quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Incongruências Humanas

Já vi uma pessoa grande demais para seu próprio corpo. Ela andava com algumas amigas e conversava alto, gesticulando muito. Constantemente andava de costas para falar com elas, dava pulinhos pela rua e passadas muito largas para suas perninhas. Mal devia ter um metro e meio de altura, mas ocupava um espaço enorme na calçada.

Já vi uma pessoa pequena demais para o próprio corpo. Com passinhos curtos e tímidos, ele caminhava sozinho, encurvado. De vez em quando passava um conhecido e o cumprimentava, e ele se encolhia ainda mais para falar com as pessoas. Se ele sentisse do tamanho que era, teria quase dois metros inteiros. Mas não o tinha.

Já vi uma pessoa gorda demais para o próprio corpo, com o quadril rebolando pesadamente apesar de não possuir nem uma ínfima camada adiposa.

Já vi várias pessoas grotescas demais para os belos rostos que usavam como máscaras. E tive medo, algumas vezes. E pena, muitas.

Já vi corpos perfeitamente saudáveis sustentarem mentes e corações atrofiados.

Já vi mentes incrivelmente aguçadas presas em corpos vegetativos.

Já vi beleza sair de uma boca em que faltavam dentes.

Já vi fúria em olhos que nada podem enxergar.

Vi um broto verde se destruindo.

Vi a inocência num riso infantil depois de já ter perdido minha própria inocência.

Vi minha própria inocência voltar anos depois nem sei de onde. (Não estava perdida, afinal, apenas desorientada.)

Nunca vi nada mais forte que a vulnerabilidade.

Já vi um Super Homem. E um Coringa. Já vi Mulher Maravilha vivendo a vida da Mulher Gato.

E já vi também pêlo crescer em ovo. Sim, é algo bizarro. E no final ninguém sabe ao certo como ele surgiu, ou o que fazer com ele.