sexta-feira, 27 de maio de 2011

Caixa de Sonhos

Fazia anos que não voltava para sua cidade natal. Ivan lamentava que tivesse que fazer isso agora, sob circunstâncias tão tristes. Lamentava não ter estado lá uma semana antes que fosse, ao menos para se despedir. Agora era tarde, haveria muitas lágrimas e muito sentimento de culpa, e não havia mais nada a se fazer.

Ainda era de manhã. O enterro de sua avó seria no final da tarde, e ele evitava encontrar os parentes na casa da velha. A última coisa que precisava agora era ver a família chorosa, os primos que nunca deram atenção àquela senhora, os tios que a abandonaram para viver em outra cidade quando tinham a sua idade. Pelo menos seus pais a receberiam de braços abertos no céu, ou onde quer que eles acreditavam estar.

Parou em uma lanchonete qualquer para tomar um café, havia passado a noite toda na estrada. Não conhecia o lugar, e ninguém ali o conhecia; muita coisa havia mudado na cidade desde que partira. Em cada gota de café sentia o gosto amargo do remorso. Ou talvez fosse o grão de má qualidade. Ou os dois. Era amargo de qualquer forma saber que ela morrera sozinha. A mulher forte e determinada que o criara sozinha depois que seus pais morreram num assalto. Aquela mulher que, com tanto zelo, abandonou seus sonhos para cuidar dele. E ele a abandonara.

Sabia que a mulher tinha grandes sonhos e que tinha uma bela carreira quando era jovem. Ela pilotava dirigíveis como ninguém, era o que seu avô dizia. Mas depois que os filhos vieram, praticamente abandonou a carreira. E, um após o outro, eles a abandonaram. Todos os seis saíram de casa logo depois de completar vinte anos para tentar uma vida promissora em cidades maiores, até seu pai. Raramente visitavam. Ela estava quase retomando sua carreira a pedido de um velho amigo quando seus pais morreram e ela tomou para si a responsabilidade de criá-lo. Ivan tinha pouco mais que três anos na época. Ela não voltou a pilotar dirigíveis. Quando seu avô morreu, então, ela abandonou qualquer perspectiva de voltar a voar para poder cuidar dele.

Mas Ivan não saíra de casa como o pai ou os tios, apenas por causa das poucas oportunidades daquela cidade. Ele também tinha grandes sonhos, e a avó sempre o incentivara a ir atrás deles. Foi ela que pagou seus estudos e o curso de engenhos. Foi ela que comprou as primeiras peças do seu primeiro invento. Foi um fracasso total, mas ainda assim um bom investimento. E foi ela que o levou para a capital com dezessete anos, para que ele tivesse mais oportunidades. Ivan as encontrou e as aproveitou, estava conseguindo construir uma carreira baseada em veículos motorizados. Mas agora a avó não podia ver o seu sucesso.

Terminou o café com um gosto marrento na boca. Decidiu ir até a casa da velha antes que os parentes lhe roubassem alguma coisa. Sabia que a velha deixara a casa para ele, o neto mais novo, pois estava na carta que recebera no dia anterior. Seus tios e primos não concordariam com aquilo. Já sentia o início de uma dor de cabeça que duraria meses.

Chegando lá, encontrou pelo menos metade dos parentes. Alguns preparavam o almoço, outros se instavam em seus antigos quartos e alguns na sala e no escritório. O resto estava num hotel ali próximo, mas viriam para o almoço. Mal teve tempo de deixar sua jaqueta no cabide da entrada que o tio mais velho veio com o testamento da senhora sua mãe em mãos. Estava escrito que eles não poderiam ler o testamento até que toda a família estivesse reunida, com a conseqüência que nenhum deles receberia nada se não respeitassem essa cláusula. Sendo assim, com todos reunidos à mesa na hora do almoço, o tio mais velho leu o testamento.

Não havia palavras floreadas e nem um último desejo da velha senhora de que os filhos se dessem bem – sabia de algumas brigas e rixas entre eles e era realista. Limitou-se a falar de respeito mútuo de forma breve. O silêncio foi grande e não houve troca de olhares.

Quanto à herança, não havia muito. Dinheiro, pouco mais que algumas centenas que ela conseguira guardar da pensão nos últimos meses – este deveria cobrir as despesas de seu enterro, e o que sobrasse iria para o orfanato da cidade. Quanto ao inventário, havia uma lista que ia de roupas, brinquedos velhos e até fotografias dos filhos e netos. Apenas coisas de valor sentimental. Quanto aos itens da casa – louças, móveis e a própria casa – ela deixara a Ivan, assim como os seus objetos pessoais que ficaram para trás. Quanto aos objetos da própria velha, muita coisa ela deu às filhas. Apenas um objeto seu no quarto pertencia a Ivan: uma caixa de madeira escondida sob uma tábua debaixo da cama.

Ouvindo isso, Ivan correu para o quarto. Alguns parentes vieram atrás, achando que a velha tinha um tesouro escondido. Ele afastou a cama e começou a bater nas tábuas de madeira, esperando ouvir um som oco. Quando finalmente o encontrou, levantou a tábua e encontrou a caixa. Seus parentes prenderam a respiração. Talhado na madeira com letras finas e rasas estava escrito "Caixa dos Sonhos". Ivan a abriu e, imediatamente, lágrimas brotaram de seus olhos, ao mesmo tempo que seus parentes soltavam cochichos frustrados ou continuaram olhando amuados e incrédulos.

Por cima de tudo dentro da caixa estava um desenho de giz desbotado num papel amarelado. Era, provavelmente, um dos primeiros desenhos de sua avó, de quando ela era criança. Era o desenho de um dirigível. Atrás deles, outros desenhos da infância, um cachorro, um papagaio, ela com uma roupa de bailarina/professora/cientista e, o mais incrível deles, montanhas flutuando em contraste com um céu muito azul. Depois dos desenhos, alguns tesouros de criança, coisas brilhantes e miniaturas, pelo menos metade delas eram dirigíveis. Aquilo fez Ivan chorar abertamente, sem fazer esforço nenhum para conter as lágrimas. Até os parentes mais gananciosos e enxeridos deixaram o quarto nessa hora, devido às palavras de respeito no testamento da velha.

Debaixo das miniaturas, mais papéis. Desta vez eram fotografia monocromáticas e recortes de jornal. As notícias eram sobre ela: primeira mulher a cruzar o oceano num dirigível, prêmio de pilota revelação do ano, isso muitos anos atrás. Nas fotos, ela e todos os seus colegas de profissão faziam pose para registrar o início de uma viagem perigosa. Em algumas identificava rostos conhecidos, amigos que a visitaram quando ele era criança. Algumas fotos eram de povos e terras exóticas.

Por último, havia um envelope. Estava endereçado a "Erica e família", e havia uma data. Ivan teve a vaga noção de que era do ano em que seu tio mais velho nascera. Dentro do envelope, a mais surpreendente das imagens que vira até então. Ele sentia que estava tendo um déjà vu ao ver montanhas flutuantes recortadas contra o céu. Mas havia duas grandes diferenças entre aquela e a primeira imagem: nesta havia muitas nuvens no fundo, densas e escuras, e não era um desenho, mas sim uma fotografia. E havia uma dedicatória no verso:

"À mulher mais incrível do mundo e sua nova família em terra,
felicitações do Capitão e da sua eterna família dos ares."