quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Corrida

A Menina passeava com seu Avô pelo parque. Era um dia quente, o que deixava o parque cheio de crianças a empinar pipas e cachorros pulando na água e correndo atrás uns dos outros; mães orgulhosas passeavam com seus carrinhos de bebês e jovens andavam em bando ou se aglomerava debaixo de alguma sombra para fazer música.

Como em todos os dias quentes como aquele, a Menina e o Avô pararam para comprar sorvete. Entre algumas histórias sobre o tempo que o velho passara na guerra e as pequenas batalhas da jovem menina com seus colegas de escola, os sorvetes acabaram. E o calor continuou. Com um sorriso espertalhão, o velho falou:

- Eu aposto outro sorvete que você não consegue ganhar de mim numa corrida daqui até aquela árvore perto da lata de lixo.

- Vovô, você está louco?!

- Muito provavelmente. Mas o que isso tem a ver com a corrida?

- Você não pode correr até lá na sua idade! E a sua artrite? E seus ossos fracos? Você pode se machucar feio fazendo uma coisa dessas.

- Ora, não seja boba! Correr é a minha vida, sempre fiz isso. Se parar agora, eu morro. Veja!

E, antes que a Menina pudesse soltar mais algum protesto, seu Avô saiu em disparada na direção da árvore que apontara. Suas pernas magras eram mais ágeis do que pareciam, seu corpo frágil parecia planar sobre a grama sem que seus pés mal a tocassem. Seu Avô não estava mentindo, ele era um bom corredor.

Foi então que a Menina viu. Como se o mundo de repente ficassem em câmera lenta, silencioso e pálido, uma sombra negra se esgueirava atrás de seu Avô. Uma mão ossuda tentou alcançá-lo, mas não conseguiu acompanhar o velho em sua corrida. Então tudo voltou ao normal: as cores, os sons e a velocidade. Seu Avô alcançou a árvore. De lá, ele gritou para ela:

- Eu não disse? Agora o sorvete é por sua conta!

* ~ * ~ *

Em sua Torre fria e escura, a Senhora acordou com um grito, assustada. Suor frio escorria de sua testa enquanto ela agarrava os lençóis em busca de segurança. Com a respiração curta e pesada, seu coração palpitava como os tambores que anunciam... algo.

Com os olhos fixos no teto, ela murmurou: - Preciso começar a correr.