quinta-feira, 10 de março de 2011

O Jovem Profeta

Não muito tempo atrás, havia uma cidade muito distante de todas as outras. Uma cidade que crescera diferente de todas as outras, no seu próprio ritmo, com seus próprios costumes. Era ela tão diferente das demais, e tão isolada, que mantinham o costume de seus antepassados de manter e consultar um grupo de profetas.

O Oráculo, residência desses profetas, ficava no alto de uma colina quase fora dos limites da cidade. A muralha externa – sim, eles também conservavam uma muralha alta contra invasores – passava do outro lado da colina. De lá, podiam ver toda a cidade, o que facilitava suas predições. Bastava concentrar o olhar e a mente num ponto para adivinhar o futuro das pessoas, ou então ter uma visão geral da paisagem para saber o que aconteceria com a cidade nos anos vindouros. Sua visão privilegiada, porém, tinha um custo: o isolamento total, exceto quando outras pessoas iam até o Oráculo.

Um dia, um grupo de crianças apareceu no salão central do templo e imediatamente foram cercadas pelos profetas. Apesar de preverem acontecimentos importantes, as notícias mais imediatas e simples da vida cotidiana estava sempre fora de seu alcance, pois nenhuma das pessoas que visitava o Oráculo ia lá para falar, mas sim para ouvir. As crianças, diferentemente, estavam lá por puro acaso, sem nenhum objetivo específico em mente. Os profetas então despejaram sobre elas todas as perguntas que conseguiram juntar nos últimos anos – às vezes sobre parentes agora já tão velhos quanto eles, às vezes sobre costumes corriqueiros, como o vencedor do último campeonato esportivo de que gostavam.

Apenas um dos profetas se manteve em silêncio enquanto os outros saciavam sua curiosidade. Ele era o mais jovem profeta do Oráculo, mas não fora o último a se juntar aos outros. Ele, ao contrário de seus colegas, havia desenvolvido a habilidade de prever acontecimentos futuros ainda muito jovem e não chegou a cultivar costumes muito enraizados durante sua "vida comum", como diziam. Ele era pouco mais velho que aquelas crianças quando se tornara um profeta, e tudo que ele conhecia do mundo lá fora era a juventude de sua geração. Agora, com a idade avançando pela casa dos cinqüenta, tudo que ele podia fazer era comparar a sua juventude com a atual.

O Jovem Profeta deu as costas para aquelas crianças e se concentrou nas crianças e jovens de toda a cidade. O que ele previra décadas atrás, na sua primeira profecia, agora se cumpria. Infelizmente, as pessoas não lhe deram ouvidos quando era jovem – quem sabe ouviriam-no agora que estava maduro.

Ousando o que profeta algum jamais ousara, tirou os robes que usavam no Oráculo e desceu a colina com passos confiantes, apesar de cambaleantes sobre o terreno pedregoso. Nenhum outro profeta o impediu, pois sabiam que algum dia aquilo seria necessário. Sabiam que um dia a tradição precisaria ser quebrada e deveriam levar ao povo daquela cidade uma resposta cuja pergunta nunca fora pronunciada. Nem era bem uma reposta, era mais uma mensagem, um aviso.

Dias e mais dias se passaram, e o Jovem Profeta continuava resoluto em sua tarefa. Sob o escuro da noite e com o castigo das tempestades geladas sobre suas costas, ele espalhou a visão que tivera anos atrás. À semelhança dos jovens que ele tentava salvar, escrevia sua mensagem nos muros das casas e edifícios com tinta, dia e noite. Em pouco tempo percorrera uma extensão tão grande da cidade que, em duas semanas, mais de dez mil de seus habitantes se indagavam sobre quem poderia ser o autor daquelas frases desconexas marcadas na alvenaria caiada de suas residências.

"Pessoas conversam sem falar,
Pessoas escutam sem ouvir;
Ninguém ousa perturbar o som do silêncio."


Aquelas palavras não eram do Jovem Profeta, mas de um Poeta. Ele ouvira aquele poema ser declamado várias vezes quando era pequeno, perto da rua de sua casa, em recompensa por alguns trocados dentro do chapéu do poeta, até que um dia teve uma visão com aquelas palavras. E a visão se cumpria, naquele momento, naquele lugar. E ele temia.


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Nota da Autora:

Este conto foi inspirado descaradamente na música "The Sound of Silence", de Simon e Garfunkel, e em alguns artigos que li recentemente sobre redes sociais. Alguma linha de raciocínio juntou os dois na minha cabeça, e foi incrível os paralelos que encontrei entre uma música tão antiga e uma situação que, na época, não tinha nem como ser imaginada.

Não citei todos os paralelos no conto pois não era o objetivo nem o lugar para fazê-lo, mas quem se interessar pode ler o artigo "Será mesmo o fim dos Blogs?", do meta-blog Ferramentas Blog. Esse artigo não fala exatamente do assunto do conto, mas junto com a letra de "The Sound of Silence" serviu para reforçar uma outra idéia que já estava na minha cabeça.

Espero que gostem, e que este conto sirva para refletir um pouco.