sábado, 13 de novembro de 2010

O Cavaleiro da Armadura de Pedra

Muitos monstros que não haviam sido criados ou aceitos pela Senhora adentraram a Torre na sua ausência. Eles cresceram e se alimentaram dos outros monstros mais dóceis que já viviam lá. Alguns, ainda, seguiram a Senhora durante o seu retorno, aproveitando que ela não tinha energia para mandá-los embora.

Depois de meses se recuperando da sua viagem debilitante, a Senhora decidiu que era hora de expulsar de vez os monstros que não lhe pertenciam. Quase todos eram persistentes e foi a duras penas que conseguiram ser retirados da Torre. Uma minoria estava lá simplesmente porque não haviam sido percebidos antes, e com uma vassourada foi fácil expulsá-los. Havia alguns, porém, que haviam chegado lá sorrateiramente e se instalado nos calabouços mais profundos. Suas intenções eram puramente destrutivas, seus olhos vermelhos e brilhantes no escuro como velas, suas narinas se abriam e fechavam à procura de algo que pudessem tocar com sua maldade. Com os anos eles cresceram até não poderem mais passar pelas portas, e com a volta da Senhora começaram a se preparar para a batalha que, certamente, viria.

E o dia chegou.

Imbuída de suas melhores armas e magias, a Senhora adentrou os calabouços para enfrentar os Monstros Atrozes. Eles eram mais numerosos do que ela esperava, e haviam atingido proporções tão gigantescas que ela temia não ser capaz de expulsá-los jamais. Várias batalhas ela perdeu contra os Monstros Atrozes e, por mais que tentasse, seu número parecia não diminuir. E era quando ela estava exausta de combatê-los que os monstros recuperavam suas forças e cresciam mais e mais. Porém, quando a inspiração e a coragem apareciam, a Senhora descia às masmorras mais uma e outra vez para enfrentá-los.

Um dia, quando pensava que perderia novamente a batalha, ouviu passos pesados descendo rapidamente as escadas da masmorra. Antes que se desse conta, uma lâmina de aço cortou a garganta do Monstro Atroz a sua frente e decepou a garra de mais outro. Por um instante, os outros Monstros recuaram assustados do Cavaleiro que matara tão facilmente seus semelhantes. Sua armadura era feita de grossas placas de pedra mesclada de branco e dourado, e em todas as bordas haviam Runas entalhadas profundamente. Seu elmo cobria quase todo o rosto, deixando aparecer através de pequenas frestas apenas os olhos verdes que brilhavam com determinação e coragem. Ele se colocou entre a Senhora e o restante dos Monstros Atrozes que, depois de algum tempo encarando-o, bateram em retirada para seus covis escuros.

- Eles voltarão – a Senhora falou, exausta da batalha, mas mantendo uma postura altiva. Afinal, estava diante de um intruso.

- Eu sei – respondeu o intruso, virando-se para ela. – Estarei aqui quando precisar expulsá-los novamente.

- Agradeço a ajuda, mas como foi que entrou em minha Torre? Não lembro de ter dado tal permissão a nenhum Cavaleiro.

O Cavaleiro da Armadura de Pedra se ajoelhou e, humildemente, respondeu: - Sinto muito pela intrusão, ó Senhora da Torre. Vi algumas Runas iguais às que carrego e julguei haverem semelhantes meus aqui. Procurando por outras pessoas, ouvi o som de batalha e ergui minha espada em defesa daqueles que precisavam. Minha intenção nunca foi invadir e, com sua permissão, peço que me deixe ficar na Torre.

- Antes, me responda isto: foi você que gravou as Runas na Rocha?

- Sim. Tirei uma parte dela para fazer minha armadura e em troca gravei nela as Runas dos meus deuses. Aliás, as mesmas que vi gravadas na base desta Torre, por isso julgo ser este um lugar digno e abençoado.

A Senhora ponderou sobre as palavras do forasteiro por alguns instantes. Com os portões sempre trancados, apenas aquelas Runas teriam permitido a entrada do Cavaleiro, ou de qualquer outra pessoa que as carregasse consigo. E ele havia matado um Monstro Atroz com extrema facilidade, sem a menor hesitação. Com isso em mente, ela respondeu: - Está bem, você tem permissão para residir na Torre. Porém, existem condições: você tem que ser aceito pelos meus Monstros. E, mesmo que consiga passar por eles sem maiores dificuldades, você não poderá acessar em hipótese alguma o quarto mais alto desta Torre.

- E quanto aos Monstros Atrozes?

- Admito que preciso de ajuda, mas eles estão aqui por conseqüência das minhas ações passadas. Vou consultá-lo sobre a melhor forma de combatê-los, mas não é justo pedir ajuda neste caso.

- A Senhora vai ter que me desculpar, mas isso é a coisa mais idiota que eu já ouvi de uma dama. – Se o rosto da Senhora não estivesse encoberto pelo capuz de seu manto, o Cavaleiro teria visto que ela enrubescera diante daquelas palavras tão francas. – Eu não estaria fazendo jus à minha armadura se não a ajudasse a se livrar destas pragas, queira você ou não. E quanto às outras condições, aceito-as justamente.

- Muito bem, faça como preferir. E boa sorte durante sua estadia.

A Senhora voltou para o seu quarto e permaneceu lá por algumas semanas. Até os Cavaleiros mais persistentes não duravam tanto tempo nas garras de seus Monstros; ou fugiam ou eram mortos sem piedade. Quando decidiu ver o que havia acontecido com o Cavaleiro da Armadura de Pedra, porém, teve uma surpresa. Não só ele circulava livremente pela Torre como também não havia se utilizado de força bruta para conquistar seus Monstros. Aos poucos o Cavaleiro havia lhes conquistado a confiança e amizade, e ainda mataram alguns Monstros Atrozes sem que ela houvesse percebido coisa alguma. A Torre estava finalmente voltando à paz de antigamente.

Naquela noite, a Senhora encontrou o Cavaleiro numa das várias sacadas que se projetavam do corpo da Torre, observando as estrelas. Pousando suavemente a mão sobre o ombro da armadura de pedra, ela disse em um tom aliviado: - Obrigada.