segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

No Circo

Num descampado no limite civilizado da Encruzilhada dos Pinhões foram erguidas tendas coloridas e montadas jaulas e picadeiros longe da rua; à frente de tudo isso, para receber os visitantes, uma cabine de madeira onde se vendiam ingressos. Ao fundo, pipocavam balões coloridos e pipocas coloridas se esparramavam no chão. Os cartazes espalhados pela cidade e toda aquela explosão de cores no meio do descampado seco logo atraíram as pessoas para o Circo, e todo final de tarde havia um espetáculo de habilidades humanas que normalmente não eram vistas no dia-a-dia das pessoas ordinárias.

O Bobo-da-Corte não viu cartaz algum, mas as tendas coloridas chamaram sua atenção no meio do marrom e cinza da paisagem daquela cidades. Uma enorme placa dizia que o nome do lugar era Circus Maximus, o que o empolgou. Nunca havia ido a um circo antes, mas sempre ouvira falar que era um lugar muito divertido.

Deu a volta na maior tenda do lugar, mas não encontrou ninguém. Parecia que o espetáculo já havia começado. Sem ninguém para lhe indicar e entrada, procurou uma fenda na lona e entrou. Havia outros homens ali com roupas semelhantes à sua, só que muito mais coloridas, folgadas e com sapatos anormalmente compridos. Seu traje preto e branco normalmente se destacava entre as pessoas comuns por ser deveras peculiar, mas ali se destacava por ser peculiarmente austero.

Os outros homens olharam-no de cima a baixo, mas deram de ombros. Um deles cochichou com outro: “Deve ser o cara novo”, e todos aceitaram aquilo com um aceno monótono de cabeças.

"Como sabem que nunca estive num circo antes?", o Bobo pensou. "É tão óbvio assim?"

De repente ouviram uma saraiva de aplausos e em seguida um homem muito baixo dentro de um terno com babados entrou ali por outra fenda na lona, e nenhum dos homens das roupas coloridas se surpreendeu.

- Andem, é a sua deixa. Vão, vão, vão!

Os homens de roupa colorida atravessaram a segunda fenda e o Bobo-da-Corte os seguiu para uma área muito maior e iluminada. Diversos holofotes miravam o centro, o que tornava difícil distinguir as formas além da luz, mas ele teve certeza de que havia uma platéia formando um semi-círculo na borda da tenda.

Logo cada um dos Palhaços estava fazendo o que deveria fazer: jogando tortas um na cara do outro, andando em bicicletas minúsculas por rampas frágeis, executando piruetas e malabarismos que pareciam impossíveis com aquelas roupas folgadas e estabanadas. O bobo ficou perdido por um tempo, até que o homem baixo de terno o cutucou com uma bengala.

- Ande na bicicleta com os outros Palhaços.

O Bobo fez o que ele falou. Foi um desafio, mas achou muito divertido desafiar a gravidade no loop construído com madeira frágil e bamboleante. Em seguida mandaram-no andar na corda bamba com um vaso de flor na cabeça. Depois pular por um aro de fogo. Depois servir de alvo para a torta de merengue de outro Palhaço. E depois praticar malabarismos com maçãs, bananas, cachos de uva, laranjas e uma berinjela. E então...

O homem do terno chamou todos de volta para a fenda na lona e anunciou que o espetáculo havia chegado ao seu fim. Satisfeito consigo mesmo, o Bobo-da-Corte saiu da tenda pela primeira fenda e vagou a noite toda pensando em como o Circo era realmente um lugar divertido.

Ainda dentro do Circo, todos os participantes do espetáculo foram chamados para agradecer a presença do público. Depois da última salva de palmas, um dos Palhaços olhou em volta e percebeu que o cara da roupa preto e branca não estava lá. Chamou o Apresentador, o cara do terno com babados, e lhe perguntou:

- Onde está o cara novo? E qual é o nome dele? Não o vejo em lugar nenhum.

- Cara novo? – ele se surpreendeu. - Não tem nenhum cara novo. Não contratei ninguém nos últimos cinco meses.

E os dois ficaram se olhando e coçando a cabeça, confusos, enquanto a platéia esvaziava o Circo.