terça-feira, 21 de junho de 2011

O Pequeno Felino

O Grande Felino ouviu um barulho abafado vindo do quarto de seus súditos. Entrou com passos leves e vagarosos, tomado pela curiosidade. O som vinha da toalete. Ao espiar para dentro da porta, ficou muito chocado com a cena que viu.

Há algumas semanas, seus súditos humanos passaram a adorar outro nobre ser semelhante a ele. Era mais jovem e imprudente, não possuindo nem metade da sabedoria que ele adquirira com os anos, e estava dando trabalho ensiná-lo nas artes de sua raça. A cena que viu ao entrar no banheiro ao mesmo tempo o divertia e o envergonhava, pois aquela criatura que o lembrava constantemente da sua própria superioridade também era um poderoso felino como ele. E estava enrolado naquela fita branca e macia que os seus súditos usavam em sua higiene pessoal.

- O que está fazendo? – perguntou o Grande Felino sentado à porta do toalete. O Pequeno Felino parou de rolar no chão e se sentou também no piso frio e quadriculado.

- Eu sou um gato-múmia! O espetáculo de ontem na caixa mágica dos nossos súditos era sobre seus antepassados sanguinários que enrolavam as pessoas mortas assim. E depois de anos eles reviveram! Aparentemente, os humanos de hoje tem muito medo que esses distantes parentes cruéis voltem à vida.

- Fascinante - o Grande Felino bocejou.

- Sabia que os antepassados de nossos súditos também adoravam gatos? E os que faziam isso antigamente eram as civilizações mais avançadas que existiam!

- E daí? Isso só é mais uma prova de que os nossos antepassados foram bem sucedidos em domesticar e civilizar esses humanos selvagens. Bem feito aos pagãos. Agora deixe de brincadeiras e venha apreciar o banquete do dia. Senti cheiro de atum vindo da cozinha.

- Atum! Adoro atum!

O Pequeno Felino saiu correndo para o salão de refeições, deixando um rastro de papel branco picotado por onde passava. O Grande Felino o seguiu calmamente, com toda a graça e elegância que poderia ter na sua idade, com a redonda barriga a balançar de um lado para o outro enquanto descia a escadaria de pedra.

O banquete foi tradicionalmente servido nas coloridas travessas redondas e fundas; a vermelha para o Grande Felino e a verde para o Pequeno Felino. Os comuns petiscos crocantes haviam sido guarnecidos com atum desfiado, o favorito dos dois. Enquanto comiam, os humanos lhe faziam uma massagem relaxante.

- Não é sempre que eles nos servem atum – observou o Pequeno Felino.

- Demonstre o seu agrado para que se empenhem mais na próxima pesca e encham a dispensa com barris de atum.

Os dois felinos se puseram a ronronar o mais alto e agradecidos que podiam, demonstrando seu contentamento. Os humanos sorriram e comentaram entre si o quanto eles gostavam de atum. Isso era um tanto quanto óbvio, mas mesmo assim eles continuavam se surpreendendo como o ronronar alto durante as refeições.

Mais tarde, quando a humana fêmea se dirigiu aos seus aposentos, soltou um grito que pôde ser ouvido em todo o castelo. O Grande Felino já esperava aquela reação e nem pensou em sair do seu macio pedestal almofadado. Já o Pequeno Felino, ainda inexperiente no trato de seus súditos, correu para ver do que se tratava. Chegou lá antes do humano macho, e adotou um posto estratégico debaixo da cama de onde podia ver a porta aberta para a toalete do casal, onde estava a humana com mas mãos no alto da cabeça.

- O que houve? – o homem perguntou.

- Olhe só isso! – a mulher apontou para o piso do banheiro, onde pelo menos meio rolo de papel higiênico estava picotado e espalhado por todos os cantos. – Por que é que o Alex faz isso?

"Ela está me questionando?" o Pequeno Felino pensou, empertigando-se como bom senhor do castelo que era, mas continuou só observando.

- Ah, ele é novinho ainda. Deve ter visto o papel balançando com o vento e quis brincar. Ainda vai levar mais de um ano para ele ficar mais calmo que nem o Bonaparte.

- Tomara que fique, viu! Não agüento mais arrumar as bagunças dele.