segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A Pequena Resedá

Era verão, e a Encruzilhada dos Pinhões estava com apenas metade de seus habitantes. A outra metade estava em suas casas de campo aproveitando o calor. E o Bobo-da-Corte passeava feliz pelas ruas que agora não estava mais aglomeradas e tumultuadas. Na calçada havia espaço para seus pés e nas praças sempre se podia encontrar um banco vago para sentar à sombra de uma frondosa árvore.

Muitas vezes nem tinha destino certo, mas o Bobo se punha a caminhar naquele cenário tranqüilo, porém longe de ser deserto. As Casas de Gelados estavam sempre cheias de crianças nessa época do ano, e os jovens ocupavam todos Cafés Musicais de todas as esquinas. Os que não ficavam localizados em esquinas eram ocupados mais tarde pelos mais velhos, depois que terminavam o trabalho do dia.

Numa de suas andanças ao entardecer, o Bobo-da-Corte encontrou uma praça que nunca havia visitado antes. Nela cresciam as mais belas flores que ele já havia visto, os mais vistosos arbustos, as mais fragrantes rosas. O principal caminho da praça era ladeado por resedás altos e muito floridos, mas uma dessas árvores chamou a atenção do Bobo-da-Corte. Seus ramos eram mais finos e fracos, tornando-a mais miúda que as outras, apesar de ainda ser mais alta que ele. E suas flores não eram do mesmo rosa forte das outras. Havia algo em suas pétalas que a tornava levemente lilás, mas essa também não era a cor natural das flores daquela planta, disso o Bobo tinha certeza.

Ficou ainda algum tempo observando a Pequena Resedá antes de continuar seu caminho, intrigado.

Poucos dias depois, o Bobo-da-Corte percebeu que seus pés o levaram até a praça em que cresciam os resedás. Mas sua Pequena Resedá não estava arroxeada como antes – estava simplesmente com um tom mais fraco de rosa. O Bobo tentou, em vão, entender o que estava acontecendo com aquela árvore, mas como não havia absolutamente nada mais que a diferenciasse das outras, desistiu pelo dia.

Tentando refazer exatamente os seus passos do primeiro dia, voltou mais uma vez àquela praça durante o entardecer. E dessa vez encontrou o que procurava. A Pequena Resedá estava mais arroxeada e brilhante do que antes. Sim, desta vez estava brilhante, como algo que recebe uma luz muito forte, mas só reflete uma pequena parte dessa luz. E, passada uma hora, com o céu negro já cobrindo completamente a cidade, a luz azulada que emanava da Pequena Resedá era mais perceptível.

O Bobo-da-Corte voltou à praça durante todas as noites seguintes. Percebeu que o brilho da Pequena Resedá aumentava à medida que a Lua minguava. Era quase como se o brilho que a Lua escondia com sua face tímida fosse refletido pelas flores daquela árvore. Talvez fosse exatamente aquilo que estava acontecendo, mesmo sem explicação provável para tal fato.

Porém, apesar de o seu brilho aumentar a cada dia que passava, a Pequena Resedá continuava miúda, tímida e fraquejada. E o Bobo não era o único a perceber aquilo. Algumas das pessoas passavam pela praça e viam aquela estranha árvore que se destacava das demais de sua espécie e falavam:

- Olhe como ela brilha!

- Mas é tão pequena comparada com as outras... Será que está doente?

- Isso explica esta cor estranha.

A árvore parecia murchar ainda mais diante dos olhos do Bobo quando via as pessoas falando essas coisas perto dela. No dia em que a Lua se escondeu totalmente no negror do céu, o Bobo andou decidido e sorridente até a Pequena Resedá. Se a árvore tivesse olhos, ele olharia bem no fundo deles, mas o melhor que pôde fazer foi abarcar com seu olhar terno todas as flores arroxeadas e dizer:

- Você é linda!

Um vento fez as folhas da Pequena Resedá tremerem – "Terá sido mesmo o vento?" – e o Bobo-da-Corte abriu um sorriso mais largo ainda. Ele deixou a praça e a Pequena Resedá sozinhas pelo resto da noite. Não havia mais nada a ser feito agora que a Lua estava toda encoberta.

O Bobo voltou à praça em outros dias, mas não tão seguido quanto antes e nem no mesmo horário. Visitou a Pequena Resedá pela manhã, à tarde e, também, durante o entardecer e à noite. O brilho azulado havia ido embora – agora ela era apenas uma resedá pequena de flores rosa-claro.

Mas ela nunca esqueceu das palavras do Bobo-da-Corte, e sempre que ele passava sob seus galhos, suas flores rosadas emitiam um brilho alaranjado, quente e terno. Ela continuava sendo a Pequena Resedá, mas agora era uma árvore completamente diferente.