sexta-feira, 10 de junho de 2011

Vaso de Flor

O Menino acordou com um susto. Não teve um sonho particularmente assustador, mas fora incrivelmente estranho. Sonhara que estava entregando vasos de flores para as pessoas. Nada de mais, apenas isso. Porém, por alguma razão, aquilo parecia extremamente importante. Foi o sentimento de urgência que o fizera acordar tão de repente.

Tentou voltar a dormir, mas as cenas do sonho iam e vinham na sua mente, impedindo-o de descansar. O sol já estava se erguendo, fazendo muita luz entrar no seu quarto. Resignado, levantou-se. Já que o sonho insistia em se fazer importante, ele daria a devida atenção a ele.

Foi até a casa da Menina e tacou algumas pedras na sua janela para que ela acordasse. Já se conheciam a anos! Tantos que nem parava mais para contá-los. Já havia passado dos dez dedos que tinha nas mãos, de qualquer jeito. Uma amizade assim tão longa não precisava de contagem.

A Menina abriu a janela com os cabelos despenteados e os olhos semi-cerrados, com uma cara sonolenta pouco amigável. Depois de jogar de volta as pedrinhas no Menino, ela perguntou o que ele queria tão cedo numa manhã de sábado.

- Preciso comprar alguns vasos de flor.

- Tem uma floricultura a três quadras daqui. Precisava me acordar pra isso?

- Preciso que você vá comigo.

- Por quê?

- Porque eu preciso.

A Menina resmungou algo como "Tá, só um pouco" ou "Tá, seu tosco", ou ainda "Tá louco!". De qualquer forma, logo ela desceria de roupa trocada, café tomado e cabelo penteado. Por mais que não tivesse recebido uma resposta satisfatória do Menino, ela o acompanharia. Sempre o acompanhava em suas idéias malucas.

E, como previsto, ela desceu. Ainda com cara sonolenta, mas um pouco mais amigável que antes.

Os dois foram até a floricultura ali perto e esperaram quase meia hora até que ela abrisse. O Menino disse que precisava de uma flor para a mãe, o pai e o irmão, e pediu que a Menina o ajudasse a escolhê-las. Depois de avaliarem cada tipo de flor que existia na loja, chegaram às finalistas.

Para a mãe do Menino eles compraram um belo vaso de violetas escuras com um filete branco na borda das pétalas. Para o pai, um vasinho de samambaia mini havaiana, pois era fácil de cuidar e alegre, apesar de não ter flores. Para o irmão, que ainda tinha só quatro anos, o Menino comprou um vaso com um girassol, que um dia ele mesmo plantaria debaixo da janela do outro para que sempre pudesse ver a flor quando ela se abrisse para o sol.

Quando estavam pagando as compras, a Menina reparou que o amigo estava levando um vaso a mais, mas sem flor. Foram, então, até a casa dele, onde pintaram os simples vasos de barro cozido com desenhos bastante característicos e coloridos. Até o quarto vaso foi pintado.

Mais tarde, a Menina o acompanhou enquanto ele entregava os vasos à sua família. A mãe o encheu de beijos e convidou a menina para comer um bolo caseiro, já que ela havia ajudado a pintar o vaso. Seu pai lhe deu um abraço e brincou, dizendo que algo tão bonito só podia ter sido feito com a ajuda de uma garota. E o seu irmão... bem, ele quase deixou o vaso cair quando o pegou, então o Menino o colocou sobre uma prateleira em que ele ainda não pudesse alcançar, mas que ainda assim era visível da cama do irmão.

Ao fim do dia, enquanto deixava a Menina na porta de casa, o Menino lhe entregou o quarto vaso, aquele sem flor. A Menina olhou pra ele bastante confusa.

- Este é pra você plantar o que você quiser – ele disse, corando.

A Menina agradeceu o presente, mas ficou tão encabulada quando ele.

Os anos se passaram, e a amizade do Menino e da Menina mudou junto com eles. Tiveram brigas, fizeram as pazes, paqueraram e se afastaram, ficaram por muito tempo longe, sem trocarem uma só palavra, e um dia se reencontraram. Durante todos esses anos, a Menina manteve o vasinho de flor vazio. Não conseguia decidir o que plantar nele.

Foi só quando os dois estavam mudando para a sua nova casa, já com elos dourados na mão esquerda, que ela finalmente soube o que plantar naquele vaso que ambos haviam pintado muitos anos atrás: um amor-perfeito.