segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A Máquina do Tempo

A Menina e o Menino brincavam. Não importava a brincadeira. Fosse uma tarde ensolarada ao ar livre ou uma manhã chuvosa dentro de casa, os dois estavam juntos, multiplicando os melhores momentos de suas vidas um com o outro. Desde pequenos era possível perceber que eram muito diferentes. A Menina era mais séria, estudiosa, concentrada, mas também muito espivetada nas horas vagas. Ela sempre concentrava o máximo da sua energia no que estava fazendo. O Menino era mais quieto, distraído e sempre tentava fazer várias coisas ao mesmo tempo, ou pensava em uma e fazia outra, sempre com o olhar distante dando uma pista de onde vagueava sua mente. Por isso as brincadeiras dos dois eram sempre as melhores da vizinhança: o Menino tinha idéias originais e engenhosas enquanto a Menina tratava de, muito praticamente, organizar e materializá-las.

A Menina e o Menino cresceram.

A Menina conheceu outras garotas e se interessou por coisas de garotas. Bonecas, bolos e maquiagem ocupavam todo o seu tempo e atenção agora. Não tinha mais tempo para subir em árvores ou ver quem conseguia voar mais alto na balança do parquinho.

O Menino conheceu outros garotos e se interessou por coisas de garotos. Colecionou figurinhas de futebol, entrou em brigas das quais saiu muito machucado e aprendeu a assustar as garotas. Mas nunca a Menina. Ele entendia a Menina e suspeitava que a Menina ainda o entendia, e isso o assustava. E nem imaginava que o mesmo passava pela cabeça da Menina.

A Menina e o Menino cresceram um pouco mais. Ambos passaram a se interessar um pelo outro. Antes que percebessem, já eram Jovens. E perceberam que, apesar das diferenças, ainda se entendiam e tinham interesses em comum.

A Menina e o Menino agora já eram Moça e Moço. Não adultos ainda, mas já tinham um cantinho só para eles. Trabalhavam no mesmo lugar, ele no setor criativo e ela no administrativo. Dividiam as tarefas de casa, mas muitas vezes o Moço se perdia em devaneios e deixava as coisas pela metade.

Um dia o Moço se encontrava sozinho na casa e resolveu montar uma nova invenção. Foi para a cozinha e começou a fazer pé-de-moleque e arroz-doce. Enquanto se deliciava com os doces que sua mãe costumava fazer, lembrou do seu eu pequeno de muitos anos atrás. Lembrou das brincadeiras com a Menina, que agora era Moça, sua Moça-Mulher, e de como só existiam casas e terrenos baldios onde agora haviam prédios e ruas asfaltadas. Lembrou-se também da sua primeira professora – o que estaria ela fazendo agora?, será que já se aposentara? – e da primeira briga por causa de bolinhas de gude. Lembrou-se da primeira menina que o beijara e depois do seu primeiro beijo com a Menina. Quando já eram jovens. Quando eram Jovens e responsavelmente tresloucados – como qualquer raro jovem com bom senso.

Foi com um enorme susto que ouviu a porta da frente se abrindo e por ela passar o raque-raque das sacolas de lona que sua Moça-Mulher trazia cheias do supermercado.

- Olá, querido! – ela disse, apoiando as sacolas na mesa e voltando para fechar a porta. – Já fez o jantar como pedi?

“Oh não!” o Moço pensou, “Esqueci de perguntar como a Máquina do Tempo dela se parece!”