sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Resedá Branco

Dias se passaram, e a Pequena Resedá brilhava confiante o luar azulado de suas pétalas cor-de-rosa, mais forte quando a lua minguava e apagando à medida que ela crescia. Porém, toda vez que o Bobo-da-Corte passava por ela, o brilho se transformava em uma terna e calorosa luz rosa-alaranjada, demonstrando toda a sua felicidade e gratidão.

Aquilo ao mesmo tempo alegrava e entristecia o Bobo, pois ele sabia que não ficaria por muito mais tempo na Encruzilhada dos Pinhões e, acima de tudo, queria que a Pequena Resedá fosse feliz. Se a deixasse sozinha na Praça das Resedás, com suas companheiras de maior porte e flores de um rosa-berrante, ela murcharia, se tornando cada vez mais miúda e pálida comparada às outras.

Sentindo que faltavam poucos dias para a sua partida, o Bobo-da-Corte teve uma idéia brilhante. Alugou uma carroça e foi até um campo afastado da cidade por onde ele passara ao chegar lá. Nesse campo havia um grande grupo de flores parecidas com as da praça, só que muito mais variadas. Conversou com as mudas mais jovens até encontrar entre elas uma com grande ambição, que estivesse disposta a viver na cidade e ser muito importante. O Bobo, então, levou a muda num grande vaso de barro até a Praça das Resedás.

Sua tarefa tomara-lha o dia todo e um bom pedaço da noite, e ele não pôde visitar a Pequena Resedá ao entardecer, como costumava fazer. Ela parecia mais pálida que antes, e o seu brilho alaranjado foi muito mais fraco quando viu o Bobo dessa vez, como se estivesse fazendo birra. Mas o Bobo não se importou, sabia que havia demorado por uma boa causa.

Sob o véu da madrugada, o Bobo-da-Corte pôs-se a cavar um buraco próximo à Pequena Resedá. De tão entretida que a planta ficara com a sua tarefa, acabou esquecendo de controlar o seu brilho, e uma forte luz alaranjada aqueceu e guiou seu amigo até o nascer do sol. Cansado, porém satisfeito, o Bobo juntou o último montinho de terra em volta da muda que trouxera.

As folhas da Pequena Resedá estremeceram de contentamento: o Bobo lhe trouxera um novo amigo. Ententendo finalmente o que estava acontecendo, a Pequena Resedá se curvou na direção do homem que havia tornado seus dias solitários um pouco mais belos. Despediram-se. Porém, não pela última vez.

Invernos se foram, primaveras vieram... e assim os anos passaram.

A muda cresceu até passar a altura da Pequena Resedá – o que não era surpresa, pois ela era a menor árvore da praça. Porém, aquela muda também era diferente das outras, como ela. Aquela muda se transformou num garboso Resedá Branco, de galhos bem abertos e com o topo curvado sobre a Pequena Resedá como que para protegê-la. Todas as pessoas que passavam pela praça paravam para admirar o casal de resedás, que agora se destacavam graciosamente das outras por serem mais claros, mais brilhantes. A Pequena Resedá não era mais pequena e pálida. Ela era delicada e graciosa e amada. Ela era linda! Como o Bobo-da-Corte havia lhe dito muitos anos atrás.

O brilho da Pequena Resedá também mudou. Suas flores não precisavam mais emprestar o brilho da lua para serem belas. Agora ela brilhava com sua própria luz, o brilho rosa-alaranjado morno que corava o Resedá Branco com orgulho.