sexta-feira, 13 de maio de 2011

O Capitão (parte 1)

Um sonho começa assim: uma imagem desperta um desejo, que alimentado se transforma em ambição, que se une ao propósito de vida e se traveste de sonho. Quando o sonho se realiza, porém, no que se transforma?

* ~ * ~ *

Amanhecia. O céu começava a se tingir de cinza-amarelado, clareando aos poucos. O Capitão estava estirado na grama, esperando o sol sair detrás das colinas para secá-lo. Havia passado a noite toda se banhando no lago, nadando em meio ao reflexo das estrelas daquela noite de céu sem lua.

Seu coração estava calmo. Todos os seus sonhos estavam realizados. Ele era um homem sem ambições, sem preocupações na vida. Podia se dizer completo. E não havia nada que preocupasse ou ocupasse sua mente no momento.

Mas este não é o estado natural da natureza humana. Um coração ambicioso e sonhador, mesmo sem ambições momentâneas, não descansa. Está sempre em busca de mais, da perfeição, do novo, do desconhecido. Um coração explorador não se permite descansar por muito tempo.

Quando se levantou para vestir a roupa que jogara na beira do lago, o Capitão sentiu o familiar comichão. Era em algum ponto da sua nuca, que guiava o seu olhar em vez de coçar. Lentamente, ele voltou seu olhar para o lago. Ali ele havia realizado o seu último sonho – nadar na Via Láctea – e ali, agora, ele encontrava o próximo.

O sol iluminava a água transparente, revelando um fundo rochoso coberto de limo e algas nos mais diversos tons de verde e marrom. Pareciam montanhas vistas de longe, flutuando num céu turvo de neblina com suas árvores balançando lentamente ao vento. Assim como as estrelas fizeram-no buscar um pedaço do céu naquele lago, agora o lago o impelia a buscar um pedaço da terra nos céus, por mais improvável que isso parecesse.

- Se eu consegui nadar na Via Láctea, não é impossível encontrar montanhas flutuantes. Não se eu realmente tentar.

Com o coração estufado e brilhante, o Capitão foi até seu dirigível para começar a sua nova busca. Porém, deteve-se para dar uma boa olhada para sua máquina. Ela já estava bem velha e enferrujada em algumas partes, e o balão estava cheio de remendos. Sem falar que era uma máquina pequena, para uma tripulação de um homem só, e seu novo sonho era muito mais complexo e ambicioso que o último.

- Acho que vou precisar fazer algumas modificações. E arranjar uma tripulação. Onde vou arranjar pessoas tão loucas quanto eu?