sábado, 30 de julho de 2011

Brasília

Leonardo estava se sentindo no meio de uma reportagem do Jornal Nacional ao participar da cerimônia de premiação do concurso de redação em algum salão nobre de algum dos palácios da capital. Embora sejam edifícios muito bonitos, só mesmo estudantes de arquitetura, direito ou guias de turismo para decorar os nomes de todos os palácios e prédios públicos de Brasília. Mas vamos pular direto para a história propriamente dita antes que o autor se empolgue falando de arquitetura.

Leonardo, portanto está, junto com outros 25 adolescentes de todos os estados do país, no centro das atenções de uma cerimônia cheia de pompa em um salão nobre de um prédio importante. Enquanto recebe das mãos de uma proeminente autoridade (cujo nome ele não conseguiu guardar), um diploma e um prêmio simbólico por seu desempenho no tal concurso, Leonardo reflete sobre as circunstâncias que o levaram até aquela situação e o quão irônicas elas podem ser.

Embora esteja diante de uma grande platéia composta por dezenas de pessoas e milhões de máquinas fotográficas com flashes frenéticos, a única garota que ele gostaria que estivesse alí com ele está do outro lado do país, em casa.

"Será que ela está pensando em mim? Será que ela percebeu que eu não fui para a aula hoje? Será que ela lembrou que eu faltei justamente porque viajei para cá para receber o prêmio?" É claro que ela lembra, Léo. E no tempo certo você vai descobrir que ela também estava pensando em você nessa mesma hora, enquanto procurava um canal de TV ou site na internet que estivesse transmitindo a cerimônia.

Mas embora Fernanda volta-e-meia passasse por sua cabeça, o que realmente incomodava Leonardo era saber que ele ganhara uma passagem de avião e hospedagem na capital, estava vestindo um terno elegante e uma gravata horrível que sua mãe o obrigou a colocar e recebendo um prêmio que sua mesada nunca conseguiria pagar. E tudo isso justamente por ter colocado no papel a sua indignação com a forma como as pessoas mais pobres desse país são privadas de privilégios tão básicos como o direito a sonhar, à auto-estima e orgulho próprio.

Sentimentos de alegria e indignação se misturavam dentro de sua cabeça. Se por um lado receber reconhecimento por seu trabalho era algo muito bom (todo escritor gosta, tá? #ficaadica), por outro lado sentir-se imerso no sistema que ele criticara dava-lhe a certeza de que somente uma redação não tinha sido capaz de mudar o mundo.

O herói então decide assumir a missão que lhe guiará daqui para a frente. A habilidade e o gosto por escrever são coisas que podem valorizá-lo muito, mas a premiação em Brasília provou-lhe que aquilo que nos alimenta o ego nem sempre nos alimenta a alma. Daqui para a frente Leonardo irá usar aquilo que sabe fazer para lutar por uma vida mais digna para aqueles que precisam. Uma redação não foi o suficiente, mas talvez mil redações sejam. O leitor talvez considere tudo isso uma utopia, mas é como algum ilustre defunto disse certa vez: se queremos mudar o mundo precisamos começar lavando os pratos.