sexta-feira, 22 de abril de 2011

Uma Viagem Qualquer

O Viajante chegou à Encruzilhada dos Pinhões numa rara manhã ensolarada. As pessoas estavam alegres, pois normalmente as manhãs eram nebulosas e frias, mas naquele dia puderam deixar os casacos em casa. Alguns esqueceram de deixar também a carranca no armário, mas em geral as pessoas estavam descontraídas.

Naquele tempo, não havia mais uma estrada principal que cruzasse outra na Praça Central. A antiga encruzilhada da qual o Viajante se lembrava estava agora afogada em edifícios altos e rodeada por uma malha de asfalto e pedras que encobria suas origens. Realmente, fazia muitos anos que saíra de lá, tantos que nem se lembrava mais onde havia parado de contar. Tudo o que reconhecia era um ou dois edifícios do centro e nada mais.

Sentou num banco da Praça Central e pôs-se a observar as pessoas que agora viviam no lugar. Pessoas apressadas que olhavam para os próprios pés ao andar. Pessoas que esbarravam ombro no ombro e não olhavam olho no olho ao se desculpar e responder que não era nada, isso quando sequer se desculpavam. Pessoas que olhavam nos próprios relógios de bolso em vez de erguer os olhos para o relógio da Igreja em sua modesta torrinha com adornos de madeira.

Perto do meio-dia, sentiu fome. Achou um lugar ali perto para comer, mas continuou com fome. Não era apenas seu estômago vazio que tinha fome. Era sua alma, seu lado humano. Aquela cidade estava cheia de pessoas – até cheia demais -, mas não tinha vida. Não havia o pulsar ritmado de corações em uníssono, não havia gentilezas e agradecimentos sinceros. Não havia contato, não havia conexão. Não havia mais luta, conquista, vitória. Havia apenas o dia-a-dia e a rotina, o marasmo confortável e sufocante daqueles que deixaram de sonhar.

De repente, um brilho no meio da praça chamou sua atenção. Não era exatamente um brilho, mas um calor. Ou talvez apenas um pulsar, pois não era mais quente que qualquer outra pessoa. Era um conforto, uma conchego, era algo... humano.

Um pequeno garoto estava parado perto da mais alta e velha araucária da Praça Central. Ele olhava para a árvore e para uma placa ao lado dela, e depois para a praça e seu entorno. O Viajante se aproximou e imediatamente reconheceu o lugar: era onde costumava vender pinhões na sua juventude, que ele mesmo catava por ali. Agora só restara aquela antiga araucária de todas as que o sustentaram naquele tempo.

- Você cresceu – ele falou sorrindo para a árvore, com um olhar nostálgico.

- Quem é você? – o Menino perguntou, curioso com os estranhos trajes daquele jovem homem que acabara de se dirigir à árvore.

- Sou apenas um nômade que faz do mundo o seu lar – o Viajante respondeu, ainda distraído com suas memórias.

- Você é um sem-teto, moço?

- Não, não! – o Viajante riu, finalmente olhando para o garoto. – Eu apenas não tenho endereço fixo, pois estou sempre mudando de casa. Há muito tempo morei aqui, quando precisei, e eu vendia pinhões, aqui mesmo nesta praça. Mas era um lugar bem menos movimentado na época.

- Mas a cidade sempre foi movimentada. Pelo menos, desde que eu posso me lembrar. Há quanto tempo você saiu daqui?

- Ixx... Já perdi a conta. Algumas... décadas, eu diria.

- Mas você é tão novo! – o Menino exclamou. E, de fato, o Viajante não parecia ter mais que vinte e tantos anos.

- Ora, obrigado! Você é muito gentil! – o Viajante troçou, deixando o garoto sem graça. Depois, acrescentou: - Você não devia acreditar em tudo que vê. Eu posso não ser tão novo quanto pareço, nem esta cidade tão velha quanto dizem os livros. De fato, a Encruzilhada dos Pinhões é assim, um aglomerado de estradas diferentes, passando por lugares diversos em tempos incertos. É meio difícil localizar as coisas por aqui se você não conhece bem essas estradas. É fácil perder a noção e onde e quando se está. Não que a cidade seja caótica – pelo contrário, é muito bem organizada, as pessoas que vivem aqui estão de parabéns. Mas alguma coisa na Encruzilhada que faz com que quem esteja fora dela acabe se perdendo quando entra em uma de suas estradas. Porém, é um perder-se bom, místico de certa forma, diferente de tudo que há lá fora.

O Menino olhava para aquele estranho forasteiro com olhos arregalados e brilhantes e queixo solto, ávido por ouvir mais. Nunca alguém falara da sua cidade com tanto carinho e particularidade, como se conhecesse cada pedacinho dela e como ela funcionava, nem mesmo os velhos que passaram todas as suas vidas sem colocar um pé pra fora dali. E ele parecia conhecer muitos outros lugares tão bem quanto conhecia a Encruzilhada dos Pinhões, e ele queria muito saber o que havia lá fora.

- O senhor já viu muitos lugares? – o Menino perguntou, tímido.

- Oh, sim! Não me chamam de "Viajante" a toa. Quer ouvir algumas das minhas histórias? – o garoto acenou positivamente com a cabeça de forma vigorosa. – Então vamos fazer o seguinte: você me compra um sorvete e eu te conto algumas histórias dos lugares mais estranhos e maravilhosos que já vi.

O menino franziu o nariz, desconfiado. - Não era você que deveria me comprar sorvete?

- Não sei. Eu deveria?

- Minha mãe sempre disse pra não aceitar doces de estranhos, então não era você que deveria me oferecer o sorvete, já que você é um desconhecido?

O Viajante riu, olhando de soslaio para a velha araucária e a placa a seus pés. - Talvez eu não seja tão desconhecido assim.