sexta-feira, 6 de maio de 2011

Um Beijo Azul

Um Pássaro da Garoa fazia o seu ninho calmamente no vão que encontrara na casca de uma árvore. Ele nascera bem depois dos outros, e crescera depois dos outros. O seu ritmo de fazer as coisas era sempre depois que todos já haviam feito tudo que se havia para fazer. Ele viu a época dos ninhos cheios de novos casais florescer, mas não sentiu o chamado do Verão. Agora que os outros pássaros lhe diziam que a época de construir ninhos já estava passando e indo embora junto com o calor, ele finalmente sentiu o chamado do Verão. Construiu seu ninho de gravetos e mato seco, fazendo-o bem espaçoso e aconchegante para uma companheira que não tinha.

Terminada a tarefa, partiu rapidamente, dando vários "adeus" apressados aos conhecidos sem dar-lhes tempo de perguntar sobre o seu destino. Aos mais insistentes, disse apenas que ia atrás do verão. E partiu, de fato, atrás do que ele considerava ser Verão.

Os pássaros da garoa não são aves particularmente grandes. Cabem na palma de uma mão, ou empoleiram-se facilmente sobre um dedo esticado. São, em geral, pássaros festeiros, que voam curtas distâncias rapidamente, mas sem o costume de fazer longas viagens. Este Pássaro da Garoa, porém, arriscou-se por vastos céus e terras desconhecidos por diversos dias, sobrevivendo como podia. Até uma cadeia montanhosa ele ultrapassou, sempre voando na direção do sol nascente, em busca do seu Verão.

Acostumado que estava a voar entre as árvores, o Pássaro da Garoa fazia boa parte do seu caminho abaixo da copa das árvores. Apesar de a viagem ser mais longa assim, sempre encontrava abrigo e comida facilmente uma vez que se habituava com aquela mata tão diferente da sua. De onde saíra havia, sim, uma mata densa, mas não tão densa quanto aquela, que parecia quase não ter espaços cobertos só por grama. E, mesmo sob a sombra das folhagens, ele sentia o calor voltando. E fazia calor o dia inteiro, não só quando o sol estava mais alto, como na sua terra. Ele sabia que estava cada vez mais perto, podia sentir isso na ponta de suas penas verde e amarelas.

Em mais uma tarde cansativa em que a mata parecia não ter mais fim, ele encontrou o Verão. De súbito entrou numa área em que as árvores eram mais finas e o chão de areia, com a água invadindo a terra aqui e ali, até que todas as raízes das plantas estivessem submersas na água. Essa área era menor do que ele esperava, e além dela estava o que ele sabia – não, sentia – ser o Verão.

A sua frente não havia árvore nenhuma, nenhum pedaço de terra, nenhuma nuvem cinzenta, nenhum material para se fazer ninhos ou outros pássaros a ocupá-los. Havia apenas o azul, infinitamente e para todos os lados que se olhasse. O céu acima e o mar logo embaixo. No meio dos dois, o horizonte a limitar os infinitos. Era ali que se encontrava o Verão, no limite do que não tem fim, bem a sua frente, onde a vista alcançava. Por um instante, o mundo se fez silencioso. Havia apenas o grande beijo azul entre o Céu e o Oceano para se contemplar, e nada mais.

- Se ao menos eu pudesse levar um pouco desse Verão para o meu ninho... – suspirou o Pássaro da Garoa. - Não teria nenhuma tristeza que pudesse me abater neste mundo!

Aos poucos, os sons do mundo foram voltando aos ouvidos do Pássaro da Garoa. Primeiro, o som do próprio mar, as ondas quebrando naquela estranha praia de árvores finíssimas. Depois, o som do céu, o vento que soprava na costa e, ao longe, sons de pássaros que ele nunca conhecera na vida. Um desses sons desconhecidos, porém, pareceu-lhe muito próximo e estranhamente familiar. Levantou vôo, procurando sua origem. Entrando e saindo das copas das árvores delgadas ele viu, com enorme surpresa, um bando de pássaros tão pequenos quanto ele, mas com penas mais coloridas. Havia apenas ouvido boatos sobre eles, seus primos distantes, mas tinha certeza que se tratava deles: os Pássaros do Verão.

Um dos pássaros do bando o avistou e se aproximou. Era uma bela passarinha com penas brancas e azuis.