sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Capitão (parte 2)

Ele ia à frente da cabine, olhando o céu em frente com um ar sisudo. Os anos haviam tornado o seu cabelo grisalho e seu andar mais lento, mas o brilho no olhar, mesmo rodeado por rugas ranzinzas, era o mesmo de quando era jovem. O cachimbo na boca expelia uma tênue fumaça que enevoava o ar parado do lado de dentro dos vidros, mas não prejudicava a visão. Não havia muito para se ver de qualquer jeito. Aos lados e atrás do dirigível, o céu se estendia num azul clarinho e úmido. À frente, uma enorme massa cinza-chumbo expelia raios que não tocavam o chão, mas iam de um lado para outro como um aviso ameaçador. O perigo era claro, mas o Capitão não se deixava abalar. Todos os mapas que havia analisado de outros capitães que exploraram a região antes dele lhe apontavam uma única coisa: o seu destino estava ali, numa linha reta que atravessava a nuvem.

Um breve momento de epifania lhe ocorreu. Era curioso pensar que havia começado sua exploração celeste como um lobo solitário – ou melhor, um gavião solitário -, buscando seus sonhos de forma louca e inconseqüente. E agora, ali estava ele, comandando uma pequena tripulação na direção do seu maior e mais ambicioso sonho. A máquina que usava era a mesma, apenas modificada para comportar um número maior de pessoas e atingir maiores distâncias em menos tempo. Tinha responsabilidades para com eles. Tinha que cuidar da segurança de todos e cumprir com as promessas, afinal, como sua alcunha apontava, ele era O Capitão.

De toda a sua tripulação, desde os dois brutamontes que alimentavam o motor com carvão até o magricela que lia os instrumentos do painel principal, havia uma pessoa que ele havia escolhido para ser seu protegido. Ou melhor, protegida. Ela era a única mulher de sua tripulação e a melhor pilota que ele vira em ação sobre os cinco continentes. Porém, o que realmente o fez contratá-la foi o brilho ambicioso em seus olhos, o mesmo que ele exibia com orgulho quando era jovem. E ele precisava ser lembrado dessa época, de quando as coisas eram mais simples e menos estrambólicas. Muitos lhe aconselharam que não era bom ter uma mulher na tripulação, podia causar problemas, mas ela sabia cuidar de si mesma. Nem duas semanas atrás, a Timoneira quase jogara um dos brutamontes da tripulação ao mar – de uma altitude considerável – apenas por ter elogiado sua silhueta de forma rude. Não tinha com o que se preocupar.

- Senhor! Senhor Capitão! – chamou o tripulante quatro-olhos que analisava os radares. – Os instrumentos estão cegos! Não consigo obter nenhuma leitura dentro dessa nuvem. Seria melhor darmos a volta nela.

- Não, de jeito nenhum! – ele respondeu com voz firme e grave. – Não vamos desviar nem um centímetro de nossa rota. Não sabemos o quão extensa é esta tempestade. Pode ser que o que buscamos esteja no meio dela. Aliás, eu tenho um bom palpite de que está lá o nosso objetivo. Digam ao cozinheiro para separar cinco garrafas do melhor vinho! Sinto que estamos perto. O que está esperando, homem?! Nos vamos entrar, e quero que todos estejam preparados.

O tripulante quatro-olhos anunciou num microfone para o resto da tripulação que entrariam na nuvem de tempestade, que aquele podia ser o dia que todos estavam esperando. As expectativas eram altas, mas também o temor. Todos se prepararam mental e emocionalmente tanto para o dia mais especial de suas vidas quanto para o último.

- Vou precisar que dê duzentos por cento de si, Timoneira – o Capitão disse, se aproximando da moça e falando baixinho para que apenas ela ouvisse o tom de preocupação em sua voz.

- Eu sempre dou trezentos por cento de mim, Capitão! – a moça respondeu, séria.

- Sim, por isso mesmo estou dizendo que pode relaxar um pouco agora.

Ambos sorriram enquanto o dirigível adentrava a enorme nuvem de tempestade. Raios passavam ao largo da aeronave e os ventos aumentavam de intensidade. Aquela não era uma situação normal. Haviam encontrado outras tempestades antes, mas aquela era mais violenta que todas as outras. Parecia que tinham entrado num furacão, apesar de que, de fora, ele parecia apenas uma imensa nuvem cinzenta imóvel, e estava muito distante do solo.

A Timoneira comandava o leme e as alavancas de estabilização com maestria, como se fossem uma extensão de seu próprio corpo. O dirigível ameaçou virar incontáveis vezes, mas em todas elas a moça manteve a aeronave firme em seu curso.

Depois de longos minutos que pareceram dias, a Máquina Voadora chegou ao que parecia ser o olho do furacão. Um buraco rasgava a nuvem acima de suas cabeças, deixando o sol entrar. Não havia vento nenhum ali, apenas uma leve brisa, se tanto. E no centro de tudo, aquilo que eles todos buscavam, o destino final, enfim, o sonho.

- É lindo, não é, criança? – o Capitão disse. Sua voz estava embargada de tanta emoção. A idade lhe permitia até derramar uma lágrima solitária, que escorria pelas rugas em torno dos lábios. A Timoneira não conseguiu encontrar palavras adequadas para descrever o que via.

* ~ * ~ *

Um sonho começa assim: uma imagem desperta um desejo, que alimentado se transforma em ambição, que se une ao propósito de vida e se traveste de sonho. Porém, quando o sonho se realiza, no que se transforma? Qual a finalidade do sonho quando ele deixa de ser sonhado para ser vivido? Ele cresce, muda, diminui? Ou ele se multiplica, gerando outros sonhos?