segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Nome

O mundo é cheio de nomes. Quando a gente é criança, aprender a usar o nome árvore já é um grande passo. Mas aí o mundo mostra que árvore não é um nome só, mas vários: mangueira, goiabeira, pinheiro... E o mundo se enche de nomes, vai se enchendo todo dia.

Mas esse redemoinho nominal é civilizado (segundo a dona gramática), embutido em caixinhas de regras que o homem, metido à cientista, criou. Pra mostrar que esse trabalho é sério, o homem classifica todos os nomes. A mangueira então é substantivo, com radical e sufixo, e em frase pode ser sujeito, complemento verbal... Aí está, enfim, a mangueira encaixotada.

Pois os nomes deviam ser humanizados.

E pra não faltar cientificidade na proposta, também há uma classificação, diferente: os nomes que estão e os que não estão. Porque aí as coisas ficam mais divertidas, tudo fica relativo e contraditório, como todo ser humano.

Explico. A mangueira da praça nunca visitada é um nome que não está. Já a mangueira do quintal de casa está com os nomes que estão, mas está enquanto aproveitam-se suas mangas e sombra. Se o morador se muda, a mangueira não está mais, e vira tão mangueira quanto aquela da praça.

Essa é uma classificação muito prática, caso a caso, no seu tempo. Só pode haver um problema com ela: a criatividade excessiva. É que tem gente que vai inventar, e misturar seus desejos com a realidade.

Explico. Depois que aquele morador se muda, a mangueira da antiga casa não está mais. Mas o sujeito, teimoso ou saudoso, queria que ela estivesse. Então ele planta outra mangueira, guarda com carinho fotos da antiga, querendo fazer com que ela esteja. Mas a nova mangueira não é tão doce, nem a foto tão bela quanto a outra. A antiga mangueira não está, mas o sujeito teima saudosamente que está.

Mudemos então a classificação, dos nomes que estão e não estão, para os que ficam e os que não ficam. Agrada-se assim os descontentes.

A antiga mangueira, então, é um nome que fica, mesmo que não esteja. Aquela da praça não está nem fica, e a nova está e fica, pois o morador descobre ser sua sombra um lugar muito agradável para leituras (menos nas épocas de manga).

Mesmo pacificada essa situação, o caso da antiga mangueira ainda merece atenção, pois é comum alguns nomes ficarem sem estar, assim como há muita gente como o morador – gente teimosa e saudosa. Teimosa porque teimam em fazer ficar o que não está, e justamente por ser saudosa, e assim sentirem falta do que não está.

Como isso, sentir falta do que não está?

O morador plantou outra mangueira, e mesmo ela não tendo mangas tão doces quanto a outra, é nas sombras da nova que descobriu quão boa uma leitura ao ar fresco pode ser, e nessas sombras passou a ler todas as tardes.

Por que sentir falta da outra?

Talvez ela tenha crescido com seus filhos. Mas dizem seus vizinhos que esse morador viveu muito pouco ali. Alguns contam que a notícia de sua vinda chegara junto com a de sua partida; outros nem notícia tiveram.

Por que o nome fica, então?

Deixar a mangueira ficar sem estar, para o morador, vai além do que aconteceu enquanto esteve: o mistério todo reside no que não aconteceu.

Depois de se mudar e perceber o não estar de sua planta, o morador imaginou muitas coisas, até o fato de que a mangueira parecia então estar mais do que jamais esteve antes. Imaginou também como seria o suco daquelas mangas doces. Sim, pois só agora lhe ocorria que poderia ter feito delas suco. Como não pensara nisso antes?

Imaginou por que não escalara os galhos mais altos daquela árvore, e por que nunca aproveitara tanto sua sombra. Às vezes imaginava lembrar o doce daquelas mangas, mas não sabia dizer se era esse o sabor que tinham, ou se era o sabor que imaginava que tinham. Só o que sabia (ou esperava que soubesse) era que ao menos as mangas saboreara bem.

E essas mangas ficaram também.

Como ele queria poder saboreá-las todos os dias...

E a mangueira, a mangueira! Que mangueira. Mangueira, nome que ficou, que fica, mesmo sem estar. Nome que está longe, onde os olhos não alcançam mais, lá onde os sonhos se perdem para o impossível, onde a imaginação corre solta, mas presa à tristeza do que poderia ter sido. Aqui, onde ela não está, resta só o que fica. É tudo que resta.