, acomodando-se nos trilhos como quem volta para casa depois de um longo dia de trabalho, mantendo a fronte erguida e nobre mesmo no seu momento de descanso. O Viajante ficou ainda mais empolgado por poder viajar em uma máquina deste porte e pulou para dentro do primeiro vagão, quase esquecendo de voltar para pegar sua mala.

De dentro de uma das confortáveis e luxuosas cabines da Máquina de Fazer Fumaça ele pôs-se a observar a chuva fina que agora cobria toda a cidade. Era apenas ela parar que...

Mal pensou isso, a chuva parou. O apito do Maquinista soou, seguido de seu grito para chamar os passageiros. Não havia mais ninguém naquela estação esperando para embarcar naquele trem. Depois de mais um silvo, a Máquina voltou a soltar fumaça escura de sua chaminé. Muita fumaça branca saia de seus ventas também, envolvendo a locomotiva enquanto ela saia lentamente da Estação.

A Máquina de Fazer Fumaça alcançou rapidamente o campo. Depois de horas, entrou e saiu de matas e florestas, margeando bosques e atravessando túneis. A viagem seguiu sem paradas por um, dois, três, cinco dias. O Viajante não fazia idéia de até onde aquela locomotiva o levaria, então resolveu visitar a cabine do Maquinista na manhã do sexto dia.

- Para onde estamos indo, meu senhor? – o Viajante gritou, ou de outra forma não seria ouvido pelo velho homem à sua frente que parecia dedicar uma atenção espantosa aos diversos ponteiros, alavancas, luzes e botões a sua frente.

- Para Qualquer Lugar, meu rapaz – o velho respondeu virando-se com um sorriso amigável.

- E onde fica isso? Quando chegaremos?

O Maquinista pareceu ficar surpreso com as perguntas.

- Não era você que queria ir para Qualquer Lugar? Chegaremos aonde você quiser, quando você quiser. Mas não seja muito indeciso, todos estes anos tive orgulho da minha pontualidade e pretendo continuar com o bom trabalho.

O Viajante sorriu largamente em resposta.

Então, voltando para o seu confortável assento em sua cabine, reclinou-se com os braços atrás da cabeça e pôs-se a observar despreocupadamente as belas paisagens do lado de fora.