quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Mil Vidas

Mil vidas... Mil vidas eu vivi. Longas ou curtas, não importa. Por mil vidas existi e por outras mil existirei. Mil vidas...

Homens, mulheres, crianças, velhos... mil vidas eu tive. Vi o mundo e suas maravilhas, assim como as desgraças e injustiças; encontrei tantos tesouros pelo caminho... Tesouros que ninguém mais encontrava porque não brilhavam. Mas como eram radiantes!

Eu vi o mundo e o mundo me viu por mil vidas Mas nem todo mundo me via. Nem todo mundo via o mundo, nem sequer o pedacinho que lhes cabia. Nem todo mundo via...

Mil tesouros em mil vidas. Mil tesouros em cada vida. Tesouros sem mapa ou linha tracejada para seguir, sem guia, sem dica. Mil tesouros encontrados, mil tesouros criados, todos os dias mil tesouros. E ninguém via...

Surpresas. Mil vidas passadas e o mundo me surpreendia. Em cada vida o desconhecido se transformava no susto caloroso, na bela surpresa, no inesperado cativante. Mil vidas e surpresas.

Agora faz sol. A primavera começou abafada, e as primeiras cigarras da estação concordam comigo. Ando de chinelos pela rua. As casas estão abertas, convidativas, tentando afastar o calor que vem de fora com o vento: uma batalha perdida desde o começo. No gramado de um jardim descuidado, em meio a arbustos de fragrantes jasmins e pequenos pingos-de-ouro, encontro um solitário dente-de-leão. Já vi muitos desses, mas este é diferente. Uma borboleta pousa nele e abre e fecha as asas lentamente. Dentre todas as flores daquele jardim, é no dente-de-leão que ela prefere descansar suas asas. Pego a flor para mim, espantando a borboleta. De repente, como tantas outras vezes, percebo ali, diante de mim, outra vida.

Assopro o dente-de-leão.

Mil e uma vidas.