segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Totens

A Senhora estava deitada na sua confortável cama de dossel alto e colchão de penas. Os véus balançavam suavemente com o vento que entrava pelas janelas semi-abertas. Sua respiração era lenta e compassada. Apesar da noite escura e sem estrelas, seus sonhos eram coloridos e vívidos.

A Senhora estava sentada no largo peitoril da janela. Sua visão ia além do alcance das águias, chegando aos quatro cantos do mundo. Ela podia ver todos os lugares que visitara durante os anos que passara fora da Torre. Sua mente estava cheia de cenas do passado.

A Senhora estava de pé sobre antigos blocos de pedra escura, cercada pelo oceano. O cheiro de água salgada e limo enchia suas narinas. À sua volta, perfeitamente alinhados como peças de um tabuleiro de xadrez esperando os jogadores, erguiam-se incontáveis colunas de pedra com quase três metros de altura.

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Cada uma dessas colunas era composta por várias pedras empilhadas, em geral cilíndricas e entalhadas nas mais variadas formas e tamanhos. Algumas possuíam extensões que se esticavam para fora do cilindro de base, como asas, bicos ou qualquer outra figura indefinida. Boa parte parecia representar rostos ou coisas vivas, outras eram perfeitamente simétricas e geométricas, e outras ainda eram completamente caóticas. Invariavelmente, a pedra do topo era sempre um rosto e havia certa semelhança entre as pedras de uma mesma coluna.

Algo pulsava dentro de cada Totem. Algo pulsava e conversava cm o pulsar dos Totens adjacentes. Cada pulso era diferente, invisível, e tornava o ar em volta palpável. Entre alguns deles podia-se sentir o cheiro de frutas; ou o chão era tão pegajoso que dava vontade de se deitar ali mesmo e semi-cerrar os olhos na direção das nuvens; entre outros, ainda, o ar era tão denso que era capaz de sufocar uma pessoa de pulmões fracos.

Andando em meio a esses Totens, a Senhora encontrou alguns que estavam quebrados ou com partes faltando. Já não pulsavam mais. Em vez disso emitiam uma energia constante e muito fraca que mal alcançada o chão debaixo deles, quem dirá a coluna mais próxima. Algumas pedras desses Totens viravam pó com o soprar da mais leve brisa, forrando o chão com pedriscos e areia.

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A Senhora passou muitos anos entre os Totens, estudando-os, antes de voltar para a sua Torre. Muito ela aprendeu, mas reconheceu que seria impossível compreender a fundo a natureza de cada um daqueles ídolos misteriosos.

O sol começou a despontar no horizonte. A Senhora fechou as grossas cortinas da janela e se retirou do quarto.

A Senhora acordou. As nuvens haviam se dissipado e as estrelas pulsavam no céu de veludo negro.