quinta-feira, 3 de março de 2011

A Encruzilhada dos Pinhões

No princípio, não passava de uma mera encruzilhada, duas faixas de terra compactada que se encontravam para depois continuarem seguindo seus próprios caminhos. Tempos depois, mais duas estradas se encontraram na encruzilhada, formando uma espécie de trama com um quadrado de grama no centro. A região que envolvia a encruzilhada era pontuada densamente por araucárias, sendo que no interior da encruzilhada havia uma dúzia deles. O seu formato peculiar tornou a encruzilhada conhecida, e muitas pessoas preferiam fazer a rota que passava por ali apenas para ver a tal encruzilhada.

Num final de tarde, um Viajante esfomeado que desconhecia essa fama resolveu parar para aproveitar a dádiva natural daquele lugar. Apesar de sua comida ter acabado há dois dias, carregava panelas, facas e colheres. Passou alguns minutos vertiginosos colhendo pinhões suficientes para encher uma panela, e passou ainda mais tempo olhando para o fogo enquanto os pinhões cozinhavam. Durante o curto período em que preparava a sua única refeição do dia, ficou surpreso com as dezenas de pessoas que passavam pela encruzilhada. Para um ponto qualquer no meio do mapa, aquele lugar era bastante movimentado. Depois de saciada sua fome, armou rapidamente sua barraca e dormiu até o raiar do dia seguinte.

Junto com o raiar sol escondido entre nuvens carregadas, seguiu viagem para o sul. Porém, dias depois ele voltou àquela encruzilhada numa carroça, desta vez munido de mantimentos para quase um mês e um lugar mais seco e seguro para dormir. Passou um dia inteiro colhendo pinhões até encher cinco sacas de estopa. No dia seguinte construiu no meio da encruzilhada uma barraquinha coberta onde podia deixar as sacas à mostra, mas protegida do clima cinzento e chuvoso da região. Não demorou para que as pessoas que passavam ficassem curiosas e se aproximassem.

Em menos de uma semana, o Viajante conseguiu vender quase todo o conteúdo das cinco sacas de pinhões. O que sobrara ele mesmo comeu. As pessoas que passavam ali não tinham tempo para ficar colhendo os pinhões que caíam das araucárias, por isso ficaram mais que felizes em poder comprar um punhado no caminho para casa. Em poucos dias, a encruzilhada que antes era conhecida pelo seu formato peculiar agora era comentada entre as pessoas que por ali passavam como a Encruzilhada dos Pinhões, onde se podia comprar pinhões fresquinhos por um bom preço.

Não tardou para que outras pessoas percebessem o potencial do lugar agora que o Viajante o tornara tão claro. Num belo dia nublado, pela manhã, um homem com uma carroça cheia de batatas parou e lhe disse:

- Você teve uma grande idéia, rapaz! Diga, o ponto aqui é bom?

- Se é bom eu não sei dizer, nunca trabalhei com venda de pinhões antes. O tempo aqui está sempre úmido e muda pelo menos três vezes até a hora do almoço, o que pode ser meio maçante quando se está sozinho. Mas na primeira semana que fiquei aqui vendi cinco sacas de pinhões, e na segunda foram seis.

- Mas pelas barbas dos macacos que mordem! – exclamou o homem. – Isso é muito bom! Diga, você se importaria em dividir a Encruzilhada comigo?

- Ora, claro que não! Fique à vontade. Vai ser bom ter uma companhia fixa para variar! Não que eu goste muito de ficar parado num lugar só, mas faz bem para os bolsos.

Assim se passaram os dias. Mais vendedores apareceram para dividir a Encruzilhada dos Pinhões. Logo eram tantas barraquinhas que os vendedores mais recentes nem sabiam quem fora o primeiro a se fixar no lugar, e as pessoas não tinham mais a necessidade de pedir para compartilhar o ponto. Todo dia da semana era dia de feira na Encruzilhada dos Pinhões, e os feirantes começaram a construir pequenas casas para passar os dias ali mais confortavelmente. Em questão de meses outros estabelecimentos foram abertos nos arredores, os vendedores trouxeram suas famílias para viver aqui e até o clero se instalou na região, conseguindo abrir espaço para uma grande Igreja entre as barracas defronte ao bloco inicial de todo aquela assentamento.

Com a Igreja instalada, a Encruzilhada dos Pinhões passou a ter o porte de uma vila, crescendo rapidamente até se tornar a Cidade da Encruzilhada dos Pinhões. É claro que as pessoas da região nem se incomodavam em mencionar a palavra “Cidade” para falar de onde viviam. Para eles ali seria eternamente apenas a Encruzilhada dos Pinhões.

E o Viajante?

Oras, o Viajante não viu nada disso acontecer. Passada a temporada de pinhões do ano em que se instalara ali e com os bolsos já pesados ele partiu em uma nova viagem, dessa vez para o oeste. E nunca mais se ouviu falar dele na cidade, assim como ele nunca mais ouviu falar da Encruzilhada.


Mais de dois séculos depois, duas crianças se encontravam na Praça Central, o lugar que dera origem a toda a imensa Cidade da Encruzilhada dos Pinhões de hoje. Apesar do rápido adensamento, as araucárias daquele quadrado de terra nunca foram cortadas em prol do carinho que os habitantes tinham por elas, desde o princípio. As duas crianças agora olhavam atentas e solenes a maior delas, que era envolvida por uma pequena grade de proteção.

- Eu não te disse? Foi aqui que o fundador da cidade montou sua barraquinha de pinhões, como diz a placa – disse o Menino, apontando para um grande bloco de minério escuro e polido, já sem brilho por causa do tempo.

- Peraí, eu ainda ‘tô lendo! – a Menina falou, impaciente. – “"Aqui nestra terra o Viajante encotorou repouso e alimento. Aqui ness-ta terra o Viajante ini-ciooou um sonho. Aqui nesta terra viiiivvvemos."” Não fala nada de barraquinha de pinhão. Você inventou a história toda!

- Eu ‘tô falando a verdade! Eu juro! Um dia ainda vão descobrir quem foi o Viajante e vão colocar o nome dele em todos os livros de história, você vai ver

- Nah-há! Você ‘tá mentindo que eu sei. O fundador da cidade foi aquele cara da estátua ali – a menina apontou para uma grande figura de bronze em tamanho real de um homem com roupas antigas sobre um largo pedestal de pedra. - Vou contar pra professora que você disse que ela estava errada.

Horas depois as duas crianças ainda estavam discutindo sobre outras mentiras e verdades. Passaram alguns dias sem se falar, como se fossem permanecer piores inimigos pelo resto de suas vidas. E na semana seguinte já estavam dividindo os lápis-de-cor, trocando lanches e brigando novamente.