sexta-feira, 8 de abril de 2011

A Mente no Escuro

Nota da Autora:
Este conto é um pouco diferente das costumeiras fantasias que eu publico aqui no blog, pois a idéia que estava na minha cabeça precisava de uma forma diferente. Espero que gostem! =]


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Era uma noite como qualquer outra. O vento de fim de tarde prometia chuva. Chuva que não chegou. A noite avançava fria. Até seus ossos estavam gelados, pois havia levado um casaco leve para o trabalho. Esquecera de ver a previsão do tempo e quando saíra de casa estava sol. Mas sempre fazia sol na hora do almoço naquela cidade, não importava o quanto estivesse enevoado pela manhã ou o quanto choveria à tarde – sempre fazia sol na hora do almoço.

Puxando a jaqueta em volta do corpo ossudo e gelado, apressou o passo. Rogério tinha ainda mais vinte minutos de caminhada até seu destino. Poderia pegar um ônibus, mas aquele mês havia sido apertado e ele não se importava em economizar os vale-transportes que a empresa lhe dava em dinheiro. Além disso, ele estava precisando de um pouco de exercício.

À medida que caminhava para dentro do bairro, a noite se adensava a sua volta, as casas e prédios diminuíam de tamanho enquanto as sombras aumentavam. Virando uma esquina próxima, um cachorro latiu para outro e eles se atracaram entre rosnados e ganidos. Rogério se sobressaltou, quase pulando para a rua no momento em que um carro passava. Porém, ao chegar na esquina e conseguir ver aqueles sons furiosos que ecoavam entre as casas vinham apenas de dois cachorros, acalmou-se consideravelmente.

Entrou numa rua mais iluminada que a anterior e seu coração parou imediatamente de bater descompassado. Quando mal havia chegado à metade de seu caminho, ouviu passos fortes ali perto. "Toc-toc toc-toc" faziam os passos duros e secos como madeira batendo na pedra. Rogério apressou o passo, mas o som ficou mais forte. O receio paralisava sua nuca, mas o bom-senso e o medo de ser assaltado conseguiram quebrar esta barreira e ele olhou para trás. Não havia ninguém mais na rua.

E os passos continuavam se aproximando.

Ele continuou andando mais apressado que nunca, agora olhando para trás constantemente. Ao virar a esquina, quase atropelou uma mulher que carregava uma bolsa grande e pesada e duas sacolas de supermercado. O som de passos então diminuiu e se afastou junto com os sapatos de salto alto da jovem senhora.

Soltando um riso meio nervoso pelo nariz, Rogério continuou andando.

Enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta, apertando-a ainda mais contra o corpo. O vento soprava mais forte e gelado. Talvez chovesse durante a noite. Uma boa e longa chuva para lavar aquela terra assombrada pelas sombras. Nem mesmo as mais densas e negras sombras eram páreo para o alegre reflexo da luz dos postes nas poças tremeluzentes de chuva. Pelo menos era assim que Rogério pensava.

Os minutos seguintes foram os mais silenciosos e sombrios de sua caminhada. Os postes fracos e afastados lançavam sombras longas sob seus pés, fazendo-o ter uma estranha noção de descontinuidade do espaço. Os poucos ruídos que ouvia nas redondezas faziam seu coração disparar, apenas para depois constatar que não passava de algum animal, carro ou pessoa que passava. Seu coração, porém, acelerava ainda mais quando não conseguia encontrar a fonte do barulho, dando asas às mais terríveis cenas que sua imaginação podia criar.

Ao fim de sua caminhada, enfim avistou um porto seguro. As luzes da casa pareciam mais luminosas do que as vizinhas, derramando-se sobre a calçada e alcançando a rua. A cerca branca e baixa era guardada por um cachorro proporcionalmente baixo e branco, que latiu algumas vezes quando Rogério se aproximou do portão. Tocou a campainha e logo teve a visão mais confortadora que poderia ter o dia todo: os olhos cheios de sorriso de sua amada, Juliana.

- Você demorou – ela falou e cumprimentou-o com um beijo.

- Tive que ficar mais tempo no escritório. Este mês não está fácil.

Juliana concordou e puxou-o delicadamente pelo braço na direção da porta. Rogério deixou-se guiar de bom grado. Tudo no que conseguia pensar era naquele vão de luz que passava pela porta de entrada da casa e deixava ver ao fundo da sala de estar a sua confortável poltrona. O mais importante de tudo é que voltaria agora para um ambiente seguro e claro, onde poderia ver tudo a sua volta, sem levantar dúvida alguma sobre...

No momento em que botara o pé no primeiro degrau da entrada, as luzes de toda a rua se apagaram. Não só da rua, mas do bairro todo, e de mais três bairros vizinhos, de modo que até o céu se tornara mais escuro pela falta de energia.

- Xi... – Juliana exclamou, quase tropeçando em Rogério. - Vamos ter que acender algumas velas. Nós temos velas?

Eles não tinham velas.