sexta-feira, 1 de julho de 2011

Vício Dourado

O Rei estava novamente vagando pela praça de uma cidade desconhecida. Suas roupas coloridas estavam em farrapos, seus pés doloridos, sua barriga vazia e ainda não havia nenhum sinal de sua coroa. Sabia que teria seu reino de volta assim que a encontrasse, mas a busca o levava cada vez mais longe de seu castelo e ele não estava mais próximo de encontrá-la agora do que quando começara sua busca.

E havia ainda o espelho da Artífice... Nele o Rei vira sua própria morte. E nela ele usava sua coroa e estava rodeado por toda a sua corte no salão de seu castelo. E ainda era tão jovem... Saber que morreria daquele jeito, traído por todos, o fazia quase querer desistir de sua busca. Mas ele não podia. Ele precisava ter a sua coroa, precisava mandar no seu reino. Ele era O Rei!

Sentou-se na borda de uma fonte, de costas para a água que jorrava. Ficou ali, só com seus pensamentos, cabisbaixo. Só reparou que havia alguém lhe fazendo sombra quando sentiu o calor do sol indo embora, e então levantou o olhar. Era uma Menina que o olhava curiosa, de perto, enquanto comia um sorvete tão rosa quanto seu vestido.

- Olá – ele disse, sem emoção. Então lembrou-se de quem era e endireitou a postura, pigarreando para limpar o abatimento na voz. – O que quer, garotinha?

- É você de novo – ela disse, ainda curiosa, ainda comendo o sorvete.

- Como assim "de novo"? Eu sempre sou eu.

- É que já vi o senhor andando por essa praça um monte de vezes. O que você faz aqui?

O Rei se espantou. Podia jurar que nunca estivera naquela cidade. Eram todas tão parecidas para ele, com suas fontes em praças centrais que ele nunca sabia realmente onde estava. Agora que reparava melhor, percebia que já havia se sentado num banco a alguns metros dali e sabia que a duas quadras para o sul ficava a casa do Ourives Magnífico, o homem que lhe recusara fazer uma coroa nova porque não acreditara que ele era rei.

- Por que estava tão triste? – a Menina perguntou diante do silêncio do homem engraçado com roupas estranhas.

- Ora, eu... – o Rei parou de súbito. Não havia motivos para manter a pompa numa situação daquelas. Com um suspiro, falou a verdade: - Porque eu sou um rei sem coroa, garota. Ela me foi roubada há muito tempo e ainda não consegui recuperá-la. E eu sei que, quando a recuperar, eu serei morto pela cobiça de outros homens. Eu vi meu futuro, e não é bonito.

- Mas você quer morrer?

O Rei ficou amuado por um instante. Era óbvio que ele não queria morrer, ainda mais tão jovem. Nenhuma pessoa gostaria de morrer jovem.

- Claro que não, garotinha.

- Então porque você continua procurando a sua coroa?

- Oras, porque eu sou o Rei! Ela é minha de direito! Sem coroa, um rei não pode governar seu reino.

A Menina ficou olhando para aquela homem. Os adultos não faziam sentido para ela. Se ele morreria ao encontrar sua coroa e morrer era algo que ele tentava evitar, porque a queria tanto?

Ela deu a última lambida no seu sorvete e virou a casquinha para baixo, vendo se não havia mais nenhuma gota. Olhou de volta para o Rei com uma expressão clara de confusão.

- Então tá – ela disse simplesmente, virando-se e indo até o lixo mais próximo, e depois de volta para a companhia de outras crianças da praça.

E o Rei continuou sozinho com seus pensamentos e anseios à margem da fonte.