terça-feira, 29 de março de 2011

O nome da poesia


Dizem alguns que viveu naquela vila um sujeito muito curioso chamado Brilho. Digo sujeito, mas não havia sujeito menos parecido com um ser humano no mundo que aquele. Lembrava mais um ponto luminoso, se não fosse a palavra ponto muito pequena para tamanho brilho. Apesar de sua pouca extensão, a qualquer lugar que ia, completava-o apenas com a sua presença.

Seu som cativava, era cochicho ao ouvido e grito despertado por intensos sentimentos. Por isso, havia moradores que afirmam ser Brilho um parente do vento, certamente. Fechava-se os olhos só para sentir sua envoltura...

Outros o comparavam ao mar, por sua imensidão em vida e seu azul que acalenta. Mas afirmar que Brilho era azul gerou muita polêmica, pois a maioria ouvira falar de cor diversa. Parecia que cada um vira ou ouvira falar de uma cor diferente.

Um grupo de sonhadores (composto talvez pela maioria da vila) acreditava que não havia como comparar Brilho com coisas terrenas como vento e mar. Para esses, o sujeito se assemelhava ao Sol, porque de seus olhos emanava alegria, e sua luz e calor fazia tudo ao redor sorrir e viver também. Entregava-se à sua simpatia e sedução...

Ou ainda Brilho seria charmoso como a Lua: da camisa ao gesto, do silêncio às palavras. Despertou gestos, palavras, sentimentos, mesmo quando apenas dizia: “Boa noite”...

Ouvindo esses relatos (se é que se pode chamar de relatos essa quase tentativa de descrever alguém ou definir algo), parece incrível que Brilho fora conhecido apenas naquela vila, e não tenha conquistado o mundo.

Mas ele conquistou alguém. Diz a lenda que Brilho se apaixonou por uma bailarina que ali morava, que o correspondia em igual sentimento. Ela, cativada por algo de mágico que ele tinha, e ele, encantado por tudo de sonho que ela era, decidiram se unirem em alguma forma eterna – e viraram poesia. A esta poesia é que os moradores da vila deram o nome de amor.

E Brilho, agora Poesia, conquistou o mundo.