sexta-feira, 17 de junho de 2011

Metanóia metalinguística (parte 1)

- É muito difícil escrever, professora.

- Mas desde o começo da aula você nem pegou na caneta! Ficou só olhando para o papel.

- Pois é, professora, mas eu não sei por onde começar...

Todo mundo diz isso, já percebeu? Essa provavelmente é a desculpa mais comum quando somos desafiados a escrever. Leonardo é um bom aluno. Não senta na primeira carteira e nem responde a todas as perguntas da professora, mas presta atenção nas aulas e costuma ter um desempenho satisfatório.

Leonardo é bom de papo. Mesmo assim, quando seu pai foi transferido para cá, Léo ficou preocupado, pois teria que fazer novos amigos, recomeçar sua vida social do zero. Se você (é, estou falando com você mesmo, leitor) tem mais de 20 anos é possível (e pessoalmente eu espero...) que você já tenha superado essa sufocante preocupação com o que os outros pensam, mas Léo ainda não.

Leonardo está entrando na adolescência. Encontrou sua primeira espinha duas semanas atrás. Assim como seu corpo, seu coração também está navegando por mares nunca dantes navegados. Toda vez que Fernanda vem conversar com ele... Bem, eu falarei sobre a Fernanda em um próximo conto.

A verdade é que Leonardo está tentando impressionar seus novos colegas de turma (especialmente a Ferna.... ops). Acompanha o futebol de fim de semana só para ter assunto para conversar com a galera na segunda-feira, ouve músicas de que não gosta, mas que estão na moda, fica quieto durante as aulas, mesmo quando sabe a resposta das perguntas do professor e faz de conta que não sabe por onde começar sua redação.

O sinal toca indicando o final da aula. É incrível como nessas histórias de escola o sinal sempre toca em momentos estratégicos. A professora informa a data de entrega da redação enquanto a turma guarda o material dentro da mala.

- Leonardo, está conseguindo escrever sua redação?

- Ainda não, professora. Eu não sei por onde começar. - responde nosso herói enquanto ambos caminham pelo corredor.

- Sabe, Léo, tenho muitos alunos com dificuldades para escrever e essa costuma ser a reclamação mais comum entre eles... Mas, sinceramente, não acredito que esse seja o seu caso. Só não sabe começar a escrever quem não tem o que dizer e, pelo pouco que eu te conheci desde que você chegou, eu acho que você tem muito a dizer...

Certas coisas, quando ditas por certas pessoas valem muito. E, para Leonardo, ouvir sua professora falar isso foi o encorajamento que ele precisava.