terça-feira, 5 de julho de 2011

Choco


O avô estava aconchegado na sua cadeira, mas não parecia feliz.

- Tem ido no supermercado? – pergunta-lhe o filho, em tom de incentivo.

- Mais ou menos... – disfarçou, cabisbaixo e triste.

- ´Tá indo nada! – interrompe a avó com seu tom agudo, dedando o companheiro – Não sai do apartamento, fica chocando!

“Chocando” parecia cair como uma luva para descrever aquela imagem. Ele usava uma touca que lhe cobria as orelhas, um roupão comprido e verde quadriculado, com uma rosa dos ventos vermelha nas costas. Por baixo, usava ainda grossas calças de moletom, com pantufas do mesmo tom da touca. Ainda dava para ver as golas de várias blusas sobrepostas, o que o deixava ainda maior. Desse jeito, podia esconder o que quisesse entre as roupas. O que poderia estar em meio a uma blusa e outra? Bolas de futebol, um saxofone, um faisão, fotos amareladas...

A verdade é que o vô há muito que não chocava mais nada. Só frio – ou um resto de calor.