terça-feira, 5 de abril de 2011

Homo cronos


Dois minutos. Dois minutos e ela estava no metrô. Precisava chegar à estação, vencer duas quadras, passar pela segurança do prédio e alcançar o nono andar. Mesmo depois de trinta anos morando com a pontualidade inglesa, não se endireitava. Era brasileira.

Chegou um minuto atrasada, arfando. Em torno da mesa, todos já a esperavam.

- Está pronta, Silva?

Claro, claro que estava. Havia trinta anos que esperava por aquilo. Desde quando ingressou no projeto, com um seleto grupo de cientistas, almejava que aquele momento se concretizasse. E quem deixaria de fazê-lo, quando enfim descobriam uma forma de viajar no tempo?

- Agora que todos estão aqui, repassemos os procedimentos...

Não era a primeira vez que se reuniam para testar a máquina; era a sétima. Nas quatro primeiras, nada acontecera. Na quinta, um relógio simplesmente sumira. Na última, um dos cientistas desaparecera. Era um risco, sim. Mas para esses cientistas, era o mesmo risco que corriam todos os comuns ao andarem de carro ou ao se sujeitarem a um tratamento médico.

Ao se posicionarem na máquina, apoderou-se de Silva o pressentimento de que era hoje – era desta vez que, enfim, seriam bem-sucedidos. Era como se o tempo percebesse a iminência de sua perturbação...

De repente, as luzes se apagaram, os motores foram acionados e os cientistas (unidos, cada um nas suas individuais incógnitas) sentiram um solavanco, como se puxados para um vórtice de alta velocidade. A curiosidade não os impediu de fecharem os olhos e as mãos com força.

Tão logo tudo começou, parou. Atordoados, como quem viaja horas, anos ou décadas, o grupo se vê na mesma sala de segundos antes – mas trinta anos mais nova, segundo o calendário na parede. Como planejado.

Os cientistas gritaram triunfantes e jubilosos. “Eureca, Eureca! Trinta anos em trinta segundos! Eureca!” Entre saltos, abraços e sorrisos, uns olhavam pelas janelas e viam, como Silva, a cidade como os recebera, três décadas atrás. Uma visão com certo distanciamento, com ar de superação, de quem imagina... até onde poderia alcançar... o domínio do homem...