terça-feira, 28 de junho de 2011

Metanóia metalinguística (parte 2)

O voto de confiança que sua professora lhe conferiu fez com que Leonardo tomasse coragem para enfrentar o papel em branco. Assim que chegou em casa foi direto para o seu quarto. "Almoço depois."

Quando as idéias surgem dentro da cabeça, nada pode retê-las. Ou eternizamo-las no papel, ou perdemo-las no limbo da nossa imaginação. Talvez um dia essas idéias voltem quando menos estivermos esperando, mas como nunca sabemos quando essas idéias irão voltar (se é que vão voltar...) deixar de anotá-las, desenhá-las, rabiscá-las, é um risco muito grande que Leonardo não estava disposto a correr naquele momento.

Entrando em seu quarto, Leonardo jogou sua mala em cima da cama, sentou na sua cadeira e puxou uma folha de papel em branco e um lápis. Olhou para o papel, respirou fundo e começou a escrever. O lápis estava sem ponta. Estou tentando pensar em outra analogia para expressar a agonia que Leonardo sentiu naquele momento, mas acho que vou precisar ser politicamente incorreto por falta de opção melhor:

Imagine-se com piriri, angustiado, correndo para chegar à "casa do Pedrinho" e quando você vai girar a maçaneta para abrir as portas da esperança, descobre que a porta está trancada.

Analogias infames a parte, voltemos ao Pedrinho, digo, Leonardo. Infinitos segundos se passaram até Leonardo encontrar um lápis com ponta ou uma caneta que funcionasse. Estes instantes, porém, foram suficientes para aquietar a urgência criativa de Leonardo, e lá estava ele encarando o papel em branco mais uma vez.

É muito fácil julgá-lo, mas é preciso que eu seja sincero e admita: o papel em branco assusta sim, e muito. Podemos até saber o que dizer, desenhar, escrever, compor, mas toda vez que nos expressamos, estamos na verdade, nos expondo.

Talvez seja por isso que Leonardo estivesse com dificuldades para começar a escrever sua redação. De fato ele sabia por onde começar, mas faltava-lhe coragem para admitir diante de seus colegas o prazer que preencher o papel em branco com palavras, idéias e frases lhe proporcionava. Pois, se o papel em branco assusta por um lado, preenchê-lo, pintar de grafite a imensidão da folha A4 traz um prazer indescritível.

A história de Leonardo não termina aqui, por isso não vou me esforçar em escrever uma conclusão ou uma lição de moral, mas é importante que se diga que ele enfrentou o papel e venceu.

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Nota do Autor:

Metanóia: palavra de origem grega (μετάνοια), indica mudança de mentalidade;
Metalinguagem: linguagem utilizada para referir-se a própria linguagem.