sexta-feira, 22 de julho de 2011

Como uma Gota de Chuva

Acima dela, o azul imaculado de um céu de brigadeiro se estendia até onde a vista alcançava. Abaixo, uma colcha de retalhos formada por plantações quadriculadas e cidades cinzentas sem forma. Eventualmente um fio de prata cortava a terra lá embaixo. A sua volta, suas irmãs voavam devagar com o vento, sem se importar para onde estavam indo.

Mas ela sabia para onde estavam indo. Logo iriam todas para baixo numa corrida demorada, pois eram muitas. Podia até durar dias! Fazia cinco semanas que o verde daquela região estava amarelando por causa do atraso dela e de suas irmãs, que chegavam encobrindo o sol e quase transformando o dia em noite.

Mas aquela gota queria ver melhor. Lá de cima, as cidades não passavam de borrões, mas sabia que nelas habitavam milhares de pessoas. Queria tanto vê-las mais de perto que ficou na beirada mais baixa da nuvem, mas mal conseguiu distinguir os prédios das ruas. Tentou tanto se aproximar que acabou se desprendendo de sua nuvem. As gotas mais próximas avisaram as outras, e logo milhares delas se desprenderam da nuvem tentando alcançá-la. Mal sabiam que aquele salto não teria volta.

O Rapaz caminhava cabisbaixo. Há semanas que não chovia, e essa seca afetava a sua criatividade. Seus amigos diziam que ele era praticamente um peixe, pois se mudara para perto de um rio quando saiu da casa dos pais (que foi canalizado logo em seguida, para seu descontento) e seus momentos mais inspirados e criativos coincidiam com as mais fortes tempestades de verão. Aquela seca estava realmente sendo prejudicial para ele, ainda mais com os prazos de entrega no trabalho chegando tão perto.

Ele parou no meio da calçada e olhou para cima. Aquela nuvem cinzenta que pairava sobra a cidade prometia chuva, mas os meteorologistas diziam que ela ia apenas passar sobre a região, levando chuva para outro estado. Soltou um suspiro desanimado, perguntando aos céus o que poderia fazer para tornar seus desenhos mais inspirados.

Foi então que viu algo brilhante no céu. Aproximava-se rapidamente e era muito pequeno. Quando bateu na sua testa, aquele ponto ficou gelado e molhado. Os olhos do Rapaz se arregalaram, contemplando uma idéia genial que até aquele momento parecia fugir de sua mente, mas que agora estava tão próxima e nítida que era quase tangível.

- É isso! – ele exclamou, enquanto mais e mais gotas de chuva caiam sobre ele. As pessoas que caminhavam ao seu redor correram para baixo dos abrigos mais próximos ou então abriam seus guarda-chuvas com certa surpresa. Mas o Rapaz permanecia olhando para cima com um largo sorriso no rosto.