sexta-feira, 29 de abril de 2011

Uma Noite de Velas

Era um estranho fim de tarde. Apesar de ser outono, um vento morno e fraco soprava alto. A Senhora sabia que não era o mesmo vento que soprava no chão, pois sua torre se erguia a muitos e muitos metros acima da cabeça de qualquer criatura conhecida pelo homem.

Da janela mais alta, ela olhou para baixo, para a planície que se estendia até os morros distantes. O pôr-do-sol alaranjado projetava uma longa sombra escura que partia de um único ponto destoante de toda aquela paisagem. Este ponto caminhava na direção de sua Torre. Sabendo o que esperar, ela desceu as escadas espiraladas de pedra escura e esperou à porta.

A sombra encostou na base da Torre e não tardou muito para que o ponto que a projetava chegasse até a porta. Só que o ponto era em verdade uma pessoa. Uma jovem mulher com uma capa e capuz tão misteriosos quanto o conjunto negro-arroxeado que a Senhora vestia, só que de um tom vermelho escuro com bordaduras douradas. As duas se cumprimentaram com acenos de cabeça discretos

- Será uma bela noite, não acha? – a Senhora de Vermelho falou, abaixando o capuz. Seus lindos olhos azuis brilhavam com o sorriso que ela trazia no rosto. Pouco se podia ver por baixo do capuz da Senhora, mas ela sorria da mesma forma.

- Belíssima! Trouxe o combinado?

- Trouxe isso e muito mais – a Senhora de Vermelho falou tirando de dentro do manto uma caixa de madeira clara inteiramente marchetada.

- Ótimo! Podemos começar agora, enquanto ainda resta um pouco de luz do dia.

A Senhora tirou de dentro da Torre cinco caixas como aquela, só que mais escuras, e as duas se puseram a caminhar lentamente em volta da Torre.

Dentro de cada caixa tiraram um sem-número de velas, uma mais diferente que a outra. Havia velas vermelhas, brancas, amarelas e de diversas outras cores e misturas, ornadas com flores ou pinturas, laços ou absolutamente lisas. Porém, o que todas tinham em comum era isto: todas elas já haviam sido acessas em algum momento, e de todas restava apenas um toco com o pavio queimado.

À medida que as Senhoras colocavam as velas no chão, iam também acendendo-as. Dentro de alguns minutos o sol se pôs completamente atrás das colinas. Terminada a tarefa, elas se retiraram para a Torre e subiram até a sacada mais alta. De lá podiam ver todo o seu trabalho.

As velas acesas no chão, daquela distância, pareciam um emaranhado de constelações, fazendo ligações invisíveis entre si, formando desenhos que logo se dissolviam numa nova imaginação. Acima de suas cabeças, as verdadeiras constelações tentavam imitar o desenho das velas, embaralhando-se. O movimento das estrelas no céu noturno sem lua e o leve bruxulear das pequenas chamas no chão formavam uma dança de luzes encantadora e, ao mesmo tempo, intensa, que durou a noite toda.