sexta-feira, 18 de março de 2011

O Espelho do Bem e do Mal

A Senhora andava por sua Torre impacientemente. Um objeto relutava em sair de sua mente ao mesmo tempo que ela relutava em encará-lo. Ele estava guardado em uma das saletas da Torre, coberto com um pedaço de veludo banco-cinzento. A Artífice lhe fizera aquele objeto seguindo suas próprias recomendações e exigências, e agora ela tinha receio em simplesmente olhá-lo. Até mesmo a Artífice, que chegava até os limites do bom-senso ao moldar suas criações e de vez em quando arriscava cruzar aquela linha invisível para o lado do perigo, até mesmo ela lhe dissera que aquela empreitada não era sábia. A Senhora, porém, ignorara todos os avisos e o fizera mesmo assim. Ela fez o Espelho do Bem e do Mal pois acreditava que teria a sabedoria necessária para utilizá-lo corretamente sem se deixar deslumbrar ou afogar por sua magia.

Porém, agora, depois de meses em posse do Espelho, a Senhora temia olhá-lo tanto quanto tinha a necessidade de consultá-lo. Sua batalha interna a fazia percorrer toda a Torre sem objetivo e sem entrar em nenhuma saleta ou salão. Apenas percorria os corredores como se, neles, fosse encontrar a resposta que teimava em não buscar no Espelho.

Quando ansiedade e dúvida finalmente ultrapassaram o receio, a Senhora se dirigiu tempestuosamente para a saleta onde guardava o Espelho. A sala ficava próxima do chão, mas um pouco elevada, e possuía grandes janelas fechadas com grossas cortinas azul-marinho. A Senhora abriu as cortinas e deixou o sol do fim da tarde entrar, iluminando o veludo brilhante que cobria o Espelho. Colocou-o de costas para a janela sobre um cavalete apropriado, pois ele deveria ter influência do exterior, mas não podia refleti-lo.

- Ainda não é a hora certa – a Senhora murmurou. Ficou olhando pela janela por quase meia hora até que o sol estivesse começando a desaparecer atrás da linha onde o céu toca a terra.

Retirou o veludo claro de cima do Espelho, revelando inúmeros detalhes que se entrelaçavam e runas tão floreadas que se confundiam com o resto do desenho. A lâmina do espelho propriamente dita tinha uma leve coloração cinzenta, quase uma aparência de fosco sujo, por causa dos materiais com os quais foi feito.

Colocando-se de frente para o Espelho de modo a refletir todo o seu rosto, a Senhora viu surgir a imagem de um imenso jardim com árvores e flores frondosas e pedras grandes e arredondadas no meio da vegetação.Uma chuva fina, com gotas grossas porém espaçadas, caía de nuvens recortadas que deixavam o sol entrar e faiscar em cada gotinha presa às folhas das árvores. Em meio à folhagem mais baixa, a Senhora pôde ver alguns detalhes curiosos, como um gato amarelo com rajados negros nas costas sentado altivamente sobre uma pedra sob uma larga folha que lhe servia de guarda-chuva, com o fato ainda mais estranho de que lhe faltava uma das patas dianteiras, e nem por isso ele parecia abalado. Também podia ouvir vindo do meio da mata um som alegre, como o riso de crianças que inventam uma brincadeira nova, só que em vez de risadas eram pios de pássaros que ela não podia ver. Eram tantos pios de tantas direções diferentes que pareciam estar dando uma festa no jardim inteiro em agradecimento pela chuva, e qualquer um estava convidado.

Na janela, o sol continuou se escondendo trás da planície. Quando mais da metade do disco se escondeu, a imagem no espelho começou a mudar.

Atrás do jardim havia um rio pantanoso, com poucas ilhas de terra mais firme onde as árvores finas e cinzentas cresciam. Era um lugar frio e sufocante, e muito úmido, apesar de não cair uma única gota do céu cor de chumbo. Num certo ponto, um salgueiro crescia solitário, inclinado na direção do rio com suas folhas quase tocando o chão. Em volta dele, pássaros muito miúdos e muito negros ciscavam à procura de minhocas e outros insetos enquanto davam pulinhos e cochichavam entre si.

- Temos que eliminar os Pássaros da Garoa.

- Sim, temos que nos livrar deles!

- Eles tem que aprender que não se deve cantar na chuva.

- Ou de madrugada.

- Não se deve cantar! Eles são loucos! Cantam por qualquer coisa e para qualquer um.

- Vamos nos livras dos Pássaros da Garoa! Eles são o problema.

- Sim, um problema.

- Vamos matá-los!

- Seu novato! Isso é impossível, eles sempre voltam! Já tentamos antes.

- Então vamos continuar tentando!

À medida que cochichavam entre si, os Pássaros Negros pouco a pouco formaram um círculo em volta do salgueiro. Continuaram ciscando e maquinando e pulando, sem parar.

A Senhora deu alguns passos para trás, até que não pôde mais ouvir o cochicho dos pássaros negros. Depois de alguns segundos em choque, pegou o pedaço de veludo claro e cobriu novamente o espelho. O sol já se deitara completamente atrás da planície, ela não podia se demorar mais do que aqueles poucos minutos na frente do espelho. O pôr-se e nascer do sol eram os únicos momentos em que o Bem e o Mal se encontravam interligados no Espelho. Em qualquer outro horário, quem colocasse seus olhos sobre o próprio reflexo veria apenas um dos lados, o que poderia levar erroneamente ao desespero ou à vaidade.

Agora que sabia como o Mal prejudicava o Bem, a Senhora fechou as cortinas e se dirigiu ao seu quarto para fazer as reflexões necessárias e tomar medidas condizentes. Depois de trancada, a Senhora planejava nunca mais abrir aquela sala onde estava guardado o Espelho do Bem e do Mal. Ou melhor, tinha fortes esperanças de que nunca mais o Espelho fosse necessário.