sexta-feira, 25 de março de 2011

No Caminho da Coroa

O Rei estava sentado cabisbaixo na beira de uma fonte. De quando em quando suspirava, saudosista, e levantava o olhar tristonho para o horizonte, na direção de terras distantes daquela, apesar de só conseguir ver algumas casas e pequenos prédios diante de si. Suspirava de saudades do seu reino que já não era mais seu. E tudo porque perdera a sua coroa muito tempo atrás.

Um garoto passou por ele. Mas depois voltou, olhando bem para o seu rosto abaixado. Chegou até a se entortar para ver melhor a fisionomia daquele homem triste. O Rei meramente levantou o olhar para ele, mal movendo a cabeça.

- Por que está tão triste? – perguntou o menino.

Depois de um longo suspiro, o Rei respondeu com o que lhe restava de ar: - Porque não posso voltar para casa.

- Você fez algo errado?

- Não. Não sei. Talvez. Já não me lembro mais. Mas eu perdi algo muito importante, disso eu me lembro. Isso eu não esqueço, não consigo esquecer.

- E tudo que você precisa para voltar pra casa é essa coisa que você perdeu?

- Bem, sim. E encontrar o caminho de casa. Já andei tanto que nem sei como chegar lá a partir daqui. Nem sei se estou longe ou perto.

- Bom, você não devia começar a se mexer enquanto ainda é dia? Logo vai escurecer e você não vai conseguir achar o que perdeu nem chegar em casa.

O Rei riu. Conversar com aquele garoto fizera bem à sua alma. Ele endireitou a postura ainda rindo e olhou novamente para o horizonte. Suas roupas maltrapilhas ganharam um brilho novo e ele sentia que podia conquistar o mundo se realmente tentasse.

- Sabe, tem um ditado no meu reino que dizia assim: "Todas as estradas levam ao Meu Reino". Isso provavelmente é verdade, pois era um lugar muito grande e importante e próspero. Acho que não vai ser tão difícil assim encontrar o caminho de casa.

O Rei pôs-se a pensar. Na sua lógica, se ele precisava invariavelmente da coroa para voltar para o seu reino e todas as estradas levavam até ele, então em alguma das estradas deveria estar sua coroa. Empolgado com a idéia, se levantou e fez um cafuné na cabeça do garoto, ainda olhando para o horizonte com seu porte altivo e pomposo de antigamente.

- Obrigado, garoto! Você me ajudou muito.

Enquanto o Rei se afastava, o garoto continuou seu curto caminho até a mercearia para comprar balas, pensando "Eu hein! Cara estranho. Deve ser doido".

O Rei, então, marchou para fora da cidade como se o destino estivesse a lhe guiar os passos. Andou até não agüentar mais e ainda assim continuou. Sentia que aquele era o seu dia de sorte. Sentia que finalmente a maré mudaria para melhor e ele poderia finalmente retornar para o seu reino e reinar, como sempre fora e como sempre deveria ter sido. Assim que encontrasse sua coroa, todas as falsas acusações seriam esquecidas, todas as injúrias retificadas e sua vingança sobre aqueles que o expulsaram do trono seria justificada. Tudo o que precisava fazer era continuar andando na direção do Seu Reino e tudo...

Catablof!

O Rei sentiu a ponta do pé encontrar algo duro e frio, mas já era tarde demais: tombara. Pelo menos ele estava andando sobre a grama, ao longo de um rio, o que tornou sua queda mais suave. Já era de noite, com a lua crescente ainda muito fina a iluminar o céu, por isso ele não enxergava apenas algumas formas grandes de vegetação em seu caminho, mas não pequenas pedras no chão. Ele só conseguia ver que aquela era uma pedra parcialmente brilhante. Chutou-a na direção do rio, irritado. Que ousadia, uma pequena pedra tentando lhe impedir de chegar ao seu tão ansiado reino!

Levantando-se e massageando o joelho machucado, continuou seu caminho, praguejando a pedra e sonhando com seu castelo em seu reino.

A pedra chutada rolou até o rio. A correnteza lavou um pouco da sujeira e terra que se acumulara nela durante os últimos anos. A pedra se revelou oca e feita inteiramente de metal, com algumas pedras preciosas incrustadas a sua volta. Aquilo, de fato, não era pedra alguma. Era uma belíssima coroa, que agora descansava no fundo pedregoso de um rio à espera de uma cabeça para se empoleirar.